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sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Cordoeiros de Mazarefes,Tanoeiros,Tecedeiras,Gaspar de Sousa,Rosa Rocha-Zeladora,Remédios caseiros,Padre Cecíli,Valenças,,Abílio Lima de Carvalho

A Cordoaria é actividade antiga
Os cordoeiros de Mazarefes
Em Mazarefes, chegavam barcos espanhóis, ao poço Tranquinho, no século XVIII, para descarregar cordas que vinham da Galiza. Este segredo deu vida aos cordoeiros de Mazarefes que eram os Coutinhos da casa dos cordoeiros.
Assim pensavam os Cordoeiros possuir Mazarefes inteira porque à custa deste negócio enriqueciam e compravam muitas propriedades. A verdade é que dos Cordoeiros eram quase todos os terrenos entre os Catrinos até ao passal do abade, aos Dias; e os terrenos abaixo da Capela das Boas Novas quase até à estrada de baixo, para além da maioria da Veiga de S. Simão e outras zonas das Cachadas, dos Vermoins, das Milheiras, da Mata e da Conchada. Tudo foi muito dividido porque os cordoeiros, os brasileiros e os piscos com quem se cruzaram sempre tiveram muitos filhos.
A casa ao lado direito, para quem sobe, da Capela da Senhora das Boas Novas, que muita gente que lá passa julga ser a Igreja Paroquial de Mazarefes, era conhecida pela Casa dos Cordoeiros. Ainda tenho uma vaga ideia de ver o local onde se dizia que ali se faziam as cordas entre a eira junto à casa e o fundo do lugar.
Não era difícil, bastava uma tábua fixa onde os fios eram presos e levantados por forquilhas de 5 em 5 metros mais ou menos. Mais uma outra peça de madeira ou de ferro, onde entravam os respectivos fios de uma armação para funcionar uma manivela que rodando, transmitia o movimento à peça fixa que no conjunto lhe chamavam o carro. Entretanto os fios entrançavam dando origem à corda. Em todo o comprimento. Era a casa dos meus bisavós que conheci muito bem e que por ali passava o tempo: ia ao forno do pão porque “o pão do vizinho é sempre melhor...” e brincava com os primos...
Ali havia perto um grande tanque de água que para isso também fazia falta.
Houve um Gandra, de Santiago de Aldreu que casou para Mazarefes com uma cordoeira e ele era de profissão cordoeiro, isto nos princípios do século XIX. Esses Gandras vieram para Viana.
A cordoaria continuou em Viana e recordo ainda família ligada a estes Gandras e aos Cordoeiros de Mazarefes que tinham à Rua da Piedade uma casa de vender cordas de todos os jeitos e feitios...
Esta actividade é tão antiga que em Ovar foi erguido um Monumento aos Cordoeiros em homenagem à profissão.
Em Lisboa há a Rua dos Cordoeiros.
Em 1661, perto de Gaia havia uma corporação de Cordoeiros.
Os Cordoeiros tinham também as suas teias.
Em Cortegaça, fabricavam-se cordas e redes no século XVIII para a pesca. Esta actividade era feita normalmente ao ar livre. O comércio começou a desenvolver-se muito antes dos meados do século XX, pelas portas, como os azeiteiros, etc...
As matérias-primas para o fabrico das cordas era fácil: um cavalete ou uma estante onde encaixava uma roda de madeira com manivela.
Ao lado, e presa a esta roda, havia a cruzeta, composta por mojetes onde fixavam as moretas.
A fiandeira punha o sisal à cinta e ia caminhando, soltando-o conforme as necessidades.
Fabricavam-se assim vários tipos de fios, cordas, cordéis, enleias. Normalmente era trabalho para tempo livre das mulheres e das crianças.
No século XIV, já os Judeus eram especialistas nesta arte, mas, enfim, depois afastados, fugidos uns e outros tornados “cristãos novos”, mas sempre apontados pelo dedo, nunca estiveram muito à vontade.
O Campo do Olival, no Porto, pertencia ao Bispo do Porto, tendo sido cedido à Câmara no século XIV. Foi depois destinado à feira do Porto e aí se estabeleceram no século XVII, também os Cordoeiros. Por isso o “sítio da Cordoaria” como ouvi o meu pai chamar-lhe.
É curioso que aparecem muitos Coutinhos ligados a cordoeiros.
A. Viana


Os Tamanqueiros




Em Mazarefes havia tamanqueiros no lugar da Conchada e uma família na Regadia.
É trabalho de artesanato que acabou quase por completo.
O tamanqueiro fabricava e vendia tamancos. O uso desta palavra tamanco deve vir da árvore existente no Brasil cuja madeira era branca e fácil de trabalhar para fazer tamancos, móveis e cabos de ferramentas.
Os tamanqueiros deve ser uma arte antiga. A mais fácil, depois do couro...
Normalmente, as pessoas andavam descalças. Ainda me lembro de vir à cidade descalço e de vir uma proibição de entrar na cidade pessoas descalças. Algumas traziam, às costas, os socos. Os socos era um calçado com um couro pregado no bordo lateral da madeira e onde se metia o peito do pé, uns com mais couro até quase ao calcanhar, outros apenas até ao meio do pé. As chancas que eram de madeira e levavam couro até cobrir todo o pé, como umas botas, com cordões de couro. Havia também as andolas, mais simples, só o feitio do pé, onde ele era pousado e uma correia de couro. Uma fita de couro passava pelo meio do pé e era pregado nos lados laterais do tamanco.
O couro era mais utilizado pelos homens, enquanto às mulheres era reservado o crute.
Os tamancos eram usados como calçado, pelos mais pobres, pelos que trabalhavam a terra. Assim, o pé delicado ou grosseiro, acomodava-se, ganhava calo e robustez e dava bom andar a tamanquear, isto é, o ruído próprio dos tamancos. No caso feminino mesmo as classes mais abastadas usavam a soquinha, mais achinelada.
O traje domingueiro era usado com tamanquinhas mais perfeitas e envernizadas, sobretudo, em relação às mulheres.
A. Viana

