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Meus caros Leitores,

Devido ao meu Blog ter atingido a capacidade máxima de imagens, fui obrigado a criar um novo Blog.

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sábado, 14 de janeiro de 2017

O Abade de Baçal





O Abade de Baçal


Este nome sonante e sobejamente conhecido trata-se de Francisco Manuel Alves, nascido em Abril de 1865 e falecido em Novembro de 1947, fazendo este ano de 2017 setenta anos do seu falecimento, 152 anos do seu nascimento, em 5 de Abril.
Baçal é uma aldeia de Bragança que fica numa das ligações de Bragança à fronteira espanhola pelo lado de Portelo ou Rio Onor, isto é para o lado norte.
Esta aldeia fica situada na margem do rio Baçal, daí que não conhecemos se foi o rio que deu nome à povoação que é pequena, pouco maior que a Aldeia de Dem, de Caminha, de mais ou menos com cerca de 400 habitantes.
O Abade de Baçal, ordenado em 1889, ficou memorável não só pela sua vida de pároco da aldeia onde nasceu, mas pelos seus livros e registos antropológicos, etnológicos, arqueológicos e históricos da sua região, assim como etimológicos e toponímicos.
O seu trabalho foi tão notório e importante para a Região de Bragança que a cidade fundou em 1935 o Museu com o nome do Abade de Baçal, que é um espaço cultural muito importante para quem visita Bragança. Este Museu foi feito em homenagem ao referido abade na região é fácil entrarem testemunhos deste padre em sua homenagem.
O Abade escreveu bastantes livros sobre a região e a cidade em si. Várias reedições estão todas esgotadas, daí o interesse para o passado brigantino e melhor interpretação no presente da cultural da região.
Também a Escola de “Abade do Baçal” com origem em 1890, começou a designar-se por Escola Secundária de Abade de Baçal desde 1992.
O topónimo Baçal faz-me lembrar a presença de água e aí está, é uma povoação banhada pelo rio Baçal. A origem desta palavra é difícil, mas não terá nada a ver com bacalhau, nem com bacalla italiana, ou o bacalao espanhol, nem espinheta de bacalhau mais conhecida pelo calão punheta que hoje ainda é conhecida entre os luso-descendentes na Malásia, mais concretamente no Bairro dos portugueses em Malaca.
Alguns referem que Baçal terá origem na palavra bacanal, o que não será provável porque então teria origem em rituais pagãos da iniciação própria da adolescência perante a divindade Baco.
A morfologia deste topónimo pode beneficiar esta interpretação, mas o local de lutas celtas ou anteriores, de Viking, não se deve pôr de lado, de outras línguas anteriores época romana, línguas mais primitivas.
Ainda a propósito "abaços" de origem indo-europeia significa macã; baçal de origem árabe quer dizer cebola pode ainda trazer mais embaraço a palavra Bacú um determinada espécie de peixe existente em rios da américa do sul  em romeno Baciú, mas baço, baçar e baceiros, o que dizer...Não sei se o abade de Baçal chegou à explicação  desta palavra...Será uma "corruptela" de basalto?




A foto foi recolhida da Net e os textos duma carta publicada algures pelo aniversário e no ano da sua morte foi-me fornecida por uma sobrinha neta, Nazaré esposa de Manuel Afonso.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Abade Matos - Apontamentos avulsos

Abade Matos
                                                         Apontamentos avulsos

O abade António Francisco de Matos nasceu em 9 de Julho de 1860, em Mazarefes, filho de Francisco António de Matos e de Antónia de Piedade de Passos Pereira Maciel, “de Castelo de Neiva”, ambos lavradores. Eram seus avós paternos o José António de Matos, tenente da guerra da Maria da Fonte, e Maria Rodrigues e maternos António Lourenço de Passos Pereira Maciel, cirurgião em Esposende, e Maria Martins (de Figueiredo) ”do lugar de Castelo de Neiva.” Era da casa dos quatro chicos: O Francisco António Matos era o pai, o porco era Chico, o burro (cavalo) era Chico, e o criado Francisco de Aguiar, de Barcelos. Ele próprio o dizia a brincar. Com o nome de António foi feito cristão, pelo baptismo católico e pela mão do Pe. José de Araújo Coutinho, por doença grave do Abade Manuel Rodrigues Lima, que era o pároco, levado ao colo da madrinha Rosa de Jesus Passos Pereira Maciel, em 13 de Junho do mesmo ano, quatro dias depois de nascido.
Estudou em Braga. Era um jovem inteligente, dinâmico, criativo e cheio de vida.
Conta-se que um dia apareceu em Braga com uma bicicleta (......)

