AVISO

Meus caros Leitores,

Devido ao meu Blog ter atingido a capacidade máxima de imagens, fui obrigado a criar um novo Blog.

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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Centro Paroquial de Formação – CPF




Centro Paroquial de Formação – CPF
O Centro Paroquial de Formação elabora, todos os anos, um programa de formação e cultura religiosa para jovens e adultos, comprometidos ou não. Esta atividade insere-se nas orientações pastorais da Igreja, que exigem actualização permanente, como aliás em qualquer área da vida humana. Não se compreende que um médico ou um professor fiquem apenas com o que aprenderam na escola ou na universidade. Também a nível da fé e da religião — que, sendo sempre a mesma, tem modos de interpretação e de vivência diferentes —, precisamos de constante evolução. Não nos podemos alhear desta necessidade e ficar com a “sabedoria” dos bancos da catequese, a da nossa infância. Quem assim procede arrisca-se a ficar pouco convicto na fé que professa, a ser um cristão supersticioso ou a fazer da religião um mito. Vamos, pois, dar continuidade à nossa tarefa, que realizamos desde 1988. Este ano, a nossa reflexão centra-se na Evangelii Nuntiandi e na Carta Pastoral da Assembleia Episcopal Portuguesa sobre os Pecados Sociais. O programa divide-se em duas partes: 1.ª O Anúncio do Evangelho; 2.ª Os Pecados Sociais à luz da carta dos Bispos Portugueses. 1.ª Parte: O Anúncio do Evangelho 03 de Novembro — De Cristo Evangelizador a uma Igreja Evangelizadora 17 de Novembro — O que é evangelizar? 15 de Dezembro — O conteúdo da evangelização 12 de Janeiro — As vias e os destinatários da evangelização 26 de Janeiro — Os obreiros e o espírito de evangelização 2.ª Parte: Os Pecados Sociais e a Carta Pastoral dos Bispos 09 de Fevereiro — O egoísmo de uma sociedade de consumo como gerador de guerras 23 de Fevereiro — A fraude fiscal, o dever do Estado e a pobreza à vista 08 de Março — Regras de trânsito na civilização atual e a hora de chegar ao céu 22 de Março — A reconciliação como espaço de encontro nos desencontros da humanidade 12 de Abril — A competitividade desenfreada, sem olhar a meios, e a repressão do forte sobre o mais fraco 26 de Abril — A natureza como obra de Deus cujo ambiente o homem degrada 10 de Maio — Educação para os valores, desprezo pela superficialidade e exclusões 24 de Maio — A falta de corresponsabilidade na educação cívica dos cidadãos 07 de Junho — Avaliação 21 de Junho — Festa final (2003)