Os Tanoeiros




Um tanoeiro é um fabricante de tonéis, pipas, barris, ou tudo o que está ligado à madeira tendo de a moldar, torcer, dobrar, arredondar.
Na Abelheira existia o Domingos de S. João e o Avelino Fernandes Reguengo, faziam de tudo... mas os canecos para ir à água era a grande tarefa...
Na Rua do Cais existia uma tanoaria desde os princípios do século XIX, exactamente onde hoje está instalado o restaurante “O Pipo”. Aqui mesmo no casco histórico da cidade a ocupar todo o espaço entre a casa e o rio.
No entanto, o António Martins, pai do João Martins era conhecido por excelência, o tanoeiro de Viana, mesmo para além de haver uma fábrica junto à Argaçosa, a dos Julles Devèzes, e os da Vinícola entre a estrada nacional e a Rua José Espregueira.
O António Martins era criança e começou a trabalhar de tanoeiro aí na rua do Cais, para um proprietário. Não muito contente fugiu para Lisboa e lá se preparou no mesmo ramo. Veio comprar a casa ao antigo patrão e aí continuou com a oficina de tanoaria que já existia.
O António Martins então foi o grande conhecido em Viana pelo “tanoeiro”, mas ele era especialista no tiro, era mestre em tiro, como já aqui neste jornal abordámos.
O seu filho João Martins, motorista do mar, diz que o seu avô foi tropa da rainha e depois foi polícia. Diz ele que lhe contavam os velhos que o seu avô era um homem forte, como os da Abelheira, polícia, como não tinha havido outro até à data e fazia julgamentos na rua.
Onde chegasse desaparecia tudo. Era o seu avô homem destemido, valentão, muito forte e, onde deitasse a mão, nada lhe escapava. É o que ouve dizer aos antigos.
Quanto ao seu filho António Martins construía até Velames (espécie de roldanas para o içar das velas dos barcos), para os navios, para além dos tonéis enormes para transporte de vinhos.
As tanoarias deram nome a muitos locais.
Em Mafra existem ainda as azenhas dos tanoeiros, muito antigas.
O material utilizado pelos tanoeiros era normalmente madeira de castanho ou de carvalho melhor madeira, mais segura, rija para o transporte de vinhos para as colónias, sobretudo para a África e para o Brasil.
Em Outubro de 1758 os tanoeiros reclamavam melhores ordenados ou emolumentos.
Naquele tempo não havia adega que não precisasse da mão de tanoeiro, mas hoje as coisas são diferentes, o metal resolve tudo ou o tijolo, revestido a cimento e o vidro substitui a madeira para essas coisas.
A. Viana
As Tecedeiras
A Tecedeira entrelaça com certa ordem ou harmonia fios, palha, vime, talas de pau, esteiras, redes, tecidos. A tecedeira precisa do tear para confeccionar peças de roupa, toalhas de mesa, colchas com fios de tecido de seda, algodão, lã, usando agulhas especiais.
O tear é o artefacto mais apropriado para tecer, fabricar tecidos, tapetes, mantas de pano. Todas as casas de bons lavradores tinham o seu tear e colhiam o linho, cortavam “ripavam” o linho, espadelavam-no e preparavam-no para fazer aquilo que fazia falta para a casa ou para um amigo ou vizinho.
Eram segredos antigos de trabalho com o linho para os intervalos das actividades agrícolas ou quando o trabalho da ceifa ou das colheitas abrandava.
O linho era semeado e colhido com os utensílios necessários na nova transformação de planta em novelos, onde as mãos, os dedos e a mente passavam.
Aprender a tecer é uma arte e o nó de tecedeira “não se desfaz”. Tecer é urdir a teia. Antigamente tudo era feito em casa: panos para as albardas dos muares, sacos para os cereais, os lençóis, toalhas de mesa, de mordomia e de rosto, toalhas para os cestos, ceroulas e camisas para os homens, assim como camisas e saias para senhoras...e mantas.
Com as exigências da vida moderna e a competição com as novas tecnologias não é trabalho que vá agora continuar. Todo este artesanato só para museu e exportação, se para tal houver apoios. Tudo era feito ao ritmo das estações. Era pelo S. Martinho que se semeava a fava e a linhaça (semente do linho). As esteiras também eram outra maneira de tecer. Em Mazarefes, eram os “estiras” que aproveitando o junco ou a junça da veiga de S. Simão preparavam esteiras para vender.
O linho crescia, colhia-se em Maio e posto em molhos mergulhados em água na ribeira durante uma dúzia de dias e para garantir que não desapareceria com a corrente prendia-se com pedras ou canas. Depois era seco na eira.
Cozido o linho em água a ferver, com cinza à mistura, até ganhar cor de grão ia corar ao sol e apanhar orvalhos até à brancura. Ficava assim preparado para descansar nos braços da dobadoura, da meada passava a novelos ou aos caneleiros e era enfiado através de uma lançadeira.
Pronto a chegar ao tear, depois de encanelado e de onde saíam passadeiras, mantas, etc. Peças de algodão, linho, lã ou retalhos...toalhas de toda a espécie, toalhas de mesa...enfim...
Em Mazarefes, era no Lago das Lavandeiras, que era demolhado o linho...
Eram várias as casas, sobretudo as casas de lavradores ricos...Os meus avós colhiam o linho nas Bouças do Monte, em Vila Fria e era “rincado” no meio de muita festa, cantigas e mais cantigas, assim como na “ripagem”, no sedouro.
Também ia para Santa Marta, para uma fábrica para o moer e amaciar.
Em Julho ou Agosto, era batido com um maço de madeira sobre pedra dura para gramar o linho, depois num objecto de madeira cheio de pregos à moda de um pente era sedado ou ripado (era o sedeiro), até conseguir a mais fina fibra. Ia à água. Secava e era espadelado e com os filamentos mais grosseiros que caíam e tinham consistência diferente as peças de estopa.
Para lá chegar era preciso passar pelo fulão, pelo ripador, espadeleiro e pelas espadelas, pente, carda para a lã, rocas e fusos, o sarilho, a dobadoura, retorcedor, o urdidor, o tear, o caneleiro.
A tecedeira transportava o fio entre a teia dando-lhe vida e arte cada uma à sua maneira.
Os fios finos eram corridos e transformados em meadas antes de chegarem à roca.
Havia uma canção que ainda está no ouvido. A mulher com a roca numa mão e o fuso na outra:...

A roca da fiandeira,
Fia... fia... fia... bem!...
sentada na berma à lareira
fia... fia... fia... bem!...
Oh! Que linda maçaroca do linho
da minha roca
fia...fia...fia...bem!...
A. Viana


Rosa Rocha a mais antiga zeladora

Rosa das Dores da Rocha, filha de Maria dos Anjos da Rocha, falecida com 101 e 6 meses, nasceu em 07.01.1922 tem agora 85 anos de idade.
Foi, com a mãe, empregada de Mons. José Gonçalves Corucho, na altura, Pároco de Stª Mª Maior e Arcipreste de Viana.
Tinha 15 anos quando foi para a Casa de Monsenhor Corucho que Deus tenha. Era um bom Padre e era amigo dos pobres, mas dava e não tocava a sineta. Entregava uma carta à Rosa e dizia: olha vai àquela casa entrega esta carta, mas não digas de onde vais, nem digas quem te deu a carta, apenas, isto:” entregou-me a carta ali na rua uma pessoa”. O mesmo confirmou a Maria da Piedade da Rocha Brito, sua prima, que também trabalhou na casa deste padre Corucho que era rico, mas também distribuía por quem não tinha.
Não era muito saudável e à morte talvez, aos 76 anos, faleceu e deixou ainda aos sobrinhos e deixou terreno às quatro empregadas, também à Emília que já morreu há muitos anos, para fazerem uma casa.
Só a Maria dos Anjos e a Rosa fizeram casa onde viveram até 2002, altura em que a dera por troca de um apartamento na Rua Castelão Pereira, onde se encontram. A Rosa encontra-se bem com a prima, Maria da Piedade.
O Monsenhor faleceu em 1966 e, desde aí, ainda vive junto à Capela do Senhor do Alívio, tomaram conta do asseio, decoração e zelo por aquela Capela até hoje e já lá vão 40 anos, pelo que bem merece o nosso respeito. Desde 1978, sempre vi o trabalho da sua mãe e dela com muito amor e carinho feito em honra do Senhor do Alívio.
Era uma das crocheteiras, rendilheiras e malheiras da Abelheira que agora não o faz só porque lhe falta a vista e vai passando tempo com a sua prima e levando a vida conforme pode, mas sempre com alegria, sobretudo, quando se trata de ir à Capela do Senhor do Alívio. Aqui fica o registo da nossa homenagem por este serviço dedicado e que toda a gente vê as coisas bem feitas e às vezes não sabe por quem.
Todos ficam a saber que é a “Rosa do Abade” e pela sua prima Maria dos Anjos.