Ordenou-se sacerdote em 20/11/1887, e foi nomeado pároco de Mazarefes em 1892. Faleceu confortado com os últimos sacramentos, com 87 anos, em 07/03/1947. Foi ordenado pelo Arcebispo Primaz D. António José Freitas de Honorato.
Celebrou as bodas de ouro sacerdotais em 20 de Novembro de 1937.

Deixou à freguesia bens como a sua casa para Residência Paroquial e cerca de 20.000m2 de terreno que ficou a fazer parte do passal.

Nunca deixou morrer pobre nenhum à fome.
Depois da morte dele, a única pessoa da freguesia a precisar de ajuda foi a Maria Crasto, no tempo do Pe. Delfim, de Darque quando esta ficou anexa àquela Paróquia. Era a família Galhofa que preparava a lista.. Faça a lista que eu leio-a de semana a semana, dizia o prior de Darque. No fim de cada missa era lida na igreja para que os paroquianos fossem levar a comida a casa daquela família. Isto ainda conheci porque só acabou quando dois filhos começaram a trabalhar e decidiram por sustentar a família. Era criança de 9/10 anos.



Eram assim as listas:
1ª semana – Segunda-feira, Manuel Rodrigues Gomes; Terça-feira, Inra D. Ezabel; Quarta-feira, Manuel Fernandes Liquito; Quinta-feira, Manuel Fernandes Forte; sexta-feira, Manuel Gonçalves Dias; Sábado, José da Costa Dias; Domingo, José Pinto da Costa
2ª semana Segunda-feira, Domingos Rodrigues de Araújo Coutinho; Terça-feira, António Rodrigues da Rocha; Quarta-feira, José de Araújo Vaz Coutinho; Quinta-feira, Manuel Gomes; Sexta-feira, Viúva de Manuel Ferraz de Miranda; Sábado, Avelino Correia Lavandeira; Domingo, Francisco Gonçalves de Souza.
3ª semana – Segunda-feira, Glória Alves...; Terça-feira Alexandre R. Coutinho; Quarta-feira, Avelino Martins de Souza; Quinta-feira, Ana Alves; Sexta-feira, Manuel Rodrigues de Araújo; Sábado, José de Araújo Coutinho; Domingo, José Rodrigues de Amorim.
4ª semana –Segunda-feira, António Augusto Vieira de Amorim; Terça-feira, Rosa Ribeiro Coutinho; Quarta-feira, Miguel Afonso Forte; Quinta-feira, Manuel Agostinho Paulino; Sexta-feira, Joaquim Alves Coutinho; Sábado, Armindo Delfim Correia Ribeiro; Domingo, Rosa da Cunha.
5ª Semana – Segunda-feira, Conceição da Cunha Meira, Terça-feira, José Gonçalves Pequeno, Quarta-feira, Artur Augusto Matos; Quinta-feira, Viúva de Manuel Ribeiro da Riba, Sexta-feira, Artur Pedro da Silva Domingues; Domingo, Francisco da Silva Coutinho.
6ª Semana – Segunda-feira, José de Oliveira Silva Reis; Terça-feira, Teresa Rodrigues Leite; Quarta-feira, António Rodrigues de Araújo Coutinho; Quinta-feira, António Ribeiro Gomes; Sexta-feira, António Afonso Forte Ribeiro
7ª Semana – Segunda-feira, Agostinho Rodrigues de Carvalho; Terça-feira, Engrácia Fernandes Dias; Quarta-feira, Manuel de Matos Gonçalves da Cunha; Quinta-feira, Manuel Francisco Rodrigues; Sexta-feira, João Rodrigues de Carvalho; Sábado, António Rodrigues Carriço; Domingo Maria Rodrigues Vaz.
8ª Semana – Segunda-feira, José Gomes da Cunha; Terça-feira, João Matos Gonçalves da Cunha; Quarta-feira, Joaquim Dias Felix; Quinta-feira, José Gomes da Cunha; Sexta-feira, José Rodrigues Reis; Sábado, José Fernandes Liquito; Domingo, José Rodrigues de Araújo.

