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sábado, 3 de outubro de 2026

A Cidade do Coração…

A Cidade do Coração… Vinha a Viana de charrete, mas foi algo que, entre 1950 e em 1954, acabou. Depois, comecei a vir a pé. Com apenas seis anos, subia a montanha de Santa Luzia pela Cruzada, em peregrinação ao Sagrado Coração de Jesus. Custava-me mais descer do que escalar. Recordo-me — já não sei em que ano foi — de vir descalço com a Maria e as colegas da feira para não pagar dois escudos e cinquenta centavos. Isto devia-se à postura municipal da época, que proibia a entrada na cidade a quem estivesse descalço. No entanto, a meta era tão desejada que representava o sinal da chegada pretendida, após mais de seis quilómetros calcorreados. O caminho fazia-se pela estrada da “Mata de Mazarefes” (que ligava Darque a Ponte de Lima) até Darque. Continuava por Darque até ao “Caminho da Areia”, para encurtar a distância, saindo junto à Seca do Bacalhau. Depois, apanhávamos as carreiras do Cura, com os seus bancos de madeira. Em 1958, saí sozinho de casa sem dizer nada à “criada”, a Esperança, que tomava conta de mim, dos meus irmãos e da minha avó materna, que era viúva e sofria de demência senil. Tomei essa iniciativa porque o resto da família tinha ido a Viana visitar o meu pai, que fora operado no dia anterior. Sabia que ele estava no Pavilhão Cirúrgico — que até se avistava da nossa eira —, no quarto número quatro, segundo ouvia a família comentar. Entrei pela lateral do caminho de ferro, passei mesmo por baixo da ponte, pelo lugar do C.F., e cheguei à passagem de Santo António. Ali parei e bebi água no fontenário. Fui subindo a calçada de Valverde e as escadas, atravessando a estrada de Santa Luzia. Lá chegado, entrei no dito pavilhão e abri a porta do quarto, onde já se encontrava muita família em redor do meu pai. Surpreendi-os a todos, que queriam saber como ali tinha conseguido chegar sozinho. Tive a sorte de regressar de comboio, confortado por ver o meu pai vivo, embora debilitado no período pós-operatório. Deixei a minha terra em 1959. Tinha passado a infância a conciliar a minha hiperatividade com momentos de contemplação da cidade de Viana, a partir da casa dos meus pais. Já sentia saudades dos momentos que nela passava; naquela altura, contemplá-la dali era fácil, mas hoje tornou-se impossível a partir do mesmo local. Nos dois primeiros anos no Seminário, as saudades da família eram muitas, mas também tinha saudades da minha terra, dos jovens da minha idade, de toda a gente da minha freguesia, das gentes e de muitas famílias que conhecia desde tenra idade, bem como da minha capital de distrito e da sua paisagem. Guardava tudo no coração, cheio de vontade de voltar nas férias. Talvez por isso tenha tomado a iniciativa — e naquela altura não era fácil para um rapaz — de alugar uma camioneta para trazer os vianenses mais depressa para casa. Ao sinal de saída para férias, todos corriam com as suas malas para ocupar um lugar no referido autocarro da Empresa Magalhães, mesmo à porta do Seminário. Faziam-no sob o olhar de soslaio e severo dos superiores e perante algumas palavras de desdém dos colegas de outras regiões. Pelo caminho, fazíamos uma grande festa, própria da nossa idade, movidos por uma vontade forte e contagiosa de chegar a Viana o mais depressa possível, pois era a terra do nosso coração. Nas férias, tentava restabelecer-me, procurando encontrar os amigos e amigas da terra que me viu nascer. Organizava passeios até ao rio Lima, a nossa praia. Por exemplo, com um pacote de bolachas, convidava os jovens de Mazarefes a jogar contra os de Darque numa veiga junto à Pontelha, um local hoje bastante transformado em relação àquela época. Era ali que muitos aprendiam a nadar. Na praia fluvial de S. Simão passavam-se as mais diversas peripécias. Juntamente com os meus amigos mais próximos, fazia descobertas desde o rio Lima até Sabariz, passando pelo “Barco do Porto” e pelo “Cais Velho”. Eram o Mário da Meira, o José Maria Cunha, o José Augusto Barbosa, o seu irmão Manuel e todos aqueles e aquelas que a nós se juntassem; recordo também o José Amado Santos Lima e o Armando Lima, entre muitos outros. O Armando Lima chegou a construir um barco para andar no rio. Organizei