Honra e Mérito
Gaspar de Sousa

Gaspar Alves Ferreira de Sousa, nasceu em 5/XI/1924, filho de José Maria Ferreira de Sousa e de Luísa Maria Alves, nascido em Arcozelo, Ponte de Lima, tendo vindo para Viana aos 9 anos com a família. O pai era agente da PSP e mais tarde foi proprietário do Café Guerreiro, onde se reuniam os amigos do tempo e vendedores de imobiliário e a mãe doméstica. O Senhor Sousa tinha 5 irmãos a saber: o José, já falecido, o Aníbal ex-funcionário do Tribunal de Trabalho, reformado; a Maria do Céu, Carlos e a Acendina, todos casados e com filhos, à excepção do Carlos.
Todos a residir em Viana menos o Carlos. Recordo com saudade o Zé da Cruz Vermelha, enfermeiro chefe da Cruz Vermelha. O Aníbal agora reformado, gosta muito de passar a pé, sozinho ou com a esposa, a Orlanda Novo, ex-funcionária dos CTT e hoje da Direcção da Casa dos Rapazes; a Maria do Céu não a conheço, mas conheço muito bem o seu marido, Engº Eugénio Garcia. Quanto ao Carlos, Ex-Sargento da Força-Aérea pelo facto de viver fora, embora me digam que venha a Viana muitas vezes ainda não o conheço, é casado com Adriana Amorim. A Acendina casada com Francisco Almeida, ambos ex-emigrantes em Moçambique e na África do Sul, agora aqui na Paróquia e aposentados.
Ora esta chamada de atenção para o nosso amigo Gaspar de Sousa, mais conhecido na cidade, como sói do que os tremoços, é o facto de se tratar de uma pessoa excepcional, sobretudo, um homem voltado para o social, para a colectividade, para o desporto, para a cultura, para a comunidade. Neste momento é o Vice-Provedor da Stª Casa da Misericórdia de Viana do Castelo e todos sabem como esta Instituição tem desenvolvido com trabalho quer a nível da Infância e Terceira Idade não só com relevo local como nacional.
O Gaspar de Sousa andou na Escola Comercial e Industrial e começou a trabalhar no Governo Civil depois para a Caixa Regional do Abono da Família, passou para o Sindicato da Construção Civil onde esteve cerca de 38 anos.
Entrou na EDV, quando o filho mais novo fazia parte de aprendiz de natação e foi substituir o presidente, na altura Engº Vale Rego. Nessa altura a EDV não tinha praticamente estruturas suficientes. Gaspar de Sousa com os seus companheiros lançou mãos à obra e em 1998 mais ou menos com mais de 1000 atletas e uma situação financeira razoável foi para a Misericórdia onde ainda se encontra com o tempo todo ocupado sobretudo, na gestão dos lares e admissão dos idosos nos mesmos.
Não foi só por aqui que Gaspar de Sousa se imiscuiu no serviço de solidariedade e do bem comum. Esteve na direcção distrital da A.P.P.A. Foi membro da Direcção do Lar de Stª Teresa, do tempo do Martins Vieira, fez parte do Conselho Paroquial de Pastoral da Paróquia de Nª Sra de Fátima e ainda hoje é membro dos órgãos directivos do Centro Social Paroquial de Nª Sra Fátima.
A Câmara Municipal já lhe reconheceu mérito, como cidadão de Mérito da Cidade e a EDV também como sócio de mérito, com fotografia exposta e outras colectividades desportivas e sociais que serviu sempre como voluntário.
Casou aos 22 de Abril de 1944 em Carvalhal Monte, concelho de Belmonte, distrito de Guarda, com Maria Alcina Cameira de Sousa, que foi funcionária da Delegação da Direcção Geral da Urbanização à Rua da Bandeira, aproximadamente 36 anos, como chefe da Secção e deu-lhe 5 filhos, a saber: Maria Luísa, solteira, Assistente Social; Rui, casado, e funcionário do Tribunal do Trabalho; Manuela, casada, professora de Educação Física, e a Dina professora, casada. Todos com filhos, à excepção da Luísa.
Gaspar de Sousa sempre o apreciei nas suas tomadas de posição nos Conselhos Paroquiais de Pastoral de 1979 a 1985 talvez.
É uma pessoa reflectida, experiente, uma pessoa de fé. Acredita e trabalha pelo bem comum por uma causa transcendente, absoluta, por uma estrela que o conduz e o ilumina distinguindo muito bem o que é suprestição do que é religião. Homem de carácter, de palavra e de um coração tão grande como o mundo.
Ai se ele pudesse... toda gente estava bem. Os filhos vão seguir-lhe os passos, aliás a sua falecida esposa que era do mesmo modo uma mulher de bondade.
É para a Paróquia motivo de orgulho ter um Vice-Provedor da Santa Casa da Misericórdia, um paroquiano, chamado Gaspar de Sousa.