Não o conheci, pois faleceu no ano em que nasci, mas era um padre muito piedoso, generoso, um bom amigo, culto, poeta, amigo dos pobres e dos doentes, crítico e  ouvi vários testemunhos de pessoas que lhe ajudaram à missa, andarem na catequese dele, pessoas que ele casou e destaco agora algumas dicas que disseram dele, como um santo e um homem muito bem-humorado, alegre e brincalhão.

Duas piadas dele:
·   Na casa do visconde de Vila Franca,  e num dia de aniversário, uma das filhas, a mais nova do visconde que estava casada para a casa do Junqueira de Mazarefes, vestida com um vestido da cor de canário... - "Aquela menina lá ao fundo vestida de canário"....
- O canário é meu, o canário tem dono, responde o marido...
·   Quanto a D. Júlia  que casou com D. Tomás ... vinha à missa a Mazarefes, no fim iam cumprimentar o Abade à sacristia.
Ai meninas eu tinha um soneto feito ao meu pintagalhinho (canário).
-    Diga o soneto, então.
-    Não digo que envergonho as meninas....
-    É assim: 
      Meu bichinho
      Doudivanas
      Também pintas as pestanas
       Também pintas o biquinho...
       Ai que nojo meu bichinho.


O Abade Matos foi Presidente da Junta da freguesia desde 1896 a 1910.


“Eu pertenço à freguesia mais rica de Viana do Castelo” dizia ele a quem o interpelava: - "Ai Abade o que será de Mazarefes quando o senhor faltar, e continuava, respondendo:” tem bom Alfaiate (O Pulcena), bons Carpinteiros (Geraldo, o Néné e o Simplício), bons Cesteiros (os Galhofas), boa Banda de Música (a Banda do Carvalho), bons Pedreiros ( Zé da Mata e Rocha), bons Fogueteiros (os Miras), bom Latoeiro(o Luciano Carvalho), bons Ferreiros ( Cunha e Forte), bom Sapateiro (o Enes) e vários lavradores abastados. Portanto Mazarefes, segundo ele, não precisava de nada. Era uma terra rica. Tinha de tudo e bastava-se a si próprio não precisava de ir buscar fora.


Tinha gosto artístico e, a propósito, quando ia a Subportela dizia para os daquela terra: Olha que Santos feios, olhando para as imagens da igreja. Em Vila Franca, gozava os daquela terra com a imagem do (…). Ao parar em frente dela dizia com a sua graça natural: quando tirais este “gajo” daqui?... pois era uma imagem com a cabeça muito grande. Então os de Vila Franca trocaram a imagem, mas arranjaram uma imagem maior que mal cabia no nicho. – Ó, tiraste um e puseste outro que nem cabe em casa, continuou ele a brincar.

Aliás ele tinha um espírito muito crítico e por isso, pôs aos de Mazarefes uma alcunha a cada habitante por assim dizer. Punha nomes a toda a gente: És bacôlo.

Uma mulher forte, irmã do Pe. Américo, pároco de Gondarém, veio servir para a casa dele e deu-lhe as dores. Curava ele, como era costume, as dores de barriga com testos quentes. - Alto, isto não é nada comigo... ide chamar a ti’ Ana Dias e preparai-me o burro para a levar para casa dela, a Alvarães.

Na febre pneumónica, só deixou morrer uma senhora, a mãe do Zé “Pirralho” por estar de parto, a mãe do Zé Dias e não resistiu, aliás era costume dizer-se: Quando viesse o médico a alguém, já se sabia que era para morrer...

Houve um dia uma confessada, na Igreja de Vila Franca e havia duas sacristias: uma a sul e outra a norte. O Pe. Manuel Salgueiro de Subportela, o Pe. Zé Pinto, de Vila Fria, o Pe. João Matos, o Pe. Francisco Matos e Pe. Fernandes de Deão, eram os confessores.
Ao sair da sacristia vê um “polícia” e diz o de Vila Franca: - porco..., porco..., Diz o Pe. Francisco Matos de seguida: - porco não, porca sim.. – Tu és poeta, diz o Salgueiro. - Olha rapaz (para o Prior que era novo) -Tu és novo, és rapaz, tens muito que aprender, mas tu, Salgueiro, és parolo porque és velho e não sabes que mijado sobre cagado é de mulher e não é de homem...