encontros de férias em magustos, no mês de dezembro, com seminaristas de Viana e, num determinado ano, almoçámos todos na Casa do Povo, no verão. Fizemos passeios de bicicleta e muitas outras atividades que, de momento, a memória já não me alcança. À medida que os anos iam passando, adaptei-me melhor ao Seminário. Contudo, na hora de partir para Braga, precisava de respirar fundo, porque Viana continuava a ser o meu grande sonho. Alimentei a chama da Colónia Vianense, que existia desde 1940 a favor da criação da Diocese. Isso quase me custou caro: como já era diácono e tinha terminado a Teologia, o Arcebispo de Braga ameaçou-me que não me ordenaria se eu levasse por diante o programa da celebração dos quarenta anos da Colónia de Viana. A festa acabou por se realizar em 1971, o ano em que concluí o curso, contou com a participação de sacerdotes — dos mais novos aos mais velhos —, antigos ex-seminaristas e seminaristas da época. Nesse dia, enviámos um telegrama ao Papa Paulo VI com uma saudação de todos, afirmando que estávamos ao seu lado. Quem me valeu foi o Monsenhor Daniel Machado, Vigário Episcopal do Arcebispo em Viana, que assumiu toda a responsabilidade. O que mais me agradou em Braga, durante os estudos de Filosofia e Teologia, foi o trabalho que desenvolvi com os reclusos, os doentes e os ciganos; foram eles que terminaram de incendiar a minha vocação ao sacerdócio. Assim, fui ordenado um ano depois, a 9 de Julho e, a 2 de Outubro de 1972, assumi as paróquias de quatro freguesias: Dem e as três Argas. O meu coração, afinal, estava em Viana, mesmo sem ter sido colocado na cidade — algo que nunca quis e nunca acei¬tei de bom grado. Fui convencido pelo Padre Pedreira a dizer "sim" a D. Júlio, após seis anos de uma experiência única no meio de gente mais simples e mais generosa. Pensei que vinha para ficar cerca de cinco anos, mas ainda hoje aqui estou, na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, feliz, embora doente. A minha inteligência limitada A minha inteligência não é capaz de atingir aquilo a que gostaria de chegar, mas como ninguém me pode prender o pensamento ou tirar-me a liberdade de escrever o que penso, vou fazê-lo com a certeza de que vou “errar”, pois não sou formado em línguas, embora tenha estudado sete, entre elas o latim, o grego e o hebraico. Mas prefiro dizer “tá-tá” como uma criança a rugir como um primata. Quando, em Coimbra, fiz um exame de linguística portuguesa, tirei uma nota exemplar, mas creio que foi mais pela informação que forneci à Professora sobre a evolução do galaico-português e dos paralelismos existentes actualmente na Serra d’Arga. É por isso que não posso deixar de escrever porque, se errar, alguém me deve corrigir — e é saudável aprender até morrer. Há oito milhões de anos, os primatas não falavam; apenas usavam a linguagem gestual e produziam ruídos, barulhos trabalhados, usando o esófago e a garganta até chegarem aos sons guturais (ummm, gutural nasal…). Aí começaram e evoluíram, passando aos palatais, aos dentais e aos labiais. A evolução foi lenta e só o Homo Sapiens conseguiu ir mais longe… Quase todas as línguas têm uma tonalidade diferente, segundo as influências dos colonos. Os indígenas tinham a sua própria linguagem e a adaptação aos colonos foi uma evolução muito lenta, com mais ou menos rapidez, com mais ou menos boa vontade, com mais ou menos resistência… Se os primatas, a pouco e pouco, foram descobrindo o “x”, o “h” e o “a” (vogal), a primeira letra que o homem pronuncia com sofrimento (com dor) é o “a”, e com alegria e liberdade quando se sente “fora da cuba”. Depois de chegar às palatais com o “g”, “q” e “y” (semivogal), descobre o uso da língua para pronunciar “j”, “t”, “d”, “g” e “l”, até chegar às dentais sibilantes “c”, “t”, “v”, “s” e “z”, e às labiais como o “p”, “b” e “m”. Mas as guturais, com esta mistura toda — usando os dentes, os lábios, a garganta, o palato e não esquecendo a língua —, descobriram algumas intermédias: dental-labial, dental-palatal ou a posição de ambas ou mais... Há uma letra palatal-lingual que é o “r”, existente no alfabeto latino e grego, mas poucos o usam como o português, sobretudo o “r” dobrado (“rr”) ou no princípio das palavras. Há alfabetos que nem sequer