Os sinos da minha terra
Não é para
lembrar os “sinos da minha aldeia” de Almeida Garrett e como ele escreveria
hoje sobre os mesmos sinos da sua aldeia... Bem como outros autores de nomeada
da nossa literatura. Havia os sinos da Igreja de S. Nicolau de Mazarefes,
padroeiro da paróquia de Mazarefes, minha terra natal. Por isso, eram esses que
mandavam. Para além desses, havia e ainda há os sinos da Capela da Senhora das
Boas Novas.
Naquele
tempo, os sinos ouviam-se mais longe e tinham fins religiosos e civis. Assim,
se houvesse um toque de um só sino, com o badalo a bater desordenadamente, sem
jeito e rápido, era sinal de que havia algum perigo: um incêndio ou uma chamada
para arranjar algum caminho, limpar, etc. As pessoas, quando se tratava de
fogo, largavam tudo e, com baldes e outros instrumentos, corriam até ao local
para salvar uma casa ou uma fábrica. Todos passavam baldes de água de mão em
mão para atirar ao fogo. Às vezes, quando os bombeiros chegavam, já o fogo
estava apagado.
Quando se
tratava de arranjar caminhos, lá tocava o sino para lembrar o que tinha sido
anunciado. Punham a enxada às costas e lá iam todos os que podiam. Assim, de
forma solidária, resolviam-se os problemas da terra, onde toda a gente se
conhecia. Numa manhã ou numa tarde, o caminho ficava limpo e próprio para
passar.
A parte
religiosa era o toque dos sinos para lembrar a hora da missa, pois nem todos
tinham relógio. Antes de começar, davam três badaladas no sino. No entanto, foi
resolvido acabar com as três badaladas porque os ladrões já sabiam que a missa
tinha começado e andavam mais à vontade... Repicavam os sinos de festa para
anunciar batizados e casamentos, ou de funerais de anjinhos. Também tocavam
tristemente para anunciar uma morte, um falecimento, e tocavam várias vezes
durante o dia...
Ao meio-dia,
voltava a tocar para a oração do Angelus. Era o toque do meio-dia. As pessoas,
quase sempre, estavam a trabalhar e descobriam a cabeça, faziam silêncio e
rezavam. Os que não rezavam faziam silêncio em respeito aos outros.
V. O Anjo do
Senhor anunciou a Maria.
R. E Ela concebeu do Espírito Santo. Ave Maria…
V. Eis a escrava do Senhor.
R. Faça-se em mim segundo a Vossa Palavra. Ave Maria…
V. E o Verbo divino encarnou.
R. E habitou no meio de nós. Ave Maria…
V. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
Oremos.
Infundi, Senhor, como Vos pedimos, a Vossa graça nas nossas almas, para que
nós, que pela Anunciação do Anjo conhecemos a Encarnação de Cristo, Vosso
Filho, pela sua Paixão e Morte na Cruz, sejamos conduzidos à glória da
ressurreição. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que é Deus convosco
na unidade do Espírito Santo. Amém.
Quando não
sabiam esta oração do Angelus, rezavam-se fórmulas como o Pai-Nosso, a
Ave-Maria ou o Glória. À noite, voltava a tocar para anunciar que a noite tinha
chegado e rezava-se a oração à Santíssima Trindade:
Santíssima
Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-vos profundamente e ofereço-vos o
preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em
todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e
indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu
Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos
pobres pecadores. Amém.
Havia a
superstição de que, a partir dessa hora, as crianças só podiam estar dentro de
casa ou, se saíssem, só o faziam ao colo do pai. Era a ideia do ar da noite, do
escuro, onde apareciam os lobisomens, as procissões de defuntos e as almas
penadas.
Os sinos da
minha terra, como os das outras, ouviam-se longe, pois estavam bem alto, na
sineira da alta torre. Mas, agora, não são só eles que estão altos; há outras
coisas mais altas: barreiras, um meio ambiente poluído de poeiras, de tudo e de
muito barulho. No meu tempo de criança, às vezes, chamava-se alguém a quase um
quilómetro com um grito acabado em "Chilii…", do Monte para a Regadia
ou da Regadia para algumas zonas do Monte. Acontecia em Mazarefes.
Hoje é
impossível, porque o meio ambiente nos sufoca a todos e nos traz doenças
auditivas, respiratórias, visuais, etc. O ambiente contaminado de lixo
eliminará a nossa vida na Terra. Defenda o meio ambiente, obedeça às
orientações do uso do plástico e de tudo o que é resíduo, porque lixo sobre
lixo não é luxo. Embora eu saiba de alguém que é capaz de transformar lixo em
luxo — mas é só um caso que conheço —, ele é capaz de transformar o lixo em
luxo, mas apenas algum lixo.


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