sábado, 3 de outubro de 2026

A Cidade do Coração…

A Cidade do Coração… Vinha a Viana de charrete, mas foi algo que, entre 1950 e em 1954, acabou. Depois, comecei a vir a pé. Com apenas seis anos, subia a montanha de Santa Luzia pela Cruzada, em peregrinação ao Sagrado Coração de Jesus. Custava-me mais descer do que escalar. Recordo-me — já não sei em que ano foi — de vir descalço com a Maria e as colegas da feira para não pagar dois escudos e cinquenta centavos. Isto devia-se à postura municipal da época, que proibia a entrada na cidade a quem estivesse descalço. No entanto, a meta era tão desejada que representava o sinal da chegada pretendida, após mais de seis quilómetros calcorreados. O caminho fazia-se pela estrada da “Mata de Mazarefes” (que ligava Darque a Ponte de Lima) até Darque. Continuava por Darque até ao “Caminho da Areia”, para encurtar a distância, saindo junto à Seca do Bacalhau. Depois, apanhávamos as carreiras do Cura, com os seus bancos de madeira. Em 1958, saí sozinho de casa sem dizer nada à “criada”, a Esperança, que tomava conta de mim, dos meus irmãos e da minha avó materna, que era viúva e sofria de demência senil. Tomei essa iniciativa porque o resto da família tinha ido a Viana visitar o meu pai, que fora operado no dia anterior. Sabia que ele estava no Pavilhão Cirúrgico — que até se avistava da nossa eira —, no quarto número quatro, segundo ouvia a família comentar. Entrei pela lateral do caminho de ferro, passei mesmo por baixo da ponte, pelo lugar do C.F., e cheguei à passagem de Santo António. Ali parei e bebi água no fontenário. Fui subindo a calçada de Valverde e as escadas, atravessando a estrada de Santa Luzia. Lá chegado, entrei no dito pavilhão e abri a porta do quarto, onde já se encontrava muita família em redor do meu pai. Surpreendi-os a todos, que queriam saber como ali tinha conseguido chegar sozinho. Tive a sorte de regressar de comboio, confortado por ver o meu pai vivo, embora debilitado no período pós-operatório. Deixei a minha terra em 1959. Tinha passado a infância a conciliar a minha hiperatividade com momentos de contemplação da cidade de Viana, a partir da casa dos meus pais. Já sentia saudades dos momentos que nela passava; naquela altura, contemplá-la dali era fácil, mas hoje tornou-se impossível a partir do mesmo local. Nos dois primeiros anos no Seminário, as saudades da família eram muitas, mas também tinha saudades da minha terra, dos jovens da minha idade, de toda a gente da minha freguesia, das gentes e de muitas famílias que conhecia desde tenra idade, bem como da minha capital de distrito e da sua paisagem. Guardava tudo no coração, cheio de vontade de voltar nas férias. Talvez por isso tenha tomado a iniciativa — e naquela altura não era fácil para um rapaz — de alugar uma camioneta para trazer os vianenses mais depressa para casa. Ao sinal de saída para férias, todos corriam com as suas malas para ocupar um lugar no referido autocarro da Empresa Magalhães, mesmo à porta do Seminário. Faziam-no sob o olhar de soslaio e severo dos superiores e perante algumas palavras de desdém dos colegas de outras regiões. Pelo caminho, fazíamos uma grande festa, própria da nossa idade, movidos por uma vontade forte e contagiosa de chegar a Viana o mais depressa possível, pois era a terra do nosso coração. Nas férias, tentava restabelecer-me, procurando encontrar os amigos e amigas da terra que me viu nascer. Organizava passeios até ao rio Lima, a nossa praia. Por exemplo, com um pacote de bolachas, convidava os jovens de Mazarefes a jogar contra os de Darque numa veiga junto à Pontelha, um local hoje bastante transformado em relação àquela época. Era ali que muitos aprendiam a nadar. Na praia fluvial de S. Simão passavam-se as mais diversas peripécias. Juntamente com os meus amigos mais próximos, fazia descobertas desde o rio Lima até Sabariz, passando pelo “Barco do Porto” e pelo “Cais Velho”. Eram o Mário da Meira, o José Maria Cunha, o José Augusto Barbosa, o seu irmão Manuel e todos aqueles e aquelas que a nós se juntassem; recordo também o José Amado Santos Lima e o Armando Lima, entre muitos outros. O Armando Lima chegou a construir um barco para andar no rio. Organizei encontros de férias em magustos, no mês de dezembro, com seminaristas de Viana e, num determinado ano, almoçámos todos na Casa do Povo, no verão. Fizemos passeios de bicicleta e muitas outras atividades que, de momento, a memória já não me alcança. À medida que os anos iam passando, adaptei-me melhor ao Seminário. Contudo, na hora de partir para Braga, precisava de respirar fundo, porque Viana continuava a ser o meu grande sonho. Alimentei a chama da Colónia Vianense, que existia desde 1940 a favor da criação da Diocese. Isso quase me custou caro: como já era diácono e tinha terminado a Teologia, o Arcebispo