AVISO

Meus caros Leitores,

Devido ao meu Blog ter atingido a capacidade máxima de imagens, fui obrigado a criar um novo Blog.

A partir de agora poderão encontrar-me em:

http://www.arocoutinhoviana.blogspot.com

Obrigado

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O LINHO


O LINHO



Ancinho              Um pente de pau com cabo para ripar.
Apanhas              Peças do tear onde a tecedeira coloca os pés para fazer subir e descer os liços                                        alternadamente
Arestas                Partículas inúteis e importunas que se desprendem das  fibras do tear. Partículas                                    inúteis e indesejáveis do canhe do linho e de que ele tinha de ser expurgado.
Argadilho            Espécie de dobadoura.
Arrátel                Peso antigo equivalente a 459 gramas usado para pesar o linho fiado ou dado para                               fiar.
Asseideiro          Lugar onde se demolha o linho.
Baganha             Casulo que envolve a semente do linho.
Barra da cruz     Régua ou cana que divide os fios da teia nos teares.
Barrela               Caixa quadrada de madeira de fundo de ripas com fendas, ligeiramente suspensa                                   pelos topos dos caibros
                            dos      
                             vértices para escoamento da água. Aí dentro acamava-se a roupa branca mas suja e                               manchada, no cimo
                             estendia-se uma     toalha ou pano velho, sobre ele peneirava cinza e depois ia-se                                   jogando água quente, a   ferver.A roupa ficava ali recozendo até esfriar e ser levada                               para o rio onde era passada em água fresca e
                             posta a corar ao sol.
Barreleiro           Dobrar o linho chama-se dobadoura. Recipiente onde se procede à operação da barrela. Cinza com que se
                             faz a barrela.
Caneleiro            Para encher carrinhos e canelas com fios - plataforma rectangular com suportes verticais onde encaixa e
                            roda uma haste metálica com um tambor para mover com a mão. Uma roda que faz de roda de balanço e o
                            resto da haste onde se enfiam as conchas e os carrinhos vazios.
Carda                  Instrumento com que se carda, dois quadrados de tecido cheios de pregos miúdos - o fio vai passando de
                            uma para a outra carda, até ficarem aptos para serem enrolados na roca.
Cardar                Desenredar fios com carda.
Carnélia               Remate da roca, por vezes, artisticamente torneado, talvez este nome popular venha da forma da roca.
Carregadouro   Espécie de tambor onde se coloca o que se vai fiar - linho, estopa, etc.
Casulos                              Lugares onde se colocam os carrinhos dos quais cairão no fio para urdir a teia.
Corar                   Branquear pela exposição ao sol e utilização de cinzas, sobretudo.
Cortiça                Casca de sobreiro e de outras plantas lenhosas. Designação dos vários objectos feitos de cortiça.
Cortiço               Casca cilíndrica do sobreiro para espadelar o linho.
Crivo                    Espécie de peneira para limpar o grão. Coador. Separador ou coador de cereais ou outros para sair a terra,
                             areias, etc…
Debonçar            Dar a primeira espadeladela no linho, separando-o dos verdascos.
Dobadoura         Aparelho com que se doba - passar de meada, a novelos. (Aparelho giratório para dobar as meadas (eixo vertical).
Dobar                 Enovelar ou enrolar em novelo o fio da meada.
Encosto da tecedeira Uma barra de madeira normalmente ao correr do banco onde ela (tecedeira) podia
                             encostar-se. Parte mais grosseira do linho resultante do deboncamento.
Engenho             Máquina formada por grande cilindro estriado central cercado por outros cilindros estriados menores por
                            entre os quais passava o linho para o converter em mantas. Separar as fibras das arestas.
Espadela             Instrumento de madeira para separar os tomentos do linho (cutela triangular de madeira), afiado com
                             pedaços de vidro da janela ou garrafa.
Espadela             Instrumento de madeira, com forma de cutelo, para sacudir os tormentos do linho.
Espadilha            Lâmina de madeira com 12 orifícios correspondentes com fios de cada ramo da teia que se vai medindo.
Espicha               Peça de osso com forma de ponta de seta na extremidade da correia que liga a estriga à roca cravando-se
                            na estriga.
Estopa                Parte do linho retirada pelo sedeiro, tecido feito de estopa. Estopa de 2ª  Sedeiro grosso - dentes ralos
                            Estopa de 1ª  Sedeiro fino - dentes vastos. Estopa de 2ª do Sedeiro grosso, dentes ralos. Estpoa de 21ª do
                            Sedeiro fino, dentes vastos.
Estopa                Parte grossa e emaranhada do linho separado pelo sedeiro.
Estriga                Porção de linho que se põe na roca para fiar.
Fiar                      Transformar em fio qualquer matéria filamentosa.
Fiar                      Reduzir a fios substâncias fibrosas.
Fuso                    Instrumento cónico terminado com ponteira de aço dobrado em caracol, utilizado para fiar manualmente.
                              Instrumento roliço e ponteagudo utilizado para fiar. Instrumento cómico terminado em ponteiro de aço
