Uma ética da Mãe Terra, nossa Casa Comum
12/03/2017
É um fato
cientificamente reconhecido hoje que as mudanças climáticas, cuja expressão
maior se dá pelo aquecimento global é, num grau de certeza de 95%, de natureza
antropogênica, Quer dizer, possui sua gênese num tipo de comportamento humano
violento face à natureza.
Este
comportamento não está de sintonia com os ciclos e ritmos da natureza. O ser
humano não se adapta à natureza mas a coage a se adaptar a ele e a seus
interesses. O interesse maior que domina já há séculos se concentra na
exploração desapiedada dos bens e serviços naturais em vista da acumulação
ilimitada. Junto a isso segue a dominação de outros povos, o colonialismo e o
imperialismo.
A forma como
a Mãe Terra demonstra a pressão sobre seus limites intransponíveis é pelos
eventos extremos (prolongadas estiagens de um lado e enchentes devastadoras de
outro, nevascas sem precedentes por uma parte e ondas de calor insuportáveis
por outra parte).
Face a tais
eventos, a Terra se tornou o claro objeto da preocupação humana. As muitas COPs
(Conferência das Partes), organizadas pela ONU acerca do aquecimento global,
nunca chegavam a uma convergência. Somente na COP21 de Paris, realizada de 30
de novembro a 13 de dezembro de 2015 se chegou, pela primeira vez, a um
consenso mínimo, assumido por todos: evitar que o aquecimento chegue aos 2
graus Celsius. Lamentavelmente essa decisão não é vinculante. Quem quiser pode
segui-la mas não existe nenhuma obrigatoriedade nem penas, como o mostrou o
Congresso norte-americano que vetou as medidas ecológicas do Presidente Obama.
Agora o Presidente Donald Trump as nega rotundamente como algo sem sentido e
enganoso. Esse negacionismo da maior potência do mundo é ameaçador para todos e
para a Terra.
Está ficando
cada vez mais claro que a questão é antes ética do que científica. Vale dizer,
a qualidade de nossas relações para com a natureza e para com a Casa Comum não
eram e não são adequadas, antes, são destrutivas.
Citando o
Papa Francisco em sua inspiradora encíclica Laudato Si: sobre o cuidado da
Casa Comum” (2015): “Nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como
nos últimos dois séculos… Essas situações provocam os gemidos da irmã Terra,
que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, com um lamento que reclama de
nós outro rumo”(n.53).
Precisamos,
urgentemente, de uma ética regeneradora da Terra. Esta deve devolver-lhe a
vitalidade vulnerada a fim de que possa continuar a nos presentear com tudo o
que sempre nos galardoou. Será uma ética do cuidado, do respeito a seus ritmos,
da compaixão e da responsabilidade coletiva.
Mas não é
suficiente uma ética da Terra. Precisamos fazê-la acompanhar por uma
espiritualidade. Ela lança suas raízes na razão cordial e sensível. De lá nos
vem a paixão pelo cuidado e um compromisso sério de amor, de responsabilidade e
de cuidado para com a Casa Comum. Bem o expressou no final da encíclica do
bispo de Roma, Francisco, ao enfatizar “uma paixão pelo cuidado do mundo, uma
mística que nos anima com uma moção interior que impele, motiva e
encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n.216).
O conhecido
e sempre apreciado Antoine de Saint-Exupéry, num texto póstumo, escrito em
1943, Carta ao General “X” afirma com grande ênfase: ”Não há senão um
problema, somente um: redescobrir que há uma vida do espírito que é
ainda mais alta que a vida da inteligência, a única que pode satisfazer o ser
humano”(Macondo Libri 2015, p. 31).
Num outro
texto, escrito em 1936, quando era correspondente do “Paris Soir”, durante a
guerra da Espanha, leva como título “É preciso dar um sentido à vida”.
Aí retoma o tema da vida do espírito. Aí afirma:”o ser humano não se
realiza senão junto com outros seres humanos, no amor e na amizade; no entanto,
os seres humanos não se unem apenas se aproximando uns dos outros, mas se
fundindo na mesma divindade. Num mundo feito deserto, temos sede de encontrar
companheiros com os quais con-dividimos o pão”(Macondo Libri p.20). No
final da “Carta do General “X” conclui: “Como temos necessidade de um
Deus”(op.cit. p.36).
Efetivamente,
só a vida do espírito confere plenitude ao ser humano. Ela representa um
belo sinônimo para espiritualidade, não raro identificada ou confundida com
religiosidade. A vida do espírito é mais, é um dado originário de nossa
dimensão profunda, um dado antropológico como a inteligência e a vontade, algo
que pertence à nossa essência. Ela está na base do nascimento de todas as
religiões e caminhos espirituais.
Sabemos
cuidar da vida do corpo, hoje uma verdadeira cultura com tantas
academias de ginástica. Os psicanalistas de várias tendências nos ajudam a
cuidar da vida da psiqué, para levarmos uma vida com relativo
equilíbrio, sem neuroses e depressões.
Mas na nossa
cultura, praticamente, esquecemos de cultivar a vida do espírito que é
nossa dimensão radical, onde se albergam as grandes perguntas, se aninham os
sonhos mais ousados e se elaboram as utopias mais generosas. A vida do
espírito se alimenta de bens não tangíveis como é o amor, a amizade, a
convivência amiga com os outros, a compaixão, o cuidado e a abertura ao
infinito. Sem a vida do espírito divagamos por aí, sem um sentido que
nos oriente e que torna a vida apetecida e agradecida.
Uma ética da
Terra não se sustenta sozinha por muito tempo sem esse supplément d’ame
que é a vida do espírito. Ele nos faz sentir parte da Mãe Terra a quem
devemos amar e cuidar.
Leeonardo
Boff é articulista do JB online e autor de Ética e Espiritualidade: como
cuidar da Casa Comum, Vozes 2017.









