Depois foi sempre assim?
O meu coração apertadinho dos primeiros anos já se tinha ido!...
Estudava bem e tirava notas razoáveis, embora o meu coração estivesse em Viana. Por esse motivo, em dezembro, para prevenir a chegada das férias de natal contactei a Empresa Magalhães para arranjar uma camioneta para que, no dia da saída para férias os de Viana pudessem, ao toque da campainha e à abertura das portas do Seminário, entrarem nela e, mais depressa, chegarem a casa.
Não considerei isso acto heroico, mas alguns assim entenderam.
Tinha-me parecido que sair de mala de viagem à procura de transporte de camioneta ou de comboio, o mais prático era ter à porta a camioneta e seguir viagem para Viana. Foi, por isso, que contratei o autocarro que à hora prevista estava à nossa espera.
Todos, numa correria, enchemos a camioneta. E, Viana, era o nosso destino.
Pelo caminho foi uma festa. Ao passar nas terras, alguns iam ficando e, em Viana, os outros que as famílias de Perre e de freguesias vizinhas esperavam.
Este evento fez que os vianenses de filosofia e teologia, os da Colónia de Viana, apreciassem porque até ali ninguém se tinha lembrado de uma coisa destas. Alguns vianenses recordam esta iniciativa com admiração!
O 4º ano, hoje o 8º ano, foi feito com facilidade. Pensava-se nas férias, nas atividades das mesmas, e nas da Colónia Vianense que se faziam em férias. Eu próprio com os seminaristas da minha terra o José Maria Cunha, o José Augusto Barbosa e o Mário Gonçalves organizamos para os vianenses algumas festas em Mazarefes.
Depois das férias que fazíamos no Rio Lima, em S. Simão, voltamos ao Seminário.
No 5º ano assim foi... Batina, cabeção e a murça…E os sapatos de fivela.
Foi cedo de mais, mas não fez mal nenhum.
Aí deixamos de dormir em camaratas e cada um tinha o seu quarto. A melhor nota que tive foi a Inglês e também no 5º ano foi o ano em que melhor nota obtive em música desde o 1º ano. O Pe. Manuel Faria, sem desprimor para seus antecessores professores de música, foi aquele que, agarrado a um piano, me fez entender e distinguir o tempo e os meios tempos das notas, os sustenidos e os bemóis, aí comecei a cantar todas as escalas em menor ou maior.
Mais um ano bem passado e bem aproveitado. Cada vez me sentia mais eu e lá fui parar ao Curso de Filosofia.
Entrei na actividade extracurricular que foi a aula de pintura a aguarela, ou a óleo com o Mestre Luís Campos e em 1967 expus os meus primeiros quadros de que ainda conservo 3 ou 4, no Edifício do Turismo de Braga.
Entrei, noutra atividade extracurricular, na Legião de Maria que abracei toda a vida até ao fim da Teologia.
Foi este movimento que, experimentando o trabalho com os presos, com os ciganos e os doentes do Hospital de S. Marcos que mais me determinou na caminhada para padre.
Trabalhos, estes, que continuei no Curso de Teologia. Organizei, o que aconteceu pela primeira vez, uma catequese para os ciganos, na Capela de S. João, junto ao rio Este. Organizei uma Peregrinação com os ciganos à Senhora do Sameiro, a primeira e a única, onde se reuniram ciganos de Famalicão, Póvoa e os três acampamentos de Braga. Um domingo, de tarde com as alunas do Colégio do Sagrado Coração de Maria, organizei um baile na cadeia. Foi a primeira e a única vez, porque o director com argumentação que facilmente compreendi, era proibitivo...
Na cadeia passava muito tempo. Um dos presos escrevia umas coisas e arranjou uma máquina de escrever. Pedi-lhe para me mostrar escritos dele e depois levava-os para publicar no diário do Minho e assim, quando saiu da cadeia se fez jornalista e foi director de um jornal regional.
O curso de teologia não foi difícil, mas eu é que, entretido com os ciganos, com os quais, às vezes, comia nas tendas deles porque achava que era a melhor maneira de lhes mostrar que não desprezava a sua cultura, com os doentes no Hospital ou na Cadeia... Só estudava à noite o que ia para além das 22H., a hora de descanso e de fechar as luzes do quarto. Tapava o candeeiro com a murça e dirigia a luz para os livros, cada dia e noite estudava as aulas anteriores para no dia seguinte não fazer má figura e para se saber, claro.
Uma vez o Dr. José Areeiro, professor de História de Arte, convidou-me a dar uma aula sobre arte rupestre. Aceitei o desfio. Suponho, não me lembra, mas fui o único a desempenhar esse papel, de tal modo que sempre fomos amigos.
Todos os anos foram em Teologia também aproveitados, só não gostava muito de Dogmática e reprovei a esta disciplina no último ano.
Tive de repetir o exame no fim das férias de Verão e acabei com êxito. Fui ordenado diácono e participei num curso Dominique a convite de um enfermeiro de Abrantes que o conheci, quando nas férias grandes de 1970, participei na expansão da Legião de Maria em freguesias de Abrantes, Portalegre e Castelo Branco, com meu colega João Alves Lima e um estudante de engenharia de Carcavelos que não recordo o nome

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