o conhecem, mas o hebraico tinha o resh (ר), assim como o grego tinha o rhó (ρ). Hoje em dia, quem tenha sofrido a extracção de alguns elementos da garganta consegue falar de boca fechada através da traqueia, dizendo algo que se faz entender. É uma questão de afinação, ressonância, controlo, volume, treino e exercício… Falam com regularidade, guturalmente. De qualquer modo, a primeira linguagem de relacionamento entre os humanos deve ter sido a gestual, até chegar à exofágico-gutural e, finalmente, à labial. A primeira necessidade de fonia terá sido o “sim” e o “não”. Daí veio a divisão da luz e da escuridão, do dia e da noite, da terra e da água, dos rios e dos mares, das plantas e das não plantas, do animal e do Homem, do homem e da mulher. Uma coisa é, outra não é. Uma é sim, outra é não. Lá está o sim e o não: o que é água não é terra, o que é terra não é água; o que é animal com instinto não é animal inteligente; o que é homem não é mulher, mas ambos são imagem e semelhança de Deus, iguais em direitos e dignidade, a última criação com capacidade para gerir este jardim maravilhoso que é o mundo — com o planeta Terra e o que não é terra, com o sol e com a lua (que não é sol), o trabalho que não é descanso. O autor bíblico lá teve a sua inspiração para falar da criação e da linguagem. Esta luta constante evolutiva chegou a um impasse... Quando os homens quiseram chegar ao céu construindo a Torre de Babel. Como não conseguiram, todos fugiram, formando os clãs e as tribos, e cada um começou a falar a sua língua e a construir, egoisticamente, o seu projecto. Agora andamos atrás das origens de uma língua comum e dizemos: nós fomos límicos, iberos, celtiberos, lusitanos... e antes? Fomos colonizados e invadidos tantas vezes, mas ganhámos força, garra e coragem. Chegou também a altura de os portugueses irem à descoberta do mundo para levar a fé, a cultura e a nossa língua, uma das mais faladas no mundo. Parece-me que é a terceira, mas até quando? Vem a influência inglesa, outra colonização linguística, e, por fim, há de vir a chinesa. Por isso, parece valer pouco pensarmos em querer descobrir mais, porque nada temos para dar e temos tudo a receber. A articulação dos fonemas, da fala, foi, antes de tudo, uma expressão de sons musicais. Para isso, humanos e não humanos, não precisamos de ir às “cantigas de amigo”; podemos ainda observar, em algumas romarias ou festas, os cantares populares, as cantigas ao desafio, etc., no meio dos humanos, porque os outros animais o fazem por instinto e não evoluíram como nós fomos capazes. Os animais de grande porte, normalmente, usam sons guturais (por exemplo, o mugir da vaca) e quase a totalidade dos mamíferos usa sons guturais nasalizados (nasais), assim como a maioria dos pássaros emite sons sibilantes, como o melro; mas uns e outros são como os homens. O homem foi mais longe pela sua inteligência e até levamos os animais a entender instintivamente muita da nossa linguagem para podermos ser senhores, donos e ordenadores da obra da criação de Deus, que nunca devia ser para destruir, mas sim para construir. Deus criou a natureza e toda ela era boa, mas, às vezes, o ser humano — a quem Deus deu inteligência para continuar a obra da criação — parece querer destruir, mesmo quando reproduz electronicamente o cantar dos grilos, uma vez que estes estão a desaparecer devido aos “venenos” lançados nas terras. Aqueles que, devido a um AVC, ficam sem voz, dizem sempre algo, ainda que seja de boca fechada: o “nh” (ñ) gutural prolongado, alongado, tanto para dizer sim como para dizer não. Depende da ocasião e do gesto que o acompanha com a cabeça ou com a mão, por exemplo... Há pessoas que conseguem recuperar formas e sílabas, e chegam a pronunciar palavras... a falar normalmente. Outra experiência é notar os bebés a falar para si mesmos sem que ninguém os entenda: as primeiras letras, as primeiras sílabas, as primeiras palavras e as dificuldades em pronunciar o “r”, tanto no princípio das palavras como no meio, quando dobrado, em que se tem de pronunciar levantando o corpo ou a base da língua, enrolando-a ou fazendo um som retroflexo com a ponta da língua (“rr”) no palato. Não acontece tanto no “r” final. Tantos lutam pela pureza da língua. Como acontece