                            dobrado em caracol, utilizado  para fiar manualmente.
Gamelão             Vasilha rectangular de madeira onde se iam acomodando as peças no sistema de fole de concertina.
Lançadeira          Espécie de naveta de extremidades iguais dentro da qual se põe a canela que indo da direita à esquerda e
                             vice-versa vai distribuindo a trama ou a trama no tear.
Liços                    Fios entre duas travessas através das quais passa a urdidura que, elevando-se e descendo à passagem da
                            lançadeira vai fabricando o tecido.  
Limpar                Dar a segunda espadelada no linho, separando-o dos tomentos.
Linhaça               Semente do linho.
Maçaroca            Quantidade de fio enrolado no fuso (porção de fio...).
Manadas             Porções de linho em que se transformavam as mantas chegadas do engenho para espadelar.
Manta               Pasta de linho macerado e parcialmente liberto de arestas, quando sai do engenho.
Meada              Porção de fios das maçarocas colocadas no Sarilho para serem fervidas com cinzas, batidas, lavadas, coradas
                           e secas, depois colocadas na dobadoura para se transformarem em novelo.
Meada              Porção de fio enrolado no sarilho com o respectivo constado para não se tramarombrar. Formada no
                           sarilho, desfeito na dobadoura.
Momelo            Rolo de estopa ou de lã formado pelas pastinhas que saem das cardas.
Nó                       Laço apertado de extremidades de fios, fitas ou cordas. Há uma grande variedade de nós entre eles, o nó de
                           tecedeira.
Novelo             Bola de fios enrolados circularmente.
Ourela             Margem, orla lateral da peça de tecido, onde se fixa, no tear, o tempereiro (os dentes).
Peanhas          Peça de tear onde a tecedeira assenta os pés para fazer subir e descer os liços.
Peçós              (peçongos) Fios da urdidura que ficam sem trama no fim da teia, usados para coser, alinhar ou fazer torcidas.
                        Fios entruzados que se aproveitam ou deitam-se fora.
Pedais           Há pedais de muitas coisas e estes pedais são os de tear, onde os pés agem para pôr o tear a tecer.
Pente            Caixilho com aberturas (fendas) por onde passam os fios da teia.
Pote               Vaso de ferro fundido de duas asas junto à boca e três pernas no jeito de tripeça. Neles se cozinhava e se
                       fervia a água para gamelas, comida do gado e preparo  da fornada (escaldar a farinha da cozedura).da massa.
Queixas        Travessas de madeira que seguram entre si superior e inferiormente os dentes do pente do tear.
Rastelo        O mesmo que restelo, ver sedeiro. Talvez por limpar ou separar o linho da estopa.
Repouso     "Placa de dentes afiados por entre os quais se passa o linho para o separar dos casulos (baganha com linhaça).
                      O nome deve vir por se tratar de algo pesado - deitado - , com os dentes voltados para cima e no chão ou sobre
                      algo mais alto para ripar o linho."
Restilho       Espécie de pente formado por duas réguas ligadas entre si por pausinhos (torno) ou pontos de arame para
                     distribuir  o fim da teia urdida para o tambor.
Ripar            Separar o linho da baganha. Também se ripam as oliveiras das azeitonas. O povo chama-lhe "ripe".
Ripe             Um pente de pau preparado para ripar ou pentear.
Ripeiro      No repouso era ripado o linho.
Ripeiro      Sarrafo com rifas ligadas que tem o fim também de rifar.
Roca          Cana ou vara com um bojo numa das extremidades, em que se enrola a estriga ou outra substância têxtil, para se
                  fiar. Haste aguçada de madeira ou couro com a outra extremidade bojuda onde se enrola linho ou outra qualquer
                  fibra textil para ser transformada em fio (bojo).
Sarilho      Espécie de cilindro de eixo horizontal para transformar asmaçarocas em meadas. Instrumento giratório de eixo
                  horizontal.
Sedeiro                   Placa crivada de paus dispostos em fileiras por onde se passa o linho para o separar  da estopa (ficar assedado).
                 Havia um mais fino, outro mais grosso. Tem a ver com sedeiro.
Tambor                   Cilindro grande do tear onde se enrola a teia.
Tapume    Talvez a "caneleira" que leva a lançadeira.
Tempereiro Peça metálica, ajustável com dentes nas extremidades que se fixa nas ourelas do que se exige a tecer para que
                  se mantenha o pano sempre esticado. Utensílio com que as tecedeiras esticam o pano no tear. Cada um dos paus
                  fixos à nora.
Tomentos           A fibra mais áspera do linho, espécie de estopa grosseira. Resultado da 2ª etapa da espadelada.
Tomentos           Parte lenhosa e mais áspera do linho.
Torcedura           Fuso preso à cinta e fios a passarem pela boca ou pelos lábios e humedecidos para torcerem.
Trama          Fio que a lançadeira conduz através da urdidura da teia e que cruza no sentido transversal de um tecido.
Urdidura     Urdir- Conjunto de fios por entre os quais, no tear, passa a trama também chamada tapume.
Urdidura     Espécie de dobadoura enorme, formado por duas peças paralelas e cruzadas em forma de madeira em que se
                     urdem os ramos da teia. Dispõe os fios para tecer.
Vara            Medida de comprimento usada para medir peças de pano equivalente a 11 (onze) decímetros.

