A ocasião em que se cozia o pão no forno era aproveitada para tirar o braseiro com uma pá de ferro para um cântaro de barro vermelho que era tapado com um testo barrado à volta com bosta (excremento de vaca) para o braseiro se apagar sem se desfazer em borralho. Assim ficava o carvão que servia para depois assar sardinhas, ou deitar no ferro de engomar, que muitas vezes usei, ainda andava na escola primária, para vincar as minhas calças e engomar os meus colarinhos e os punhos das camisas.

Quando o cântaro arranjava algum buraco era tapado com breu (resina) a arder. Era um perigo deitar estas brasas num cântaro que estivesse mal isolado. A minha bisavó paterna pelo lado do meu avô paterno morreu queimada por causa de uma situação destas. Estava a cozinhar o pão sozinha. Veio trazer o cântaro do carvão ao “quinteiro”. Estava vento. Este soprou por algum desses buracos. Fez labareda e pegou-lhe no saiote. Não se desembaraçou sozinha do incêndio que a levou deste mundo, como a mulher mais rica da terra e mãe de 10 filhos.
O carvão era algo muito importante e, para além do uso doméstico, era vendido para as carvoarias.
A combustão directa do carvão, para produção de vapor, foi a principal alavanca para o progresso da humanidade chegando à industrialização. A máquina a vapor, alimentada pelo tal carvão, surgiu em princípios do século XVIII, que Watt aperfeiçoou e comercializou, em Inglaterra, nos finais do séc. XVIII. O carvão é um material sólido, poroso e de fácil combustão capaz de gerar grandes quantidades de calor.
Há várias espécies de carvão mineral e vegetal. Pode ser artificial pela queima de lenha, como vegetal ou mineral tendo passado por um processo de transformações orgânicas em função da natureza vegetal e artificial, ou, em forma natural, que se transforma em carvão mineral. A hulha foi a mola que revolucionou a Indústria que o petróleo veio substituir no século XX.
Assim, foi o carvão a grande fonte de energia de calor!..
Foi aquele que pôs máquinas a trabalhar, como as máquinas do caminho de ferro que puxavam o comboio.
O prefixo “ca” pode ser diminutivo etimologicamente aplicado a algumas palavras.
O padrão luso ”car(v)alho feio como o car(v)alho perdendo o “r” é mesmo de temer. Esta letra “c” do nosso alfabeto tem tendência a desaparecer, pois as pressas e as mensagens rápidas e baratas via telemóveis ou mails, os jovens a este “c” de cão substituem-no por um “k”. O mesmo pode acontecer ao ‘Ç’ que facilmente trocam por um ’S’...e depois não se estuda latim, o que não acontece entre os germânicos que, não tendo línguas latinas, mantêm o estudo do latim obrigatório!...
O “car”, numa significação ancestral, significou também imersão em água que cura. Hoje car sem algo junto não significa nada. É como um carro sem motor, que não chega a ser carro, pode ficar apenas no car!.. E um “cara” no Brasil tem um significado... e a nossa cara é o mesmo que o nosso rosto.
Enfim... No entanto, o que vem ao assunto é o carvão energético, que aquecia nas lareiras, que punha as máquinas a vapor a funcionar e que às vezes saía como tiros pela chaminé das locomotivas dos antigos comboios puxados a carvão de pedra...
Hoje, em vez de fazermos a fogueira para fazer carvão para preparar uma sardinhada, ou uma churrascada, comprámo-lo, porque nas nossas casas já não existem as lareiras das fogueiras,dos potes, das trempes e dos tachos ao lume, dos serões, dos contos e das adivinhas, das anedotas e das histórias da família, dos conselhos e das brincadeiras, do aconchego familiar, onde a amor da família se desenvolvia com mais diálogo, menos dispersão.
Hoje, mesmo na hora da refeição e durante a noite as pessoas têm o nariz, os ouvidos e os olhos metidos num aparelho, sem que haja o encontro de família,o diálogo, próprio de um amor familiar que cresce.
Adquem
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