no Vale do Lima com o Dr. José Luís Branco em “A bem da língua portuguesa”; mas dá a impressão de que é melhor esquecer e deixar andar, porque estamos no tempo de andar com o boné na mão, estendido à caridade... Voltados para os estrangeirismos, porque não parece ser do interesse político defender a pureza da língua. Afinal, os senhores doutores já não estudaram latim nem grego e, para esses, vale tudo... Não existe uma Academia Nacional de Língua Normativa para defender a pureza da linguagem e evitar a invasão da língua inglesa, ou de outras, dizia-me um amigo meu. Um dia, conversando com outro amigo, estávamos de acordo que viemos de um tronco comum. A rama e as folhas é que se dividiram e, na linguagem, andamos à procura do tronco, por aqui e por acolá. Descobrimos pontos de encontro que nos deixam “pasmados” ou, melhor diria, certos de uma harmonia preexistente muito mais rica. Acreditamos numa civilização superior em que o homem já tenha feito a terra. A Bíblia, ao falar da criação do mundo por um autor inspirado, escreveu-a ao seu jeito, conforme entendia que Deus tinha criado as coisas. O autor tinha uma ideia muito reduzida do mundo, tão curta como o horizonte entre duas montanhas, as colunas do céu. A linguagem surgiu da necessidade de relações e da evolução dos sons musicais: do ribombar do trovão, dos sons guturais, do toque do tambor, da urgência de expressar emoções, sentimentos, sensibilidades, afectos, etc... Enquanto foi evoluindo até ao assobio ou às letras sibilantes (dentais, palatais e labiais). Quando alguém geme (o “ñ”/“nh” alongado), é uma linguagem sempre igual para quem já não fala, usada para mostrar que sofre, que tem dor ou para dizer “sim” ou “não”, acompanhada de um gesto, perante qualquer coisa. 2003

Inteligência Artificial

Inteligência Artificial A leitura de um artigo recente da autoria do Prof. Alfredo Dinis S. J. incitou-nos à escrita destas breves linhas sobre a denominada Inteligência Artificial (IA), assunto sobre o qual temos vindo a meditar há muito tempo. Temos absoluta consciência de que não possuímos preparação suficiente para abordá-lo com o mínimo de profundidade. Consequentemente, apenas referiremos os pontos que têm merecido a nossa atenção e suscitado as nossas interrogações, tanto pela sua complexidade como pela sua extensa e intensa realidade atual. Fazemo-lo na esperança de incitar outros, mais bem preparados, a abordar este interessante assunto. Antes de entrar propriamente na IA, lembraremos o que se entende por inteligência. Esta palavra, derivada do latim intelligere (compreender), significa a capacidade de o ser humano entender, ou seja, a adaptação e o domínio de novas situações, sejam elas de natureza prática ou teórica. Não vamos colocar aqui o problema do instinto e do pensamento dos animais, mas apenas lembrar que, para Aristóteles e Kant, a posse da razão separa os humanos dos animais. E o que se entende por IA? É o ramo da informática relacionada com o desenvolvimento de maneiras de imitar aspetos da inteligência humana, de tal forma que o computador realize operações equivalentes às realizadas pelo homem em situações similares. Se, para Descartes, um ser humano é uma substância pensante (Cogito, ergo sum), teremos de concluir que um computador não pensa. Ele apenas imita mecanicamente o cérebro humano, segundo dados que o homem, inteligentemente, lhe forneceu. Sem dúvida que a IA é uma técnica extraordinária ao serviço do homem, mas é isto e apenas isto. Será de lembrar que Santo Inácio de Loyola, baseado em Santo Agostinho, colocou a memória, a vontade e a inteligência num plano muito elevado, considerando a inteligência tal como nós hoje a consideramos: a capacidade humana de pensar e compreender. Gaspar Simões Viana (publicado no P. Nova) 2003

Os Movimentos numa Paróquia