Verdascos          Parte mais grosseira do linho resultante do deboucamento.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O s F o r t e s

O s   F o r t e s


Este apelido pode ser oriundo de Itália, mas no século XII há em Portugal “Petrus Fortes”. No século XVI aparece um documento com o nome de “João Forte”.
            Os apelidos Forte e Fortes é muito vulgar hoje em Portugal,

 no Brasil e na Galiza. Como topónimo aparece em Barcelos e

 também na Galiza.
            O apelido Afonso também já é muito antigo nestas terras de

 Mazarefes, anterior ao século XVI. Há, por isso, muita gente no 

século XVII com apelido Afonso. Daí aparecerem depois os

 “Afonso Rato” os “Afonso Forte”, até aos “Barbosa Forte”, os

 “Martins Forte”  e os “Alves Forte”. Todos parentes.

            Domingos Afonso Forte, filho de António Afonso Forte e

 de Isabel Fernandes, da Areosa, casou em Mazarefes com 

Leocádia Rodrigues, do lugar da Namorada, de quem teve duas

 raparigas: A Custódia,1732 e a Luisa, em 1740; e um rapaz de

 nome José em 1735.

Enviuvou e voltou a casar, em 1750, com Isabel Gonçalves, filha de

 António Gonçalves e de Joana Barbosa, de Vila Fria de quem teve

 mais dois rapazes: O José (1784), Teresa (1804) e Maria (1805).



O filho do João, nascido em 1755 casou com Maria Gonçalves (Lugar da Namorada) e foi pai de Teresa, João (1789), Manuel (1795) e José (1784).

O José do 2º casamento casou no lugar da Namorada com Maria Gonçalves e foi pai de José, Teresa e Maria.

O José, nascido em 1784, casou com Maria Rodrigues, filha de António Araújo e Maria Rodrigues e foi pai de Teresa casada com Domingos Martins; Maria que casou com Manuel Alves Ferreira; José casado com Maria Rodrigues; João casado em Viana com Antónia Alves Ferreira, morreu viúvo e sem filhos; a Rosa; o Manuel (1818) que veio a casar com Maria Fernandes Maciel, de Capareiros; António que casou com Teresa Rodrigues Vieira e Ana.