de Braga ameaçou-me que não me ordenaria se eu levasse por diante o programa da celebração dos quarenta anos da Colónia de Viana. A festa acabou por se realizar em 1971, o ano em que concluí o curso, contou com a participação de sacerdotes — dos mais novos aos mais velhos —, antigos ex-seminaristas e seminaristas da época. Nesse dia, enviámos um telegrama ao Papa Paulo VI com uma saudação de todos, afirmando que estávamos ao seu lado. Quem me valeu foi o Monsenhor Daniel Machado, Vigário Episcopal do Arcebispo em Viana, que assumiu toda a responsabilidade. O que mais me agradou em Braga, durante os estudos de Filosofia e Teologia, foi o trabalho que desenvolvi com os reclusos, os doentes e os ciganos; foram eles que terminaram de incendiar a minha vocação ao sacerdócio. Assim, fui ordenado um ano depois, a 9 de Julho e, a 2 de Outubro de 1972, assumi as paróquias de quatro freguesias: Dem e as três Argas. O meu coração, afinal, estava em Viana, mesmo sem ter sido colocado na cidade — algo que nunca quis e nunca acei¬tei de bom grado. Fui convencido pelo Padre Pedreira a dizer "sim" a D. Júlio, após seis anos de uma experiência única no meio de gente mais simples e mais generosa. Pensei que vinha para ficar cerca de cinco anos, mas ainda hoje aqui estou, na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, feliz, embora doente. A minha inteligência limitada A minha inteligência não é capaz de atingir aquilo a que gostaria de chegar, mas como ninguém me pode prender o pensamento ou tirar-me a liberdade de escrever o que penso, vou fazê-lo com a certeza de que vou “errar”, pois não sou formado em línguas, embora tenha estudado sete, entre elas o latim, o grego e o hebraico. Mas prefiro dizer “tá-tá” como uma criança a rugir como um primata. Quando, em Coimbra, fiz um exame de linguística portuguesa, tirei uma nota exemplar, mas creio que foi mais pela informação que forneci à Professora sobre a evolução do galaico-português e dos paralelismos existentes actualmente na Serra d’Arga. É por isso que não posso deixar de escrever porque, se errar, alguém me deve corrigir — e é saudável aprender até morrer. Há oito milhões de anos, os primatas não falavam; apenas usavam a linguagem gestual e produziam ruídos, barulhos trabalhados, usando o esófago e a garganta até chegarem aos sons guturais (ummm, gutural nasal…). Aí começaram e evoluíram, passando aos palatais, aos dentais e aos labiais. A evolução foi lenta e só o Homo Sapiens conseguiu ir mais longe… Quase todas as línguas têm uma tonalidade diferente, segundo as influências dos colonos. Os indígenas tinham a sua própria linguagem e a adaptação aos colonos foi uma evolução muito lenta, com mais ou menos rapidez, com mais ou menos boa vontade, com mais ou menos resistência… Se os primatas, a pouco e pouco, foram descobrindo o “x”, o “h” e o “a” (vogal), a primeira letra que o homem pronuncia com sofrimento (com dor) é o “a”, e com alegria e liberdade quando se sente “fora da cuba”. Depois de chegar às palatais com o “g”, “q” e “y” (semivogal), descobre o uso da língua para pronunciar “j”, “t”, “d”, “g” e “l”, até chegar às dentais sibilantes “c”, “t”, “v”, “s” e “z”, e às labiais como o “p”, “b” e “m”. Mas as guturais, com esta mistura toda — usando os dentes, os lábios, a garganta, o palato e não esquecendo a língua —, descobriram algumas intermédias: dental-labial, dental-palatal ou a posição de ambas ou mais... Há uma letra palatal-lingual que é o “r”, existente no alfabeto latino e grego, mas poucos o usam como o português, sobretudo o “r” dobrado (“rr”) ou no princípio das palavras. Há alfabetos que nem sequer o conhecem, mas o hebraico tinha o resh (ר), assim como o grego tinha o rhó (ρ). Hoje em dia, quem tenha sofrido a extracção de alguns elementos da garganta consegue falar de boca fechada através da traqueia, dizendo algo que se faz entender. É uma questão de afinação, ressonância, controlo, volume, treino e exercício… Falam com regularidade, guturalmente. De qualquer modo, a primeira linguagem de relacionamento entre os humanos deve ter sido a gestual, até chegar à exofágico-gutural e, finalmente, à labial. A primeira necessidade de fonia terá sido o “sim” e o “não”. Daí veio a divisão da luz e da escuridão, do dia e da noite, da terra e da água, dos rios e dos mares, das plantas e das não plantas, do animal e do Homem, do homem e da mulher. Uma coisa é, outra não é. Uma é sim, outra é não. Lá está o sim e o não: o que é água não é terra, o que é terra não é água; o que é animal com instinto não é animal inteligente; o que é homem não é mulher, mas ambos são imagem e semelhança de Deus, iguais em direitos e dignidade, a última criação com capacidade para gerir este jardim maravilhoso que é o mundo — com o planeta Terra e o que não é terra, com o sol e com a lua (que não é