Era todo da casa do Estivada, e amigo de Celestino. A primeira mulher do Joaquim Estivada, assim como a segunda que era a Joana Gandra, cozinhava e lá comia com a família.

Ele passava a noite toda à beira de um doente. Disse o Prior de Vila Franca, no seu funeral: - o vosso pároco viveu como um anacoreta, que nem à cama ia. E é verdade que vinha a casa comer à meia-noite e depois ia passar o resto da noite junto do doente...

Chamavam-lhe o “Pardal”. Assim como alcunhava os da sua terra, também o alcunharam a ele.

Não era republicano, nem monárquico, mas “ regenerador” e nesta política comungava com os Miras. Um dia os Miras “assaltaram-lhe” a casa, na hora da liberdade da República, mas nada para mal. Eram amigos e respeitavam-se.


Não calçava botas, mas sapatos ”branquinhos” era um género de sapatos de pano para sair ou ir a Viana, pois na missa usava pantufas. Para o caminho da aldeia eram os socos os seus companheiros e meias de lã de ovelha. O castiçal que tinha na sacristia era um solitário partido onde metia o toco da vela. Para andar de noite usava uma cana com um prego na ponta, onde dependurava um lampeão, andava sempre com um barrete redondo com três dedos de aba e na igreja antes da missa rezava sempre com o barrete. Era calvo, raramente usava a batina, usava mais o viatório e capa ou “guarnacho”. Ele tinha muito cuidado com a saúde.

Era primo do Pe. João Matos, de Vila Franca e primo do Cirurgião Matos de Mazarefes. O seu pai casou duas vezes. A primeira mulher veio do Castelo do Neiva e trouxe uma sobrinha para criar. Era ela tão bonita rapariga que não lhe faltavam pretendentes e, sobretudo no Castelo pelo que veio a casar com o tio aos 75 anos de idade da qual ainda o velhote teve 5 filhos, um deles o Abade.
O pai do Abade casou para a casa das Castelas. Dali saiu a irmã do Abade Matos que foi mãe do Pe. Albino, da Meadela e aí nasceu também o Abade.
Era investigador, poeta, “médico”, artista, um amigo dos pobres. Mantinha um albergue e o povo tinha-o como um sábio e um bom padre.



O Pe. António Quesado, jovem prior, pároco de Vila Franca,  aconselhou a celebrar as bodas de ouro sacerdotais e o Padre Matos fez a vontade, reunindo em Mazarefes, e na sua residência, muitos padres.

Às vezes citam-no, dizendo que «a mulher tem sete manhas e a raposa tem a manha de sete mulheres... e sete vezes sete ....»

Consta que o cadáver do “Rosalina” não se desfez no cemitério, passados muitos anos e o abade Matos pegou numa vara de lodo e deu-lhe uma pancada e desfez-se logo.

O seu sobrinho Pe. Albino Maciel de Miranda entre 1945 e 1946 fez o serviço do tio na Paróquia, pois ele mostrava-se já muito debilitado pela saúde e pela idade.


Era muito alegre, divertido. Raramente se deitava de noite e nos últimos anos nunca foi à cama. Dormia numa espreguiceira. Quando não tinha doentes com quem passar a noite, ia fazer serão para a casa do Alexandre de Araújo Coutinho, meu bisavô... Ia de Verão ou de Inverno da sua casa directo, pelo caminho de terra, lama e pedras, com o lampeão na ponta do pau passar o serão até às tantas depois regressava para se esticar no alpendre, espécie de torre ao centro da casa para a qual subi quando criança e se via tudo à volta até Viana pelas vidraças que a rodeava.
Ainda conheci, onde ele estudava, rezava, escrevia e dormia um pouco antes da missa.

O Património para a ordenação foi-lhe feito pela mãe, viúva, em 16/08/1878 quando ele tinha ainda 18 anos.