Os remédios caseiros
O homem primitivo naturalmente sempre procurou defesas naturais como medidas institivas para se curar de alguma agressão corporal.
Deste modo ainda hoje se se pica um dedo é vulgar metê-lo à boca e chupar-lhe o sangue.
O cão, os animais lambem as próprias feridas, os seus ferimentos.
Os primeiros remédios foram os chás que chegaram até hoje, sempre evoluindo como remédio natural para muitos males do corpo e do psíquico. É a história das ervas da tradição mais antiga na China, 3000 anos a.c.. No Médio Oriente o primeiro médico egípcio conhecido foi Inhoteps ( 2980 a 2900 a.c.) foi sacerdote que desenhou uma das primeiras pirâmides, foi curandeiro, foi deificado e utilizada ervas medicinais. Há papiros no Museu de Leipzig com 125 plantas e 811 receitas. cf. (www.cotianet.com.pr/eco/herb/crist/htm).
Na Grécia no século XIII a.c., adquiriram conhecimentos de ervas da India, Babilónia e da China.
Entretanto a doença tida como um castigo levou a medecina, à volta das plantas, a restringir-se aos monges nos mosteiros e a algumas mulheres de aldeias mais longínquas.
No século XV foi a época dourada das ervas. Na Idade Moderna a ciência levou a fazer sínteses e concentrações doseadas das ervas, fazendo disso uma autêntica ciência.
Já se tinham percorrido muitos séculos, passando pelos curandeiros, os ervanários, os benzedores, isto é, aqueles que pretendem ou julgam que curam. Já se tinha passado pelos bruxos, pelos feiteceiros: os primeiros que tiveram contacto com o espírito dos mortos e dos deuses e os seus seguidores realizavam feitiços, género da magia com o objectivo de interferir no estado mental ”astral” físicamente...
A caça às bruxas começou na Europa na Idade Média.
Assim foi aparecendo o imaginário, a fantasia, a magia, a suprestição, o feiticeiro que fazia as funções do sacerdote e do médico, pois as doenças eram, supostas serem sempre de causas sobrenaturais.
Daí o desafio do feiticeiro aos demónios... mas foi assim que se chegou à medicina egípcia, babilónia, cretense, misocrática e romana, documentada historicamente.
Seja como for não podemos dizer que a medecina como ciência é um bem absoluto e, às vezes, uma mesinha um chazinho caseiro resolve um problema, se não for pela eficácia por si, ou de sugestão, e as pessoas acabam por ficarem agradecidas ao conselheiro e ingratas para com o médico. Quem sabe, se mais tarde tudo se vira ao contrário quando chegar a hora “da verdade” e descobre-se que afinal o médico tinha razão e o conselheiro é que errou.
O desenvolvimento histórico foi-se desenvolvendo a tal ponto que hoje é tudo muitio diferente antes e depois da “caça às bruxas” um erro talvez religioso e social do passado assim como do martelo dos feiticeiros, mas não vamos alongar e basta. Deixemos os boticários, os farmacêuticos.
Ainda assim há só à minha volta um conjunto de tratamentos caseiros, ancestrais que aqui vos deixo aqueles que ainda se usem... Nestas coisas, normalmente, há 90% mas contra 10% dos que dizem com a razão toda e dos com razão nenhuma.
Abcessos- cebola assada sobre o mal, ou argila; Afta-passar mel ou carne verde crua; Alergias-Chã de pinheiro; Ameba-Chã de semente de alho; Anemia-suco de cenoura; Ansiedade-Chã de Valeriana (erva de gato); Apendicite-chã de raiz de meliça; Asma-chã de alho, chã da semente de girassol; Asma-Chã de pela (camisa) de cobra; Avivar a voz-Chã de flor de sabugueiro; Azia-Chã de marcela; Bronquites-Açúcar mascavado com nabo de bálsamo, depois de 3 noites ao relento, ficando em xarope; Calmantes - Chã de Tília; Calo-passar cera-de-ouvido; friccionar com sumo de alho; Cálvice-Esfregar a cabeça com água de ter cozido cebola; Caspa-esfregar o couro cabeludo com limão; Coceira e sarna- Enxofre; Colesterol-Comer alho; Cólica-As massagens aliviam a dor, Constipações-Chã de limão com mel;Contra a Fadiga-Chã de alecrim; Coração-Alimento à base de banana; Colesterol - Chã verde; Depressões-Chã flor de laranjeira, aveia, valeriana (erva de gato); Diabetes-chã da flor do sabugueiro;Diabetes-Chã de Carqueja;Diarreia-Água de arroz e arroz…;Doenças Respiratórias-no quarto deve queimar-se alecrim porque elimina os germes do ar; Dor de dentes-Chã de Alfazema; Dor-de-barriga-chã de moela de galinha; Dores de Cabeça-Chã de cidreira, camomila…;Dores Menstruais-Chã de salsa; Depressões - Chã de Cidreira; Eplepsia-sementes de girassol; Exaqueca-chã de semente de cravo; Febre-chã de alho bem forte; Flatuência - Chã de Cidreira; Fígado-Copo de água morna com sumo de um limão em jejum; Gripe-aguardente queimada com açúcar; Hipertensão-Chã de folha de oliveira; Indigestão e dores de estômago-Chã de cidreira; Inflamação nos olhos-Gota de sumo de limão em cada olho; Insónias - Chã de folha de Eucalípto; Lombrigas-Chã de alho; Micose-Uma fusão de azeite e cravo, tintura de mostarda e de iodo; Mal de garganta-Chã de flores de Sabugueiro e gargarejos;Miopia-Uma gota de óleo de germen de trigo; Nervos - Chã de folha de Laranjeira; Doença Pulmonar - emplastro de lihaça sobre a região pulmonar; Pedra na vesícula-Uma colher de sopa de vinagre de cidra em meio copo de água às refeições;Prisão de ventre-Chã de semente de linhaça pisada; Psoríase-Chã de urtiga, chã de salsaparrilha ou de folha de nogueira; Pulmões-Chã de figos com ovos e mel; Pedra no Rim - Chã Quebra-Pedra; Queimaduras-emplastro de gemas de ovos com borralha; Ressaca-Chã de Ortiga e de Menta;Reumatismo - Chá de Freixo; Rouquidão-gargarejar com água do mar morna e com uma colher de sopa de vinagre ou sumo de limão; Soluços-Chã de Hortelã; Tosse-cenoura em raspa com açucar ao relento até ficar em xarope e tomar às colheres; Tosse-chã das folhas de hortelã; Vias Respiratórias - Chã de folha de Eucalípto; Vias urinárias - Chã de Barba de Milho.


Camilo Arieira Martins Correia
Nasceu a 4 de Fevereiro de 1943. Frequentou a Escola do Carmo e da Abelheira na casa de José Cambão onde por baixo se ferravam os bois... Era filho de João Martins Correia nascido na Abelheira e Vitória Gonçalves Arieira, nascida em Perre, da família dos Padres Arieiras...
Tem 3 irmãos e teve duas irmãs que faleceram crianças.
Os três irmãos vivem aqui bem perto, isto é, o Camilo, o João, o José vivem na Abelheira casados e com filhos e o Bernardo, esse vive na Meadela.
O Camilo tem o nome do Escritor Clássico Português porque os seus antepassados eram amigos e visitas da casa de Camilo, em Viana.
Constou-se em que o bisavô era afilhado do nosso escritor Camilo e ficou depois na família como alcunha tendo o João Martins Correia restaurado o apelido do avô e deu-o a um filho como nome.
O Camilo fez tropa em Angola. Antes trabalhou no campo e de carreteiro. Veio e casou com Inocência Pires Costa, da Meadela, de uma família numerosa (12 irmãos), mas uma família de muita dignidade. Então o Camilo teve de sua mulher um casal de filhos e seguindo a vontade de seu pai deu a seu filho o nome de Camilo e à sua filha o nome de Alexandra. O seu filho Camilo já casou e já tem duas filhas e à primeira deu-lhe o nome de Camila. A Alexandra formada em Matemática ainda está solteira e a preparar o casamento.
Entretanto o Camilo, pai, começou a trabalhar na Empresa de transportes Leandro Silva, Eugênio Pinheiro e cerca de 30 anos na Celnorte donde se reformou.
Foi membro da comissão de culto, mas nunca na festa do menino. Foi mordomo tempo da cruz. Agora cuida da ”reforma agrária”.
E o filho, Camilo tem seguido as pisadas do pai, um jovem muito activo, defensor de identidade cultural da Abelheira, “com unhas e dentes” como sóis dizer-se. Todo muito dinâmico e criativo. Daí ter estado já na C. Culto da Senhora das Necessidades, esteve à frente do Pólo Juvenil da Paróquia, agora do C. Fiscal do Centro Social.
A Alexandra é formada em Ciências de Matemática.



Um de cada vez
Em 6 de Dezembro de 2006, Faleceu com 85 anos, à Estrada da Abelheira, Maria da Conceição Antunes, Filha do Enfermeiro Alferes do Exército João Manuel Antunes e de Casimira Dias. Este casal veio do Bouro, Amares para Inclino de uma casa dos “Vendeiros” da Abelheira. Teve dois filhos, um deles de 18 anos faleceu e a Maria da Conceição foi a que ficou solteira. Tratou da Madrasta. Trabalhavam ambas “a Jornal” na Abelheira.
A Maria da Conceição tratou da velhice da Madrasta. Quando ela chegou à velhice e começou a ficar dependente e família de João Lima Gonçalves, da casa dos Vendeiros, com a ajuda da filha e do genro trataram-na tão princepescamente que é de invejar, sobretudo, desde que lhe deu um AVC em 2002 que se encontrava acamada e sempre bem assistida pela Fátima, por enfermeira e médica e religiosamente, nunca lhe faltando nada como uma filha ou como uma mãe de família.
Solteira. Morreu sem geração.
O funeral realizou-se no dia 8 de Dezembro às 21.30H. na Igreja da Ordem Terceira.