sol), o trabalho que não é descanso. O autor bíblico lá teve a sua inspiração para falar da criação e da linguagem. Esta luta constante evolutiva chegou a um impasse... Quando os homens quiseram chegar ao céu construindo a Torre de Babel. Como não conseguiram, todos fugiram, formando os clãs e as tribos, e cada um começou a falar a sua língua e a construir, egoisticamente, o seu projecto. Agora andamos atrás das origens de uma língua comum e dizemos: nós fomos límicos, iberos, celtiberos, lusitanos... e antes? Fomos colonizados e invadidos tantas vezes, mas ganhámos força, garra e coragem. Chegou também a altura de os portugueses irem à descoberta do mundo para levar a fé, a cultura e a nossa língua, uma das mais faladas no mundo. Parece-me que é a terceira, mas até quando? Vem a influência inglesa, outra colonização linguística, e, por fim, há de vir a chinesa. Por isso, parece valer pouco pensarmos em querer descobrir mais, porque nada temos para dar e temos tudo a receber. A articulação dos fonemas, da fala, foi, antes de tudo, uma expressão de sons musicais. Para isso, humanos e não humanos, não precisamos de ir às “cantigas de amigo”; podemos ainda observar, em algumas romarias ou festas, os cantares populares, as cantigas ao desafio, etc., no meio dos humanos, porque os outros animais o fazem por instinto e não evoluíram como nós fomos capazes. Os animais de grande porte, normalmente, usam sons guturais (por exemplo, o mugir da vaca) e quase a totalidade dos mamíferos usa sons guturais nasalizados (nasais), assim como a maioria dos pássaros emite sons sibilantes, como o melro; mas uns e outros são como os homens. O homem foi mais longe pela sua inteligência e até levamos os animais a entender instintivamente muita da nossa linguagem para podermos ser senhores, donos e ordenadores da obra da criação de Deus, que nunca devia ser para destruir, mas sim para construir. Deus criou a natureza e toda ela era boa, mas, às vezes, o ser humano — a quem Deus deu inteligência para continuar a obra da criação — parece querer destruir, mesmo quando reproduz electronicamente o cantar dos grilos, uma vez que estes estão a desaparecer devido aos “venenos” lançados nas terras. Aqueles que, devido a um AVC, ficam sem voz, dizem sempre algo, ainda que seja de boca fechada: o “nh” (ñ) gutural prolongado, alongado, tanto para dizer sim como para dizer não. Depende da ocasião e do gesto que o acompanha com a cabeça ou com a mão, por exemplo... Há pessoas que conseguem recuperar formas e sílabas, e chegam a pronunciar palavras... a falar normalmente. Outra experiência é notar os bebés a falar para si mesmos sem que ninguém os entenda: as primeiras letras, as primeiras sílabas, as primeiras palavras e as dificuldades em pronunciar o “r”, tanto no princípio das palavras como no meio, quando dobrado, em que se tem de pronunciar levantando o corpo ou a base da língua, enrolando-a ou fazendo um som retroflexo com a ponta da língua (“rr”) no palato. Não acontece tanto no “r” final. Tantos lutam pela pureza da língua. Como acontece no Vale do Lima com o Dr. José Luís Branco em “A bem da língua portuguesa”; mas dá a impressão de que é melhor esquecer e deixar andar, porque estamos no tempo de andar com o boné na mão, estendido à caridade... Voltados para os estrangeirismos, porque não parece ser do interesse político defender a pureza da língua. Afinal, os senhores doutores já não estudaram latim nem grego e, para esses, vale tudo... Não existe uma Academia Nacional de Língua Normativa para defender a pureza da linguagem e evitar a invasão da língua inglesa, ou de outras, dizia-me um amigo meu. Um dia, conversando com outro amigo, estávamos de acordo que viemos de um tronco comum. A rama e as folhas é que se dividiram e, na linguagem, andamos à procura do tronco, por aqui e por acolá. Descobrimos pontos de encontro que nos deixam “pasmados” ou, melhor diria, certos de uma harmonia preexistente muito mais rica. Acreditamos numa civilização superior em que o homem já tenha feito a terra. A Bíblia, ao falar da criação do mundo por um autor inspirado, escreveu-a ao seu jeito, conforme entendia que Deus tinha criado as coisas. O autor tinha uma ideia muito reduzida do mundo, tão curta como o horizonte entre duas montanhas, as colunas do céu. A linguagem surgiu da necessidade de relações e da evolução dos sons musicais: do ribombar do trovão, dos sons guturais, do toque do tambor, da urgência de expressar emoções, sentimentos, sensibilidades, afectos, etc... Enquanto foi evoluindo até ao assobio ou às letras sibilantes (dentais, palatais e labiais). Quando alguém geme (o “ñ”/“nh” alongado), é uma linguagem sempre igual para quem já não fala, usada para mostrar que sofre, que tem dor ou para dizer “sim” ou “não”, acompanhada de um gesto, perante qualquer coisa. 2003