Os Movimentos numa Paróquia Os movimentos duma paróquia podem ser de origem paroquial e devem ter a aprovação do Bispo, ou podem ser organismos ou movimentos que têm a aprovação da Igreja Universal e são reconhecidos pelo Bispo da Diocese. Estes têm, normalmente, uma hierarquia própria através de sedes diocesanas, nacionais e internacionais, sendo representados por secretariados, direcções, delegações ou centros próprios, conforme a estrutura estatutária ou as orientações de cada Bispo na sua diocese. Há variadíssimos movimentos ou organismos, serviços e obras, conforme a diversidade de carismas existentes na Igreja. Não vou enumerá-los todos porque seria uma lista interminável, mas não resisto a falar daqueles que melhor conhecemos, por trabalharmos directamente com eles na paróquia. Na Comunidade de Nossa Senhora de Fátima existem o Movimento dos Cursos de Cristandade, a Legião de Maria, a Sociedade de São Vicente de Paulo, o Apostolado da Oração, o MEV (Movimento Esperança e Vida), os Cruzados de Fátima, o Coral Litúrgico, o Coral Juvenil, o Coral de Música Clássica, o grupo dos leitores, o dos ostiários, o da Pastoral da Família, o da catequese, o do escutismo, o dos acólitos, o dos ministros extraordinários da Comunhão, o do acolhimento, o dos zeladores, etc. Existe ainda o Serviço de Comunicação Social (Luz Dominical e “Paróquia Nova”) e o Centro Social Paroquial com as seguintes valências: o Centro de Acolhimento de Bebés e Crianças Abandonadas ou de Alto Risco (vulgo Berço), o Jardim de Infância, o Centro de Deficientes (Samaritanos), o Centro de Cegos e Amblíopes, o Centro de Dia, o Centro de Convívio, o Serviço de Assistência Domiciliária Integrada, o Serviço de Apoio ao Domicílio, o Refeitório Social (para passantes, toxicodependentes em recuperação, indigentes e sem-abrigo), a Escola de Música, o Centro de Juventude Ozanam (ocupação de tempos livres de crianças e jovens) e o CECAN-RD (Centro Comunitário de Apoio aos Necessitados - Recolha e Distribuição). Integram também a estrutura a Comissão Fabriqueira e o Conselho Pastoral Paroquial. Na área da paróquia, ainda existe um seminário da Ordem dos Carmelitas Descalços, com alunos e uma obra social de reintegração de pessoas com várias carências — desde a indigência aos ex-toxicodependentes. Dirige ainda um Gabinete de Apoio à Família com vários projectos: Casinha (para crianças das famílias acolhidas), Viana sem Fronteiras (ao serviço dos imigrantes, sobretudo do Leste), Rotas de Intervenção, Estrada com Horizontes (para pessoas em situação de sem-abrigo), Ecos (prevenção primária da toxicodependência), além da Casa Abrigo e da Casa de Acolhimento para mulheres vítimas de violência doméstica e os respectivos filhos. A diocese é composta por tudo isto... e muito mais. Se estamos em Sínodo, todos nós estamos envolvidos nesta tarefa da Igreja, que é um tempo de reflexão e de mudança. Quando digo «nós», refiro-me aos que estão ou não comprometidos em movimentos ou grupos (diocesanos ou paroquiais) e aos simples cristãos empenhados em tarefas temporais, seja na política, nos sindicatos, nas comissões de trabalhadores ou sem nenhum compromisso oficial. Todos os baptizados devem sentir este movimento sinodal de conversão e mudança numa Igreja co-responsável. O Bispo sozinho não tem razão de ser, assim como sem o Bispo não há baptizados, expressão laical ou co-responsabilidade. A Igreja faz-se desta comunhão com Deus e com os irmãos: aqueles que se cruzam connosco no trabalho, na rua ou no café; os que dormem debaixo do mesmo teto ou se sentam à mesma mesa em família. Sendo assim, não se compreende que um movimento — paroquial ou não, desde que actue na diocese — viva de costas voltadas para o Sínodo, ou que este não seja motivo de debate e estudo nas reuniões. E quem diz um grupo, diz um cristão isolado ou dedicado a obras temporais, que devem ser sempre iluminadas pelo espírito do Evangelho. Ainda há pouco celebrámos a Páscoa, precedida pela Sexta-feira Santa, em que a Cruz foi a bandeira da glória para o crente e do fracasso para o malfeitor. Somos crentes e celebrámos a Páscoa. Não podemos esquecer que, para permanecermos nela, temos de amar sem explorar o outro, sem faltar ao respeito e sem cobiçar o lugar alheio. Pelo contrário, devemos partilhar e dar amor para que o Ressuscitado continue vivo no coração dos humanos e da diocese, fazendo brilhar o testemunho d’Aquele que descobrimos vivo e dinâmico. Quem sabe se, no irmão que está ao nosso lado, Ele não exclamará desanimadamente: «Não valeu a pena», «Continua tudo igual» ou «Se ao menos Deus me levasse...» — expressões que tantas vezes ouvimos aos que sofrem. Que Ele possa brilhar em todos!