O Manuel, nascido em 1818 casou com Antónia Ribeiro foi pai de Inácio, o primeiro cesteiro da Casa do Inácio Forte e que deu o nome à casa por ter casado com Teresa Barbosa, filha de João Alves Ferreira Pericos e de Maria Barbosa, e pai de Ana, José, António, Maria e o Manuel. Foi assim que apareceram os “Barbosas Fortes” em 1869. Foi pai de Manuel que ficou na casa e casou com Teresa Rodrigues, que por sua vez foi pai de José, casado com Rosa Rodrigues, a (Barrola) de quem teve o Manuel que veio a casar para a casa do Barrolo, a Teresa que casou com um primo para a casa do Inácio, o José que foi para a França, o Avelino que foi para a Argentina onde deixou um filho de Maria da  Crasta com quem tinha casado, o João que ficou  solteiro e, sendo o mais novo, de nascimento já tardio, pois a mãe teria 45 anos, não era muito perfeito, viveu com o irmão António, que ficou na casa, casado com Maria Gonçalves de Araújo.

O António, filho de José e Maria Rodrigues casou com Teresa Rodrigues Vieira em 1844 e foi pai de Maria que morreu aos 41 anos de idade, do José que casou com Rosa Rodrigues em 1845, da Ana, do João que casou com Teresa Fernandes Crasta, de Manuel que, com 13 anos, foi para o Brasil com a profissão de alfaiate e veio a casar com uma cordoeira, filha de Luís Gandra e de Rosa Gonçalves, a Ana Gonçalves, de quem teve 7 filhos, (morreram muito novos, deixando a filha Rosa com 9 anos a tratar dos irmãos e veio esta a casar com o primo Miguel Forte, a Teresa que ficou solteira e morreu aos 44 anos de idade e o Domingos, que, como carpinteiro, saiu para o Brasil e casou com Rosa Rodrigues, filha de Francisco Ribeiro e Maria Rodrigues.

O Miguel casou com Rosa Martins da Silva, filha de Domingos Maciel e Ana Martins da Silva e foi pai de Manuel em 1885 e de Miguel 1893.

O Inácio casou com Teresa Barbosa e foi pai de 9 filhos: Maria, António, Rosa, Firmino, Ana, José, Manuel e Teresa.
A Rosa casou para Vila Franca para a casa do limite, a conhecida casa da Recoca; a Maria casou com José Matos e foi mãe de Rosa e Maria; a Ana casou com António Felicidade; o José casou com Teresa Forte e foi pai de Armando e o Manuel casou com Maria das Dores Rodrigues, de Sabariz.
           
            Os 7 filhos do Manuel casado com a cordoeira foram: a Maria, o Manuel, Manuel (2ºnome), João, Rosa, José e a Maria da Conceição, a mais nova.

            Do 2º casamento do João Afonso Forte com Maria Alves Correia nasceram 2 filhos, o José e o Manuel que foram também para o Brasil. O Manuel saiu como lavrador aos 26 anos de idade em 1981.