Lutador pela Vida
António Fernandes Ribeiro
António Fernandes Ribeiro nasceu em Capareiros, agora Barroselas, em 11.12.1931. Frequentou a Escola Primária em Barroselas. Veio para Viana aprender a arte de serralheiro no Luciano Gaião, onde trabalhou até aos 32 anos. Nesse tempo conheceu a Júlia Gomes Araújo, de Monserrate, que andava na aprendizagem de costura e com ela iniciou um namoro eficaz porque, em 25 de Julho, dia de Santiago, na Igreja de S. Domingos casaram segundo as leis da Igreja. Deste casamento resultou uma geração de 9 filhos, sendo 8 vivos porque uma menina, em criança, morreu. Dos vivos constam: Isabel Maria, Maria Gorete, Rita Maria, Manuel António, Valter, Victor Jorge, Maria José e a Diana Maria, (estas duas mais novas são gémeas), todas casadas e com filhos, à excepção da Gorete e Manuel António, mais conhecido por Tony.
O António Ribeiro deixou o Luciano Gaião e foi para os ENVC até aos 30 anos, quando foi para chefe das ex- oficinas de S. José, que acabaram depois de ele ter saído.
Era muito querido nas oficinas. Os rapazes das diversas oficinas gostavam muito dele, andavam muito à sua volta e desabafavam muito com ele. Foi numa época não muito boa, ao ponto de deixar as oficinas e ir até França, em Paris. Aí trabalhou em duas empresas: Condotaqua cujos os Sócios principais eram o Vaticano e a Ponticeli (Francesa e Italiana). Com esta última empresa veio para Portugal trabalhar, no Porto, na Sacor, actual Petrogal.
Resolveu ficar em Portugal e fundar com um grupo de dez colegas uma empresa cujo o nome era Mectube, sempre dentro do mesmo ramo (metalomecânica).
Passados 11 anos a empresa acabou e, com os filhos, activou uma nova empresa, a actual Dorimonte cujas instalações são na Trofa e, neste momento, quem gere a empresa é o filho Valter.
Encontra-se agora o Sr. Ribeiro aposentado, fazendo mais companhia à sua Esposa, aos netos e ao Tony que espero um dia trazer às colunas deste Jornal pelo livro que escreveu, onde fala da sua vida, da sua família e da sociedade em geral, por isso, ele tem a chave do segredo da sobrevivência de tantos anos com saúde abalada por doença fulminante.
O António Ribeiro, apesar dos muitos filhos e das muitas adversidades que a vida lhe tem trazido e por muitos conhecidas,sempre tem sido um homem honrado, cumpridor dos seus preceitos e sempre muito generoso para com as obras da igreja.



Memórias do meu tempo de juventude

Talvez, porque sempre tentei ser grato, para quem directa ou indirectamente me ajudou nesta longa vida de mais de sete décadas, das quais, quatro décadas e meia na vida profissional que iniciei aos meus dezasseis anos de idade, graças à feliz ideia de João Alves Cerqueira ter oferecido a todos os jovens vianenses e não só, um emprego e a grande possibilidade de obterem uma formação profissional, com a abertura dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, levou-me a escrever este pequeno artigo, como forma de reconhecimento e gratidão.
Sempre que passo pela Abelheira, junto à casa desse grande benemérito e vianense, ou perto do Estaleiro, uma onda de gratidão interior invade os meus sentimentos, porque por influência de ambos a minha vida e de muitas centenas de rapazes do meu tempo e muitos dos nossos filhos e netos possuem um curriculum profissional invejável, aceite em qualquer Empresa do mundo.
É com saudade, apesar dos meus setenta e cinco anos vividos, que recoirdo os jovens e não só, vindos das aldeias periféricas e da cidade, cheios de alegria e vontade a caminho do Estaleiro trabalhar, aprendendo novas artes e ofícios em condições muito difíceis e sem os meios que presentemente existem de baixo de quaisquer condições atmosféricas.
As possibilidades de emprego eram diminutas, porque as indústrias existentes na época, não ofereciam emprego a todos aqueles que necessitavam de trabalho e a solução era a migração para outras terras do Pais, ou imigração clandestina para o estrangeiro.
Foi uma verdadeira dádiva deste grande vianense, a possibilidade de possuirmos uma grande escola de formação nesta cidade a par de uma Empresa que ao longo dos anos tem sabido honrar o seu mentor e impulsionador.
Passamos a ter bons profissionais e especializados como soldadores eléctricos, árgon, oxigénio,tubistas,traçadores, desenhadores, electricistas, torneiros, mecânicos, bobinadores, carpinteiros navais, calafates, cravadores, caldeireiros, serralheiros civis, assim como outras actividades associadas à construção naval.
Não me devo esquecer de alguns excelentes profissionais, vindos da CUF do Barreiro ou Lisboa, que foram os grandes mestres, durante a construção das estruturas para as docas e oficinas, simultaneamente professores de todos os operários e aprendizes do estaleiro.
A todos eles existe uma dívida de gratidão da cidade, pela mais valia profissional que deixaram. Lembro os nomes de José Luís, Carlos Machado, Carlos Peres, José Sequeira, Alexandre Geraldes, Américo Carvalho, Daniel Caeiro, Júlio Costa, João Peres e mais alguns que de momento a memória não me ajuda.
Muitos dos aprendizes do meu tempo, e digamos alunos desses bons profissionais, devem sentir-se orgulhosos de terem usufruído de um curriculum profissional, que lhes abriu as portas no Estaleiro ou de grandes Empresas em Portugal e no estrangeiro e de desfrutarem posições de destaque no campo da Construção Naval e ou Metalo-mecânicas.
Por pertencer a esse grupo de rapazes que muito devem ao João Alves Cerqueira e ao Estaleiro e que aproveitando, nesse tempo a hora de almoço, ainda tinham tempo para grandes jogos de futebol com bola de trapos ou qualquer coisa redonda, gostaria que esta mensagem chegasse a todos aqueles ainda vivos e a todos os outros que no presente trabalham no Estaleiro pois que os velhotes ficaram gratos para sempre. Que os novos saibam preservar para sempre a melhor escola de formação profissional e o melhor empregador de mão de obra do distrito, que há cerca de seis décadas o ilustre empresário deixou a todos os vianenses.
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Manuel Meira