PARÓQUIA EM FESTA: «NUNCA ESTIVE SÓ...»

Não posso esconder a minha alegria e satisfação pela festa que a Comunidade Paroquial levou a efeito para celebrar estes 25 anos de serviço e de aliança com este povo que o Bispo me entregou a 2 de Setembro de 1978. Queria, através do jornal, agradecer a todos os amigos que colaboraram: a começar pela Comissão Organizadora, liderada pelo Dr. Albino Ramalho, e a todos os que participaram de uma forma ou de outra na festa, com gestos, lembranças e donativos. Saúdo a presença de autoridades religiosas, civis e militares, bem como as mensagens enviadas por correio, e-mail, telemóvel, telefonemas ou telegramas, assim como os órgãos de imprensa que ecoaram esta efeméride. Sinto-me satisfeito e reconhecido, embora tudo o que foi feito tenha ido para além daquilo que eu merecia. Nunca estive só. A paróquia, no fim de contas, é que está de parabéns, porque tem feito o que pode na formação integral para a vida, na celebração da mesma e na partilha de bens, através da caridade e da solidariedade cristã e humana. Por outro lado, sinto um certo vazio! A minha vida talvez não tenha sido o verdadeiro e autêntico testemunho de sacerdote, porque, sendo esta paróquia uma comunidade a mim confiada que até possui um seminário no seu território, não compreendo como não tem havido vocações para o sacerdócio. Nestes 25 anos, lembro-me apenas de duas vocações — uma no Seminário Diocesano e outra no Seminário Carmelitano — que não vingaram. Recordo que esta comunidade, antes de o ser, deu um sacerdote, já falecido e que todos conhecemos muito bem, o Padre Manuel Miranda. Que esta festa tenha sido expressão de alegria para todos, mas não podemos deixar de reflectir neste pormenor, porque isso me dói. Neste momento, já era tempo de sentir que alguém, muito próximo de mim, seguiria os meus passos... Sou padre há mais de 31 anos. Não me sinto tão humilde que aceite com facilidade que os frutos da semente lançada possam vir a ser colhidos muito mais tarde. Deus me perdoe! Tantas vezes peço às pessoas para darem testemunho da sua vocação nas missas das crianças e vejo os pais tão distantes de ajudar a encaminhar para o trabalho de uma seara tão grande, que é a do Reino de Deus. 2003

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A origem da maioria das nossas paróquias

A origem da maioria das nossas paróquias A origem da maioria das nossas paróquias não é conhecida com exactidão, mas sabemos que muitas nasceram dos castros existentes. Houve castros que deram origem a várias igrejas rurais e privadas que, até ao século VII, nem funcionavam como paróquias, pois era necessário ir à igreja presidida pelo Bispo ou àquela que já possuía pia baptismal. Portanto, algumas não tinham culto com carácter paroquial. No início, estas paróquias também não estavam definidas por limites territoriais como hoje; isso surgiu mais tarde. Canonicamente, cada paróquia tinha a sua própria organização e cada comunidade criava a instituição à sua maneira. Com a fundação de Portugal, a diocese de Tui, por exemplo, perdeu as paróquias situadas entre o rio Minho e o rio Lima. Nessa altura, a divisão territorial de paróquias e dioceses não foi pacífica, exigindo a intervenção dos bispos e do Papa — por vezes sem resultados tão claros quanto o desejado, como aconteceu em Viana, do lado norte. A invasão árabe, ao encurralar os cristãos nas Astúrias, também deixou marcas profundas, sobretudo na reconquista, alterando as formas de vivência eclesial, fosse em igrejas particulares ou paroquiais. (Quanto à definição de paróquia, hoje, está a ter outra quanto aos seus limites e centrar-se mais na ideia de comunidade.) É desse período que data a valorização do padroeiro ou fundador, surgindo invocações como a Senhora da Vinha (na Areosa), a Senhora das Areias (em Darque) ou São Simão da Junqueira (em Mazarefes). As igrejas particulares