Conheci uma casa velhinha ao jeito de uma curva da estrada da Senhora das Boas Novas, situada a noroeste da casa do senhor Daniel Liquito, na Rua da Senhora das Boas Novas, do lado esquerdo de quem vem no sentido norte-sul foi o primeiro berço duma geração de 9 irmãos e foi conhecida pela casa do Inácio, antigo cesteiro, conhecida mais tarde também pela casa do Armando Inácio, filho do José Barbosa Forte que casou com Teresa Afonso Forte, prima, de quem teve 5 filhos: o Armando casou com Maria Gomes Pinto e é pai de 2 filhos casados e com netos; o Evaristo ausentou-se para a Argentina, a Maria que casou com o Ângelo Vieira, da Conchada, e foi mãe de 9 filhos; a Ana que casou com Francisco Sousa e Ermelinda que casou com Joaquim Portela.
Nasceu, depois desta Casa do Inácio, a casa do Manuel do Inácio no Largo do Bicho, no cruzamento, onde passava “a procissão de defuntos”, pois o Manuel Barbosa Forte, filho do Inácio, cesteiro, casou com Maria das Dores, de Sabariz e foi pai de 7 filhos. O Graciano casou com uma do "Cordoeiro" e teve 2 filhos: a Maria Olívia e o Manuel Luís; a Isménia que casou com o Zé Calçada, de Vila Fria, com 5 filhos; a Maria das Dores que casou com Manuel Liquito que morreu novo e deixou 7 filhos; o José casado com Olímpia, do Ribeiro (Vila Fria), com uma filha; a Albertina casou com José Gonçalves, de Vila Franca; a Lurdes casou com António Dantas, de Vila Fria, com 2 filhos e a Ludovina casada com Augusto Dantas, de Vila Fria, e mãe de 2 filhas.
Esta casa do Manuel Inácio perpetuou de algum modo este ramo dos "Barbosa Forte", assim como nos "Afonso Forte" levou a palma, nesse ramo, a casa do Miguel Afonso Forte que foi carpinteiro e filho de José Afonso Forte e Rosa Rodrigues, (a "cordoeira") prima dos meus avós paternos. Foi pai de Manuel, Miguel, José, Maria e Virgínia. O Miguel andou no Seminário uns 4 anos. Tendo abandonado o Seminário, fez-se à arte de mecânico com tanta perspicácia que foi considerado o melhor mecânico de Viana do Castelo e região, muito inteligente, de boa e fácil comunicação, especialista sobretudo do coração dos carros, os motores.

Não só pelas suas qualidades intelectuais, mas também pelos seus dotes de solidariedade, granjeou muita simpatia e admiração na população da terra natal, da cidade e de toda a região do Alto-Minho. Foi presidente da Junta de Freguesia durante 8 anos e 4 como Presidente da Assembleia de Freguesia. Foi vicentino, fez parte do Conselho dos Assuntos Económicos da Paróquia e foi dirigente do Centro Social Paroquial; casou com Maria do Carmo Barros Lima, foi pai de numerosa prole: José Miguel (também andou no Seminário), Manuel, Rosa, Maria do Carmo, Isabel, uma que faleceu, Anabela e Lucinda. O Manuel casou com Maria Cândida Sá de quem teve 4 filhos; o José casou com Maria Vieira e tem 2 filhos; a Maria casou com Augusto Galhofa, Augusto Pinto da Costa e ficou viúva nova com três filhos e a Virgínia casou com Manuel Rodrigues Cunha e é mãe de um casal de filhos. 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Espreitar ao ferrolho

 Espreitar ao ferrolho

Não sei por que uma porta há-de ter ferrolhos, pois antes do ferro, para o mesmo efeito, foram usados outros meios, sobretudo a madeira e não se chamavam “maderolhos” ou “madeirolhos”.