Inteligência Artificial

Inteligência Artificial A leitura de um artigo recente da autoria do Prof. Alfredo Dinis S. J. incitou-nos à escrita destas breves linhas sobre a denominada Inteligência Artificial (IA), assunto sobre o qual temos vindo a meditar há muito tempo. Temos absoluta consciência de que não possuímos preparação suficiente para abordá-lo com o mínimo de profundidade. Consequentemente, apenas referiremos os pontos que têm merecido a nossa atenção e suscitado as nossas interrogações, tanto pela sua complexidade como pela sua extensa e intensa realidade atual. Fazemo-lo na esperança de incitar outros, mais bem preparados, a abordar este interessante assunto. Antes de entrar propriamente na IA, lembraremos o que se entende por inteligência. Esta palavra, derivada do latim intelligere (compreender), significa a capacidade de o ser humano entender, ou seja, a adaptação e o domínio de novas situações, sejam elas de natureza prática ou teórica. Não vamos colocar aqui o problema do instinto e do pensamento dos animais, mas apenas lembrar que, para Aristóteles e Kant, a posse da razão separa os humanos dos animais. E o que se entende por IA? É o ramo da informática relacionada com o desenvolvimento de maneiras de imitar aspetos da inteligência humana, de tal forma que o computador realize operações equivalentes às realizadas pelo homem em situações similares. Se, para Descartes, um ser humano é uma substância pensante (Cogito, ergo sum), teremos de concluir que um computador não pensa. Ele apenas imita mecanicamente o cérebro humano, segundo dados que o homem, inteligentemente, lhe forneceu. Sem dúvida que a IA é uma técnica extraordinária ao serviço do homem, mas é isto e apenas isto. Será de lembrar que Santo Inácio de Loyola, baseado em Santo Agostinho, colocou a memória, a vontade e a inteligência num plano muito elevado, considerando a inteligência tal como nós hoje a consideramos: a capacidade humana de pensar e compreender. Gaspar Simões Viana (publicado no P. Nova) 2003