foram-se convertendo em públicas e os bispos começaram a impedir a construção de templos sem verdadeiro fundamento pastoral. A distância, o aglomerado populacional e os rendimentos para a manutenção do templo eram condições fundamentais. Quando a dotação não chegava, recorria-se aos ex-votos, geridos por vezes como propriedade familiar de geração em geração. Estes abusos na administração de bens espirituais acabaram por ser corrigidos. Na Idade Média, a hierarquia determinou que os bens da Igreja deixassem de ser administrados exclusivamente por leigos ou mordomos. O direito de patronato substituiu a propriedade privada e, já no século XI, muitas igrejas rurais foram oferecidas pelos seus possuidores aos cabidos das catedrais e aos mosteiros. Os templos passaram a ser considerados propriedade da Igreja: o Bispo nomeava o clérigo e o patrono conservava o direito honorífico de apresentação, mantendo a obrigação de defender os seus bens. Até ao século XIV, os visitadores recolhiam rendas que, por vezes, faziam falta ao sustento do presbítero ou à manutenção do templo. Esta fiscalização do Bispo perpetuou-se no tempo: tal como acontecia no século XIX, ainda hoje, antes da visita pastoral do Bispo a uma paróquia, o arcipreste realiza uma visita canónica para preparar um relatório. Na Alta Idade Média, havia também nobres que fundavam capelas privadas para cumprir o preceito dominical da família e dos criados, num modelo ligeiramente à margem do espírito paroquial, mas comunitário. A nossa paróquia nasceu formalmente de um decreto de D. Francisco, Arcebispo de Braga, em 1967, uma vez que o território ainda pertencia a essa arquidiocese; a sua história como comunidade paroquial é, por isso, recente. «A paróquia é uma determinada comunidade de fiéis constituídas estavelmente na Igreja Particular, cujo cuidado pastoral é confiado ao Pároco, como seu pastor próprio, sob a autoridade do Bispo diocesano.» — Código de Direito Canónico (Cân. 515, § 1) Hoje, a paróquia mantém a sua administração através do Conselho Económico Paroquial (CEP) ou Fábrica da Igreja Paroquial. Na administração paroquial, destaca-se em primeiro lugar o património: a igreja, as capelas, o recheio artístico, as alfaias litúrgicas e o mobiliário. O CEP é também responsável pelo arquivo (orientações pastorais, registos de reuniões, correspondência e os assentos de baptismo, casamento e óbito, actualmente informatizados). Compete-lhe ainda gerir a contabilidade mensal (donativos, ofertórios, esmolas), guardar com segurança os valores em espécie e solicitar licença expressa do Bispo para alienar ou adquirir bens imóveis. Cabe-lhe zelar pela conservação dos edifícios e manter actualizado o ficheiro de paroquianos. A mobilidade atual torna isto difícil: há pessoas que só se inscrevem quando precisam de documentos para sacramentos, dificultando ao pároco atestar idoneidade sem conhecer as famílias. A administração estende-se a toda a vida da comunidade, tornando-se mais complexa perante uma actividade intensa na Catequese, na Liturgia e na Ação Social. Muitas iniciativas sociais gerem autónomas, mas integradas na comunidade de fé e apoiadas por acordos com o Estado. A Comissão Fabriqueira deve prestar contas anualmente aos paroquianos e ao Bispo, e também ao Estado, quando aplicável. Gerir os bens da Igreja exige rigor canónico e responsabilidade partilhada. O padre não pode fazer tudo; os leigos devem assumir o seu lugar com responsabilidade, concretizando a co-responsabilidade pretendida pelo Concílio Vaticano II -¬- «Os pastores sabem perfeitamente quão grandes são os contributos dos leigos para o bem de toda a Igreja. [...] Os leigos devem, pois, reconhecer a sua própria identidade e esforçar-se por actuar com sentido de responsabilidade na vida da Igreja.» Artur Coutinho 2023

Pastoral das Periferias