A alimentação
Nos meados do século xx a alimentação era muito pobre, mas talvez mais saudável a qualidade das refeições. Tudo variava de terra para terra e de região para região.
No entanto, conheci casos em que havia o mata-bicho quando no Verão os lavradores, se levantavam cedo e iam para o trabalho às 4 ou 5 horas da manhã, antes que o sol apertasse, e regressavam às 9 ou 10 horas, horas para tomar o pequeno almoço quando não o levavam consigo. Às 13 ou 14 horas (meio dia novo ou velho) era a hora do almoço. Às 17 horas a hora da merenda (lanche), normalmente, onde estivessem a trabalhar como no campo à sombra de uma árvore ou da vinha... Às 20 horas era a hora de jantar e às 22 horas era a hora da ceia. Às vezes o jantar confundia-se com a ceia e era pelas 21 horas, no fim do qual se rezava o terço em família.
No Inverno, os horários eram um pouco diferentes. O jantar (ceia) era mais cedo e as higienes faziam-se logo a seguir para se rezar o terço, fazer serão e no fim ir deitar-se. O serão era, nas aldeias, ainda muito vulgar o espadelar do linho nas noites frias do Inverno... à volta da fogueira, da lareira a contar anedotas, histórias, contos, adivinhas, falar de coisas antigas da família, limpar azeitona, feijão....
Sobre a alimentação recordo quando eu próprio ia com uma tigela, uma malga, buscar leite que tinha acabado de sair do ubre da vaquinha e deitava-lhe miolo de pão broa. Era um rico petisco, a mais naquele dia! Era mesmo assim, sem ferver e morninho, acabado de sair pelo teto da vaca. Às vezes era eu que o fazia directamente para a malga. Estou a falar na primeira pessoa, mas era vulgar na aldeia fazer-se isso em todas as casas . Outra muito vulgar, sobretudo, aos adolescentes na fase de crescimento os pais darem umas tigelas de vinho com gemas de ovos e sopas de vinho com miolo de pão broa.
Nem todos tinham essa sorte! Na escola primária alguns tomavam óleo de fígado de bacalhau como suplemento alimentar. Era tempo de fome. Por isso, havia sempre em minha casa lugar para receber os colegas pobres e ir da escola, que era à beira, comer pão, pão com leite, com azeite, com toucinho, com chouriço, com o que calhasse frutas da época... do que houvesse estivessem os pais ou não, eu lá arranjava do que havia, à mão para partilhar, como me recordam alguns dos favoritos, de coisas que já nem me lembro.
Eu era filho de lavrador, mas tinha colegas que eram filhos de famílias que passavam mal. Isso era confusão para mim.
A alimentação normal era o caldo. O caldo era o mais rico alimento. Levava normalmente legumes, vegetais, feijões, toucinho que era ralado para lhe dar gordura, ou na sua vez, levava unto.
Comia-se batata e mais batata, feijão frade, alguma alface, feijoada entremeada de “padre-nossos” de toucinho da barriga do porco, uma vez por outra lá vinha o arroz, ou a massa.
Todo o lavrador matava 1,2 ou 3 porcos. Não havia frigoríficos, nem arcas. Tudo era conservado ao fumeiro e com condimentos, à excepção das carnes moles ou ossadas que eram conservadas em sal, nas salgadeiras, normalmente em pedra, quando não eram em madeira. Assim guardavam para o ano inteiro.
Para entremear com a carne de porco comia-se sardinhas. Às vezes uma sardinha era para duas pessoas e um carapau para 3 pessoas, um sorelo era para a família toda.
Para entremear havia ainda os bolinhos de Bacalhau em dias de festa. Os pastéis de massa, farinha com salsa, cebola petada, assim como umas raspas de toucinho, ou de sardinha e levados à frigideira. Em vez de pastéis podia ser uma espécie de tortilha à Espanhola também com bocados de batata na sertã e mais umas gemas de ovos e depois cortadas e repartidas por cada um dos comensais. Normalmente eram os pastelões, feitos também à maneira dos pequenos pasteis com farinha, salsa, ovos, bocadinhos de chouriço, também batata, (eram os mistérios).Também as migas de pão eram outro petisco.
As matanças dos porcos dava sempre lugar a uma festa, a do sarrabulho. Normalmente no Domingo seguinte, fazia-se a festa do Sarrabulho. Faziam-se rojões em quantidade suficiente para guardar para gastar ao longo de alguns meses. Como? Metiam os rojões no meio do pingui.
Também o pão mais comum era o pão broa. Cada lavrador cozia duas rasas de pão, cozia pão para 15 dias mais ou menos. Às vezes, devido ao clima, ou à cozedura, aparecia o bolor, onde Fleming descobriu a penicilina. O pão com bolor já não se come, mas, por vezes o lavrador aquecia o forno, metia o pão lá dentro e o bolor desaparecia. Continuava-se a comer aquele pão até acabar.
Faltava as aves de criação doméstica como uma galinha. Era outra comida usada. No entanto, esta era só para dias de festa. Comer galinha num dia qualquer ou “estava ela doente e antes que morresse era preciso comê-la ou alguma mulher tinha dado à luz e não saía da cama enquanto não se restabelecesse das forças enquanto não comesse 8,10,15 ou 20 galinhas, ou 1 galinha por dia. Isto conforme as regiões.
O melhor gado esse guardava-se para a festa da terra, da Padroeira, do Santo ou da Santa, da Senhora , ou para o dia de Páscoa. Assim como a carne de vaca também quase só nas festas se comia. Normalmente em casa comiam todos da mesma travessa, do mesmo tacho, só o caldo é que se comia quase sempre cada um da sua malga ou tigela e, nela quem queria deitava-lhe vinho no principio. Outros comiam o caldo e só no fim deitavam no fundo da tigela um pouco de vinho e bebiam o vinho depois de bem passado pelos restos da sopa nas paredes da malga. Era como uma lavagem da malga em primeira mão passada com vinho que era bebido de seguida: ....Daí talvez o dito:”por cima das sopas lavam-se as bocas”.
Quando havia trabalhos colectivos uma botada de azeitona, uma podada, uma roçada, uma cavada, uma ceifa, uma poda, etc...então à volta de uma grande travessa ou de uma gamela de madeira ou de um alguidar comiam um arroz, coisa rara, cheio de “padre-nossos” e aqui entravam bocadinhos de carne, miúdos (bocados de rins, fígados, estômago, pulmões, pâncreas, coração).
Usava-se durante o ano cozido com batatas, ou com arroz, mas sempre foi o bacalhau a comida de Natal, e da festa de Reis . A festa do ano velho era pouco festejado. No entanto durante o ano era raro vê-lo, melhor, saboreá-lo...
Como bebida não podia ser outra se não a do “vinho verde”. O lavrador conservava na Adega o vinho bom para venda, para festas e para os amigos e o vinho mais fraco para uso diário que era normalmente mais aguado.
Era o que se chama “vinho baptizado” o que de facto não correspondia à realidade. Este vinho era a “água-pé”, isto é, o lavrador depois de tirar ou encubar o vinho, no fundo do lagar ficava o brolho. Nessa altura juntava-se-lhe uma certe quantidade de água proporcionada e também mais uma quantidade de uvas para provocar uma nova levedura.
Esta nova levedura era mais leve, mais branda e assim o lavrador obtinha um vinho a pesar uns 4 graus para menos.
Para além do vinho verde tinto a que me estava a referir, também havia o vinho verde branco e da mistura das boas castas o meu avô conseguia ter vinho branco verde a pesar 12 graus.
Naquele tempo não havia sobremesas a não ser que excepcionalmente encontrasse algo.
As iguarias também eram só utilizadas nas festas: o Arroz doce, o creme, as rabanadas de leite, de vinho tinto, de vinho branco, aletria.
A fruta era sempre um produto que o lavrados tinha sobretudo a maça, a tangerina, laranja, as pêras, cerejas, figos, pericos e nêsperas. Em casos de festa, às vezes, chegava alguma outra fruta ou frutos secos como: o amendoim e as nozes. Os tremoços era também outro alimento que alguns até cultivavam, assim com curtiam as azeitonas... No entanto, havia também quem colhesse o Vinho tinto e branco morango. Também muito apreciado por muita gente nesta região.
O milho, o centeio, a aveia, o feijão, o tomate, a alface, a cebola, a fava,a batata, a couve galega, a couve trinchunda, o nabo, os grelos, as nabiças, a salsa, rabanete, a ervilha,o repolho e o coração,feijão verde, melão, melancia. era a base da prepararção da alimentação de todas as casas e com os restos de todas as comidas serviam os animais, sobretudo os porcos com mais umas mãozadas de farinha crua e couves a que chamavam “lavadura”.


