A VIDA CONTINUOU… ( I )
Era o dia 9 de Julho de 1972. A família e alguns amigos estavam a contar e o pároco de Mazarefes, o pe. Sebastião Ferreira, hoje, Vigário Geral Emérito, tinha com a freguesia já preparada uma surpresa para a minha chegada. Depois da ordenação, na Apúlia, pela manhã e com regresso previsto para as 5 ou 6 horas da tarde.
Assim foi!... A juntar à alegria da minha ordenação sacerdotal pelo Arcebispo Primaz, D. francisco Maria da Silva que um ano antes me ameaçou que mesmo sendo diácono, não me ordenaria sacerdote.
Depois de um almoço na zona da Póvoa parece-me que à escolha do meu tio Abel Sá Portela, viemos para Mazarefes. No “Armazém do Sal “tive de abandonar o meu carro e ir para o carro da Dra. Maria Nadir Santos Lima que me conduziu em direção à Capela da Senhora das Boas Novas onde o Pe. Sebastião e, todos os que nos quiseram receber com as crianças da catequese, em festa, tendo a catequisanda Belém Liquito entregue um ramo de flores.
Lá fui, novamente para a Casa dos Rapazes onde estive até à minha nomeação como Pároco de Dem, Arga de S. João, Arga de baixo e Arga de Cima.
Dei lá entrada em 2 de outubro de 1972, depois da missa nova que foi celebrada em 13 de agosto no Adro das Boas Novas com a presença de mais de um milhar de pessoas: conterrâneos, colegas de escola, colegas seminaristas, sacerdotes, entidades religiosas, militares e civis, o coral da Meadela que foi o que animou a missa, jovens de Balazar e da Zona de Famalicão, Póvoa e Barcelos, que, de camionete e no fim da missa, regressaram, ou foram passear.
À mesa éramos mais de 340 pessoas, se a memória não me falha.
O cozinheiro foi o “criado” do Senhor Prior da Vila Franca e o Senhor Prior, Mestre da culinária tirava as provas à comida e também às sobremesas, tendo começado o trabalhar na sexta. Uma sobremesa foi preparada na Trofa e trazida de lá., sobretudo por jovens da Trofa.
Bom!
No dia 2 de outubro ficou tudo para trás e as minhas “ovelhas” eram outras, pobres, mas ricas de coração e almas generosas e abertas às mudanças, às obras nas igrejas e capelas como aconteceu, a começar em Arga de Baixo, Arga de S. João, Arga de Cima e depois a capela da Senhora das Neves, em Dem, melhorias na igreja de Dem e obras na capela de Stº Antão, da Senhora da Rocha e de S. João de Arga.
Nas três Argas houve inaugurações presididas pelo Senhor D. Francisco Maria da Silva e administração do Crisma.
Quando dei entrada não havia catequese em nenhuma das Paróquias, mas em Dezembro já tinha catequistas em todas elas. Foi difícil!... Mas consegui…
Procurei trabalhar com jovens, organizei programas para eles, convívios, ações formativas e informativas, como para adultos, cursos de espiritualidade, de jornalismo e alguns bem se lembram e outros já faleceram; concursos, etc. Procurei fazer encontros de jovens para os senilizar a participar na Mariápolis, em Fátima. Organizei passeios com os paroquianos.
Quis organizar a Legião de Maria mas não havia gente. Os Vicentinos não eram precisos porque os pobres contavam-se com menos de os dedos de uma mão.
Mas remediava-se…Recordo que no dia da Ceia de Natal fui dar com a pobre “Piedade”, de Dem, caída e morta na cozinha.
À Maria do Vale de Corsos, a Junta de Freguesia de Dem deu-lhe a mão retirando-a de viver isolada numa das antigas casas de apoio às minas do Vale de Corsos a norte da Aldeia. A Maria do Rio, de Arga de S. João, estava cuidada pela família do agente florestal Pinto.
Estava um caso em Arga de Cima e não se davam por mais. Aqui se aplicava o que dizia o Senhor D. Armindo Lopes Coelho: “A gente do Minho se tiver uma couve para cozinhar, já não quer mais…” isto é, contentava-se com pouco.