A porta é lugar de passagem e é composta de ombreiras ou almeiras. Há as ombreiras laterais onde podemos encostar os ombros, e onde as portas têm a sua segurança e movimento de rotação. Há portas de uma só folha, outras de duas folhas. Normalmente, nas de duas folhas, uma está fechada pela parte posterior por um fecho superior e outro inferior, e só se abre quando faz falta mais largueza.
Ambas as folhas podem ter ainda a segurança mínima de uma tranca que vai de ombreira a ombreira, ou uma tranqueta se vai da ombreira a uma das extremidades de uma das folhas, ou duas tranquetas que vão, cada uma, à sua folha encaixar no elo que prende a porta, ou vão a algum canto das travessas das portas antigas entre um buraco, orifício feito na ombreira de pedra, e entre esta e o tal canto em que se fixava. Hoje é diferente.
Para além das ombreiras, existem os cruzamentos, inferiores e superiores para as separar e tramar. Às de cima chama-se padieiras e às de baixo, soleiras.
A porta é essencialmente feita de um esquadro tramado por travessas horizontais embutidas nas travessas verticais, onde se prendiam com um grosso pau (ou caibro), normalmente cilíndrico, de madeira, enfiado em posição vertical, em dois ou três anéis chumbados na almeira e em dois buracos feitos, um na soleira e outro na padieira, ou só na soleira, tratando-se de uma cancela (ou cancelo). Nesse caso, não havia padieira. Os anéis, já foram uma forma mais tardia. Apareceram também as dobradiças constituídas por anéis que se entrelaçam a outros que são fixos e agarrados a uns chumbadouros, outras presas à portada, à folha e um eixo que se enfiava entre os ditos anéis entrelaçados, ou gonzos.
Os batentes são compostos de uma base e de uma escora ou quebra-mar para não ferir a madeira ao bater para chamar o dono da casa. Há batentes das mais variadas formas e artes, com formas antropomórficas, animalescas, ou maçanetas como uma mão de homem, mas mais vulgar de mulher, com anéis nos dedos ou mão a agarrar uma maçã que bate na escora, dependendo apenas da imaginação do artista. Este uso da mão feminina vem talvez sugerir a subtileza com que se deve bater a uma porta. De noite era sempre difícil ir bater à porta de alguém, sobretudo, se estivessem deitados e, com muito respeito, se aguardava pelo fim, quando a família estivesse em oração.
Para além dos batentes, que são só batentes e os batentes que são aldravas ao mesmo tempo, há outros componentes nas portas, nos portais (de madeira ou nos portões de ferro) que são os respiros e os visores antigos, os espelhos que são fruto de muita arte, não só para as fechaduras, como para os batentes ou aldravas. As fechaduras agora são normalmente incrustadas na vertical das folhas. Eram antes compostas pelo pano onde se encontrava o ferrolho, ou broca, o orifício por onde entra a chave até à contrabroca e a chapa de testa. Antigamente eram colocadas por fora da madeira, na parte posterior e bem presas com grandes parafusos, com chaves grandes e as chapas de testa com grandes buracos, onde entravam as linguetas, e a testa da fechadura funcionando como a parte fêmea.
Normalmente, a medida de uma fechadura era sempre pedida “da testa à broca”. O conjunto da fechadura era onde funcionava a chave e dava-se-lhe o nome de “pano” que pelo lado posterior, tem a contrabroca em algumas.
As aldravas antigas tinham uma forma de asa de caneca, um dedal onde o dedo calcava e manejava a lingueta para o trinco cair no gato, peça fixa, que tinha um feitio de rampa para o trinco poder subir e cair na sua fissura por dentro, na parte posterior da porta, deitava-se depois o gramilo que era móvel cujo eixo girava no gato para não deixar abrir do lado anterior à mesma.
Hoje todas as peças têm outros nomes, mas ainda há quem chame a todos os fechos interiores e fechaduras “os ferrolhos” da porta… “Levarás na boca uma porta e um ferrolho”, assim diz na Bíblia em Job, cap.38,v.10. O ferrolho neste caso era para ter a boca fechada, cerrada, não falar, não deixar que a língua possa deixar pronunciar os sons… boca cerrada.