Padre Cecílio - Um Frade para não esquecer
Quem se lembra do Padre Cecílio, religioso, que esteve aqui no Seminário do Carmo? De Baptismo é Félix Astoande Gostazar, nascido em 1915 em Ceanari, Biscaia, filho de lavradores do “Casario de Oertea”.
A foto talvez diga alguma coisa. Aos 11 anos ingressou no Seminário em Amorevieta, perto de Bilbau, deixando os pais e mais cinco irmãos. Ele era o mais velho. Quatro ainda estão vivos.
O Cecílio, nome de religioso carmelita descalço, professo desde 1932. Interrompeu os estudos por causa da guerra civil de Espanha, dedicando-se a ofícios sanitários, entre eles, de carteiro, cicerone turístico e, como estudante de Filosofia, fez uma experiência religiosa na comunidade de Mónaco em Teolina. No convento de Markina continuou a Teologia. Estudou na Irlanda aprendendo o Inglês! Foi ordenado em Markina . Esteve depois 2 anos em Navarra, no Convento de Vila Franca. Em 1944 veio para Aveiro.
Em 1951 começou a construir-se o Seminário de Viana, orientado pelo Padre Eládio Zaboleta, de Azeoitia, perto de St.º Inácio de Loyola, mas depressa foi para a Madeira, tendo falecido muito novo.Em 1954 o Padre Cecílio vem para Viana , onde foi professor de 120 alunos dos 2 anos de preparatório até 1960 de Francês, Inglês, Música, entre outras disciplinas até 1960. Depois desse ano no Seminário começou a levar os alunos até ao 7ºano ao Liceu, onde Frei Tiago Gonçalves, já falecido, também era professor.
O Padre Cecílio entretanto, passa pelo Marco, por Paço d’Arcos e mais tarde foi parar à Madeira, onde ainda se encontra todo jovial, apesar dos seus 92 anos, activo e organista dinâmico quer em Música profana, quer em Música Religiosa, conhecendo bem as fontes mais complicadas quer da Música Clássica quer do Gregoriano..., mas não é só isso, faz uma boa companhia, gosta de conversar, de ler, de ver televisão e não foge ao trabalho de ouvir as confissões dos fiéis que o procuram, de preparar uma boa homilia e de celebrar com entusiasmo como que os anos nada lhe pesem no seu corpo franzino.
Quando está só lá vai muitas vezes cantando em voz surdina e as suas cordas vocais parecem, nessa altura, cordas de violino. Engana bem!...
O segredo deste frade para manter esta jovialialidade parece ser a de saber escutar. Nunca diz uma palavra a mais, só necessária e com o seu bom Humor! O gesto é tudo... e um sorriso, uma palavra... o seu olhar... mas é suficiente para se perceber que basta.
Por aqui ficamos porque pelo pouco que conheço e pelo muito que ouço a vida deste nosso irmão frade dá uma história que nos enleva e levaria a escrever vários livros...

...Ainda os Valenças
A propósito dos Valenças que já aqui exploramos, hoje, queremos trazer à ribalta o José Manuel Rodrigues Oliveira Valença, filho do Amélio Valença , empregado de café e de Conceição Rodrigues Gaivoto, doméstica (da Abelheira?). Viviam na Rua Martim Velho. O José é irmão de mais seis a saber: Emília casada com Domingos Pereira, ambos falecidos, tendo deixado filhos e netos; o Luís casou com Luísa Taila, falecidos, também tendo deixando filhos e netos; Maria Flor; solteira; falecida e mãe de Margarida casada e com um filho; a Isaura solteira, modista; Jaime casado, recentemente falecido, conforme noticiámos, casado com Maria da Conceição e com filho casado com Isabel e netos; e a Carolina Solteira, empregada Comercial.
O José trabalhou e estudou ao mesmo tempo. Estudava depois das 17 horas até às 20:30H.Assim fez o curso complementar “Aprendizagem de Serralheiro”, tendo começado a trabalhar aos 14 anos nos ENVC até à idade da reforma na secção de encanamentos. Gostava muito do que fazia. Agora na situação de reformado também gosta do tempo livre para se dedicar aos outros na Junta de Freguesia, por exemplo, e nos Bombeiros Voluntários. Sempre foi dos Bombeiros Voluntários (40 anos): foi ajudante do Comandante, depois de ter passado por todos os níveis, de ospirante e de chefe. Tem feito parte da Comissão de Festas de Nª Sr.ª da Agonia e é membro do S.C. Vianense.
Tem bons projectos para a idade da reforma e também gosta ainda de dar os seus passeios a pé pela cidade com a esposa que conheceu e com quem casou aos 22 anos, a Maria José, de Lanheses.
Não foi preciso ir a Lanheses, ela veio para Viana trabalhar na grande casa de Alfaiataria Carlos Alberto.
Morou sempre no Bairro Jardim onde teve e criou dois filhos, um casal a saber: o Luís que é funcionário no B.C.P., em Lisboa e a Anabela que trabalha na Administração Regional de Segurança Social em Viana do Castelo, ambos casados e com filhos.
O José Valença é por isso um Homem muito medalhado e já esquecia dizer que foi árbitro de futebol. É católico não praticante, segundo ele, mas tem acções que não serão só puro humanismo ou altruísmo porque recebeu uma educação cristã, e lá... no fundo, alguma coisa o moverá para se manter nos Bombeiros Voluntários quase quarenta anos “ore et pro labore”... não ficando por aqui, mantém a sua militância Política que muitos deviam fazê-lo e não o fazem.
Quem sabe se por respeito ou por vergonha aos ideais que dizem defender.
Bem haja! Continue bom amigo José Valença. A plêiade dos Valenças, como vêem, é grande nesta Cidade.
Por aqui hoje ficaremos.