Esqueci a senhora que vivia numa das casas das do “Pereiro” a tia Guilhermina, cega e solitária, que a família do Pereiro deu a mão. Esta família e eu arranjamos a que viesse para a Casa da Congregação de Nª Sª da Caridade.
Levei ainda 3 homens a frequentar o Curso de Ministros Extraordinários da Comunhão no Centro Mater Eclesia, no Sameiro, Braga. Assim, nas Paróquias e no mês de maio quando não houvesse missa à semana ali ou acolá, lá estava o Grupo coral e os devotos de Maria a rezar o terço, a cantar, a fazer uma celebração da Palavra e a dar a Comunhão. E o povo até gostava e participava. Era isso que notava e sentia quando por aqui ou por acolá lá ia eu celebrar…
As festas lá se realizaram sempre, segundo os usos e costumes da altura, inclusivamente a de S. João de Arga. Para essa não era preciso publicidade.
O meu orientador pastoral era o pároco de Riba de Âncora, Padre Arlindo Domingues, tio da Glória, da Dolores que foram coralistas aqui na Paróquia e do médico José Francisco Domingues Oliveira meu Ex-condiscípulo e que morreu muito novo, deixando filhos que estão bem na vida.
Para um padre novo, como eu, na altura, não foi fácil, mas sempre fui fiel aos meus princípios e compromissos, e no meio de boa gente, ali vivi 6 anos no meio daquele povo, com todos como numa única família de Deus.
Um princípio que criei logo de começo com o meu avô e a minha “Maria” que me viu nascer foi o seguinte: de Direito Canónico era só comigo e em casa ninguém falaria de assuntos da Paróquia ou dos paroquianos, à mesa ou a outra hora. Eram assuntos meus e de mais ninguém.
Em 1978, em junho, vislumbrava-se a minha saída de lá. Depois da minha nomeação, num domingo de tarde, em São João de Arga, todos os arguenses até os velhinhos para lá saíram numa missa campal. As Argas despovoaram-se para sair para lá e ninguém conteve lágrimas e choro. Esta despedida foi a pedido dos paroquianos, Só um senhor me perguntou se ia para melhor…Eu disse que não sabia e ele continuou: vai e fica apenas a minha admiração e gratidão, Parabéns!
A seguir, num dia da semana, ao fim da tarde, foi em Dem, também a pedido dos de Dem..
Como havia um senhor que não ia à missa, mas até jogava a sueca comigo no café da terra, no Joaquim, na Chão do Porto, resolvi ir a casa dele despedir-me assim como ao Dr. Moreira. Descobri, nessa altura, coisas que tinham acontecido e não sabia de onde partiram, mas agora guardo-as comigo porque acabou por ser positiva a minha posição de me ir despedir a casa, já que não vinham à missa.
Oh! Se não foi bom?!...
Eu não queria, mas poucos não resistiram aos abraços e beijos de despedida. Fiquei convencido que todos me estimavam.
E lá vim eu… para Viana para uma Paróquia que foi difícil de aceitar.
Só, na altura, o Pe. Pedreira foi falar comigo mais que uma vez a convencer-me que eu era a pessoa indicada para aquela Paróquia que já tinha 11 anos, mas pouco tinha crescido no aspeto comunitário.
Apesar de muita argumentação chegou a altura que perdi a força porque me parecia que era da vontade de Deus que obedecesse ao Sr. D. Júlio.
Eu tinha muita consideração pelo senhor D. Júlio e num dos domingos de janeiro de 1978, pouco tempo depois da tomada de posse ele foi celebrar-me as missas do domingo. Começou às 8 em Dem e acabou às 12.30H em Arga de Cima. Depois de 4 missas celebradas…Ao almoço, diz-me: “Que estafa!...”
Foi assim que a 30 de Agosto de 1978 deixei aquelas terras depois da festa do S. João d’Arga para dar entrada no dia 2 se Setembro na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima.
Fui o último pároco que lá viveu com o povo. Tinha uma residência paroquial em Arga de Baixo que utilizava e a de Dem alugada, ou emprestada, pela freguesia e que era mais do dia a dia da vida de pároco naquelas terras que ainda hoje são motivo para algum refúgio e matar saudades.
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