A palavra ferrolho, para mim, está sempre ligada a um orifício. A palavra espanhola cerrojo (Cer+ojo) parece uma tradução mais razoável. Também o prefixo “bolt” nas línguas indo-europeias entra nas palavras com origem em anéis, argolas, encerrar, ou fechar uma sessão (cerrar em espanhol). Poderia ser uma fechadura que é o aparelho de fechar ou abrir. Bolt, em inglês, significa parafuso, e o parafuso fecha, entra na porca e prende, ou cerra algo. Se tirarmos o parafuso fica um buraco que pode ir para além da peça. Consubstancia um orifício, o dito ferrolho que era a entrada para a chave nas antigas fechaduras, por onde se espreitava…
Espreitar ao ferrolho é feio, diz-se em algumas regiões. Tapa-se o ferrolho, o orifício, o buraco, a fenda da porta onde se dá uma espreitadela com um olho fechado e outro aberto, como os médicos espreitam pelo endoscópio. Quanto se tapa o dito orifício só é possível olhar para o tecto com os dois olhos abertos e não há espreitadela.
Conversas sem ferrolho significa que são à vontade. “Cuidado, estão a espreitar”, mas espreita-se não só do buraco, ou orifício, por exemplo, da fechadura ou de uma fenda da porta, como também quando se abre uma janela ou se sobe a um muro, ou ao desviar uma ramagem, aproveitando para ver mais do que deve ou pode. É também querer ver o que não se deve ou não quer que seja visto que está a ver. Acontece o mesmo por timidez.
Há o jogo do ferrolho, o bolt é algo irritativo, rápido...como jogo...
No entanto, é certo que, em Latim é peça de ferro, que vem, de veruculum (ferro que corre), mas já no Grego significa fechadura de “máganon” ou saeta; em Espanhol é cerrojo; em Romeno, lua la fugá e Jeliazo; em Búlgaro e em Russo, Zaçob; em Ucraniano, Zaçeu; em Alemão, niegel. No latim também, pessulus, não tendo nada a ver com ferro. Num dicionário etimológico, buraco é uma depressão natural ou artificial num corpo. O veruculum latino vem da influência do facto da utilização do ferro e orifício aberto e estreito. Rigorosamente, bolt é parafuso e este fecha a porca (o orifício ou o anel e apertam as duas) e vem do latim ferramem ou cavus. Ferro em Francês é “fer”. Olho é “oeil” e ferrolho é “Oeil à queuefiletée”, nada a ver com ferro, mas com olho. A palavra ferrolho, tem a ver mais com olho, rosca e rabo, traduzido para português.
Ferrolho em Italiano traduz-se por “occhio à coda”, isto é, tem a ver com “olho ao rabo” que traduzido para português, nada tem a ver com o ferro, mas com orifício junto do rabo.
Ferrolho em Inglês é “eyebolt”, traduzido por uma só palavra que, decomposta, é olho e parafuso (ou porca). Em Alemão é traduzido por “Riusbozen”, nada tem a ver com ferro “eigen” nem com olho “auge”.
Ferrolho em Espanhol, “cerrojo”, tem mais a ver com olho fechado ou cerrado, é o que se fecha ou cerra e pode ser com outro material sem ser de ferro. Está muito semelhante ao Francês.
Quase todos os dicionários apresentam a palavra ferrolho com a mesma origem etimológica, mas um dicionário de português com dois volumes, que possuo, é de 1850, em terceira edição, de Eduardo Faria, diz-nos que vem do latim ferro e de olho (ferro+olho).
Há muitas palavras com o radical ou o prefixo ferro que não têm nada a ver com ferro: aferrolhar é fechar, ferronho igual a ferrenho, ferrão, ferrodilha (farrapilha), Ferrol, em Espanha, é de origem obscura, ferrolhar (fechar), ferroboro; feroz é entrar com força, violento. No Barroso, ferrelha é a pá que tira as brasas do forno. Aqui leva uma chapa semi-circular de ferro. O cão ferra e não tem nada a ver com o ferro. Eu ferro o sono, significa que durmo profundamente. Vamos ferrar o cavalo, pegar nele ou colocar as ferraduras que são de ferro.
Não podemos esquecer a arte dos nossos antepassados, presente no dia-a-dia mesmo da nossa terra. De Viana, tenho uma colecção fotográfica de todos estes componentes de portas, tanto de madeira como de ferro. Esquecer os ferreiros da nossa terra é correr para uma história sem base. É bom conhecer o passado para se viver melhor o presente, estar bem preparado para o futuro, aproveitando essa arte dos nossos antepassados.
A história local tem de ser feita, e a região só ganhava com isso, para uma maior identidade cultural da localidade, uma célula da globalidade. É na diferença, sempre clarividente, que se poderá fazer unidade ou globalidade corresponsável.
No entanto, a propósito do ferrolho, estou convencido de que era um orifício ao qual se espreitava, tendo obrigatoriamente de fechar um dos olhos para ver melhor com o outro aberto, procurar ver para além do mesmo. Muitos chamam ferrolho e não sabemos se se trata do ferro que corre, que desliza ou do anel ou orifício onde ele entra.

In Jornal “Paróquia Nova”


domingo, 17 de setembro de 2017

Um pequeno olhar sobre Viana - Portas de Viana

Um pequeno olhar sobre Viana

Este último capítulo refere-se exclusivamente à cidade de Viana do Castelo e já tinha sido preparado em 2008. Foi aqui introduzido apenas como registo de portas da cidade e elementos das mesmas. Não se trata de um registo completo, mas de um desafio para os que pretendam fazer um trabalho exaustivo sobre estas curiosidades da nossa terra.

Tal e qual aqui se deixa este capítulo à curiosidade dos leitores.