Pastoral das Periferias Sou padre. Parece que já é demais falar de mim, mas gostaria apenas de partilhar uma breve reflexão pessoal com todos os amigos e leitores deste jornal. Peço-vos desculpa, mas aqui fica este testemunho de alguém que talvez não conheçam profundamente. Reflicto sobre o coração sacerdotal e a nova evangelização na Europa e no mundo, inseridos no meio do materialismo e do consumismo em que vivemos. Para mim, isso nunca foi um obstáculo, pois ter muitas coisas nunca foi o meu objectivo. O que possuo é apenas património de família. Sempre fui pároco e professor… não tenho nada de meu! Estudei, trabalhei e abdiquei de paixões antigas que muito me prendiam. A primeira delas foi a pintura, a óleo e a aguarela. Esta arte levou-me a frequentar as aulas do Mestre Luís Campos, em Braga, e fez-me voar até Barcelona para participar em exposições com apenas 18 anos. Contudo, entendi que era melhor trocar as telas pelo trabalho pastoral que estava a desenvolver. Foi à sombra da Virgem Nossa Senhora das Graças que comecei a trabalhar com a comunidade cigana da Ponte (zona perto da capela de S. João e do Estádio 28 de Maio, em Braga). Após algum tempo a dinamizar a catequese para crianças e jovens ciganos na Capela de S. João da Ponte, consegui reunir esta comunidade com as do Picoto, de Famalicão e da Póvoa de Varzim para, juntos, irmos em Peregrinação ao Sameiro. Foi uma grande conquista, presidida pelo Cónego Quintas Neves, então responsável diocesano da Pastoral dos Ciganos. Ao mesmo tempo, trabalhava com os doentes do Hospital de S. Marcos e com o grupo da Legião de Maria desse mesmo hospital, muitas vezes em prejuízo das minhas próprias horas de estudo em Teologia. Num verão, cheguei a expandir o movimento da Legião de Maria até Abrantes e a várias aldeias de Portalegre e Castelo Branco. Os reclusos da cadeia de Braga eram os meus predilectos. Não resistia a visitá-los e a pô-los a trabalhar. Dessa iniciativa nasceu um jornalista que viria a ser director de um jornal regional e colaborador em muitos outros — creio que ainda continua no activo, pois li recentemente um artigo com a sua assinatura. Bem-haja! Para os reclusos, organizei festas aos domingos à tarde e bailes, tendo inclusive levado, numa ocasião, as alunas do Colégio do Sagrado Coração de Maria para conviverem. Vivi anos felizes no seminário. Aprendi muito, tanto na teoria como na prática. Já nessa altura me dedicava à oração e ao trabalho, aceitando com paciência as críticas ou "catanadas" dos colegas e superiores. No 4.º ano de Humanidades (actual 8.º ano), organizei uma camioneta para que os seminaristas de Viana do Castelo regressassem todos juntos para férias; ao toque da sineta, a porta abria-se e todos saíam, uns mais depressa, outros mais devagar. Também realizava passeios de bicicleta e encenava pequenas peças em Mazarefes, às vezes contra a vontade do Cónego Luciano dos Santos, reitor de Santiago. Foi em Santiago que assumi o compromisso de Legionário de Maria, passando a Vicentino na Teologia e a Caminheiro no Escutismo. Trago em mim os genes dos meus pais, pessoas trabalhadoras. Desde a escola primária que não tive a vida que uma criança normal tem hoje. Trabalhava no campo, muitas vezes por iniciativa própria, e gostava de apresentar o trabalho feito. A oração sempre me acompanhou, desde a infância até aos dias de hoje. No meu caminho, fiz de tudo um pouco: trabalho doméstico, trolha, pintor, carpinteiro e decorador, além da jardinagem no quintal de casa. Mas deixei tudo. Abandonei a pintura e entreguei-me sem reservas à pastoral dos doentes, dos ciganos e dos presos. Estagiei em Balazar e na Casa dos Rapazes e vivi seis anos na Serra d’Arga, servindo quatro freguesias. Dali, vim parar à Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, nomeado por obediência pelo Senhor D. Júlio Tavares Rebimbas. A paróquia foi-me entregue em 2 de Setembro de 1978, pelo Padre José Pedreira, hoje nosso Bispo.