Padre Abílio Lima de Carvalho
Era assim conhecido na roda dos amigos e da colónia Vianense, e de “Pabí” na roda da família, o Professor Doutor Abílio Lima de Carvalho que foi sacerdote da Santa Igreja desde a sua ordenação até à sua morte ocorrida em 30 de Outubro do ano passado. .
Depois da filosofia, da Teologia e de ser ordenado sacerdote continuou a sua carreia académica. Foi frequentar: Universidade Gregoriana (Ciências Sociais), Roma, 1953-1956; Universidade Internacional Angelicum (Filosofia), Roma, 1955-1957; Columbia University (Doutoramento em Antropologia - ramo principal e em Sociologia - ramo complementar) - Faculdade de Ciências Políticas e Sociais, Nova Iorque, 1957-1961; 1968, e professor Catedrático.
Principais actividades profissionais: Fundador e Director da Faculdade de Economia de Luanda; fundador da Unidade de Ciências Sociais e do Centro de Ciências Históricas e Sociais da Universidade do Minho, fundador e Director do Museu de Etnologia e do Departamento de Ciências Etnológicas e Etnomuseológicas do Instituto de Investigação Científica Tropical de Lisboa; fundador e Director da Faculdade de Economia - Luanda; Presidente do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, 1986-2004.
Este sacerdote com quem privei alguns momentos de boa disposição, ainda que fosse para me “ chamar a atenção “ tinha sempre uma palavra amiga, um olhar de quem via longe. Não era distante. Era próximo, intelectual ao ponto de D. Armindo, 2º Bispo de Viana, o querer a almoçar com ele à mesa, no Paço.
Enquanto esteve em Darque, parece-me que generosamente sempre foi um amigo da Diocese.
Julgo, embora não tivesse investigado, que nunca teve um benefício eclesiástico, para além de fundar a LUC (Liga dos Universitários Católicos) em Luanda, onde foi Assistente e enquanto estudou nos Estados Unidos auxiliar em duas Paróquias. Estava incardinado na Diocese de Lisboa e pediu a incardinação na Diocese de Viana, que tanto desejava ver criada. Ainda me lembro da prontidão da sua resposta e do seu contributo material para a festa do “quadrégissimo ano” da Colónia Vianense e do entusiasmo que incutia. Penso que para além disso nunca nenhum Bispo o teria destacado oficialmente para uma tarefa de Pastoral concreta. Talvez, excesso de trabalho e preocupações neste ministério da cultura não lhe fosse permitido exercer com frequência diária o seu ministério dos sacramentos. No entanto, é certo que quando tinha motivos ou razões para o fazer lá estava o Pe. Abílio, o tal Padre que era Professor Doutor Catedrático, reitor da Universidade de Luanda que passou por Lisboa, Braga e depois, de nomeado, para o Instituto Politécnico de Viana que ainda era uma criança, o desenvolveu por todo o alto Minho, exercendo um outro ministério sacerdotal, o ministério da cultura, na sua terra Natal. Como era Viana do Castelo, sede do seu Concelho e Distrito. Era natural de Vila Franca.
Este Doutor que nas sessões solenes académicas nunca deixava de invocar em público o divino para louvar o trabalho dos homens.
O Pe. Abílio, assim lhe prefiro chamar, era o amigo dos pobres e se alguém lhe batia à porta com clemência o seu coração derretia-se para fazer o que estivesse ao seu alcance.
Brincalhão, mas levava a vida a sério. Era trabalhador e exercia o seu ministério sacerdotal em todas as vertentes da vida humana, embora a vertente da investigação, cultural e desenvolvimento fosse aquela em que ele mais se entregou aos outros, à Comunidade em geral.
Enfim, um Padre, um Professor, um Catedrático, um Mestre, um Gestor, um Vianense esquecido ao longe como tantos outros vianenses. Viana teve a sorte de o recuperar e de o trazer para a sua terra e fazer desta zona do Alto Minho uma zona mais cheia de respostas culturais à preparação da nossa Juventude. Assim, fundou 3 residências de Estudantes (a do Ex.BC9, na cidade, em Refojos, Ponte de Lima, a da Paróquia de Nª Sra de Fátima, junto à ESE); a Escola Agrária em Ponte de Lima; Ciências Empresárias em Valença; Técnica e Gestão na cidade; integração da E.S. de Enfermagem; Escola de Biologia Marítima e Investigação em Caminha e, em Melgaço, a Área do Desporto e Educação Física em projecto.Viana, cidade capital de distrito, muito lhe deve.
Não posso esquecer o facto de pedir antes do seu falecimento e, conscientemente, pressentindo que o seu fim estava por perto, um colega de Braga para o ouvir de Confissão, recebeu a Comunhão e a Santa Unção, terminando assim perante os homens que dele se esqueceram, dele se embaraçavam e perante aqueles que sempre até à morte o mimaram na sua peregrinação terrena para, agora, viver na corte celestial como sacerdote de Deus e dos Homens, no Céu.


Faleceu José Gonçalves Pereira, natural de Cardielos, filho de Manuel Félix e de Maria Parolla.
Casou em 1968 com Rosalina Alves Barroso, de Monserrate, de quem teve duas filhas: a Cristina, casada e a viver em França e com um filho, e a Virgínia que é solteira. O José Pereira era construtor civil, mas sempre muito doente, sobretudo, a partir de 2000. Fazia 3 hemodiálises semanais, tinha câncer, sofreu dois enfartes, foi operado ao coração e preparava-se para ser operado às pernas, mas não chegou a sê-lo pois sucumbiu, confortado com o sacramento da Santa Unção, martirizado com tanto sofrer, pelos menos de há seis anos para cá.
Foto

À Rua Camilo Castelo Branco, onde vivia, faleceu pouco antes de perfazer os 98 anos a Tolentina Lima Monteiro da Cruz, nascida em 1908, em Monserrate, tendo casado com Joaquim António Rodrigues da Cruz, de Carvoeiro e enviuvado em 1985. A Tolentina era filha de José Bento Monteiro da Silva e de Rita Adelaide Valença e Lima. Era muito devota de N. Sra. de Fátima e da Eucaristia, mas sobretudo não se esquecia dos pobres para quem deixava das economias que fazia algumas ofertas. Era mãe de José Carlos, Maria de Fátima, Silvia, Maria Luísa e Rosa Maria.
Sempre a trataram com desvelo até ao último momento, assim como a sua neta Flávia.

A casa da Lenha
Não vi a peça “A Casa da Lenha” de António Torrado sobre a vida e obra do compositor Fernando Lopes – Graça, nascido a 17 de Dezembro 1906, em Tomar, um dos maiores compositores do século paasado, preso pela PIDE várias vezes, no Teatro Nacional D.Maria II, no ano em que se assinala o centenário do seu nascimento, foi ocasião para me lembrar da “Casa da Lenha” que era sempre um anexo importante de qualquer casa sobretudo, nas casas da aldeia.
A “Casa da Lenha” era um anexo desviado normalmente da casa de habitação, num canto do quintal, do logradouro ou ao fundo da quinta, do “lugar”.
Na “Casa da Lenha” era guardada a pruma, os ramos secos,as pinhas, as achas em castelo, os toros de pinho ou de oliveira para arder na ceia de Natal( os canhotos) e onde não faltavam muitas vezes os ratos e os bichos próprios do meio ambiente.
A “Casa da Lenha” da casa do meu avô paterno era algo que eu gostava de mostrar aos amigos, era uma peça importante.Era só para combustível lenhoso. Ali estava o combustível para a lareira, para o fogão, para as festas e para tudo havia uma época de ter a casa da lenha cheia para, no Inverno, não faltar nada para aquecer a habitação, para fazer as refeições, para aquecer o forno e cozer a broa,o cepo para arder toda anoite,na lareira, durante a noite de Natal ou para secar as chouriças nas matanças dos porcos, etc... e aproveitar a borralha para deitar nos campos...
Na “Casa da Lenha” era, por vezes, ocasião para muitas histórias daí que imagino que a agora apresentada “A Casa da Lenha” possa ter tido muita graça.
A vida é feita de muitos actos, sentimentos vividos em qualquer lado...até na “Casa da Lenha” podia haver lugar para cantar um fado...beber um copo de verde...ou um copinho de jerupiga!...
Na casa da meu avô materno a “Casa da Lenha” era diferente, ficava a cerca de 60metros da casa de habitação e lá era para tudo. Também se guardava a Charreta que a égua puxava quando ele e a esposa iam à feira, ou algum amigo; ou a carroça quando queria trazer mais família à cidade, como os netos.
Nessa “Casa da Lenha” houve lá uma autópsia de um homem carreteiro, conhecido por “furrica-milhão” que tinha ficado debaixo de um comboio quando ia a dormir sobre um carro de bois e que morava junto ao largo do Bicho, em Mazarefes, não sei agora o nome próprio.
Portanto a “Casa da Lenha” é sempre uma casa de muito e qualquer combustível orgânico ou inorgânico, biodegradável ou não.
Hoje a “Casa da Lenha” já não é a de antigamente. É a garagem dos carros que tem outro combustível, também à beira é capaz de existir lenha, ainda que seja prensada. Outros fluidos como garrafas de gás para as cozinhas e aquecimentos existirão, tudo mais limpinho, e o cantar do fado....já não tem o sabor de antigamente! Nem já se bebe o copo do verde ou o copinho de jerupipiga apara aquecer as “goelas” nas manhãs frias do inverno... Agora as bebidas são outras m,ais sofistificadas e talvez menos boas para a saúde...
Adquem

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