Os Movimentos numa Paróquia

Os Movimentos numa Paróquia Os movimentos duma paróquia podem ser de origem paroquial e devem ter a aprovação do Bispo, ou podem ser organismos ou movimentos que têm a aprovação da Igreja Universal e são reconhecidos pelo Bispo da Diocese. Estes têm, normalmente, uma hierarquia própria através de sedes diocesanas, nacionais e internacionais, sendo representados por secretariados, direcções, delegações ou centros próprios, conforme a estrutura estatutária ou as orientações de cada Bispo na sua diocese. Há variadíssimos movimentos ou organismos, serviços e obras, conforme a diversidade de carismas existentes na Igreja. Não vou enumerá-los todos porque seria uma lista interminável, mas não resisto a falar daqueles que melhor conhecemos, por trabalharmos directamente com eles na paróquia. Na Comunidade de Nossa Senhora de Fátima existem o Movimento dos Cursos de Cristandade, a Legião de Maria, a Sociedade de São Vicente de Paulo, o Apostolado da Oração, o MEV (Movimento Esperança e Vida), os Cruzados de Fátima, o Coral Litúrgico, o Coral Juvenil, o Coral de Música Clássica, o grupo dos leitores, o dos ostiários, o da Pastoral da Família, o da catequese, o do escutismo, o dos acólitos, o dos ministros extraordinários da Comunhão, o do acolhimento, o dos zeladores, etc. Existe ainda o Serviço de Comunicação Social (Luz Dominical e “Paróquia Nova”) e o Centro Social Paroquial com as seguintes valências: o Centro de Acolhimento de Bebés e Crianças Abandonadas ou de Alto Risco (vulgo Berço), o Jardim de Infância, o Centro de Deficientes (Samaritanos), o Centro de Cegos e Amblíopes, o Centro de Dia, o Centro de Convívio, o Serviço de Assistência Domiciliária Integrada, o Serviço de Apoio ao Domicílio, o Refeitório Social (para passantes, toxicodependentes em recuperação, indigentes e sem-abrigo), a Escola de Música, o Centro de Juventude Ozanam (ocupação de tempos livres de crianças e jovens) e o CECAN-RD (Centro Comunitário de Apoio aos Necessitados - Recolha e Distribuição). Integram também a estrutura a Comissão Fabriqueira e o Conselho Pastoral Paroquial. Na área da paróquia, ainda existe um seminário da Ordem dos Carmelitas Descalços, com alunos e uma obra social de reintegração de pessoas com várias carências — desde a indigência aos ex-toxicodependentes. Dirige ainda um Gabinete de Apoio à Família com vários projectos: Casinha (para crianças das famílias acolhidas), Viana sem Fronteiras (ao serviço dos imigrantes, sobretudo do Leste), Rotas de Intervenção, Estrada com Horizontes (para pessoas em situação de sem-abrigo), Ecos (prevenção primária da toxicodependência), além da Casa Abrigo e da Casa de Acolhimento para mulheres vítimas de violência doméstica e os respectivos filhos. A diocese é composta por tudo isto... e muito mais. Se estamos em Sínodo, todos nós estamos envolvidos nesta tarefa da Igreja, que é um tempo de reflexão e de mudança. Quando digo «nós», refiro-me aos que estão ou não comprometidos em movimentos ou grupos (diocesanos ou paroquiais) e aos simples cristãos empenhados em tarefas temporais, seja na política, nos sindicatos, nas comissões de trabalhadores ou sem nenhum compromisso oficial. Todos os baptizados devem sentir este movimento sinodal de conversão e mudança numa Igreja co-responsável. O Bispo sozinho não tem razão de ser, assim como sem o Bispo não há baptizados, expressão laical ou co-responsabilidade. A Igreja faz-se desta comunhão com Deus e com os irmãos: aqueles que se cruzam connosco no trabalho, na rua ou no café; os que dormem debaixo do mesmo teto ou se sentam à mesma mesa em família. Sendo assim, não se compreende que um movimento — paroquial ou não, desde que actue na diocese — viva de costas voltadas para o Sínodo, ou que este não seja motivo de debate e estudo nas reuniões. E quem diz um grupo, diz um cristão isolado ou dedicado a obras temporais, que devem ser sempre iluminadas pelo espírito do Evangelho. Ainda há pouco celebrámos a Páscoa, precedida pela Sexta-feira Santa, em que a Cruz foi a bandeira da glória para o crente e do fracasso para o malfeitor. Somos crentes e celebrámos a Páscoa. Não podemos esquecer que, para permanecermos nela, temos de amar sem explorar o outro, sem faltar ao respeito e sem cobiçar o lugar alheio. Pelo contrário, devemos partilhar e dar amor para que o Ressuscitado continue vivo no coração dos humanos e da diocese, fazendo brilhar o testemunho d’Aquele que descobrimos vivo e dinâmico. Quem sabe se, no irmão que está ao nosso lado, Ele não exclamará desanimadamente: «Não valeu a pena», «Continua tudo igual» ou «Se ao menos Deus me levasse...» — expressões que tantas vezes ouvimos aos que sofrem. Que Ele possa brilhar em todos!

PARÓQUIA EM FESTA: «NUNCA ESTIVE SÓ...»

Não posso esconder a minha alegria e satisfação pela festa que a Comunidade Paroquial levou a efeito para celebrar estes 25 anos de serviço e de aliança com este povo que o Bispo me entregou a 2 de Setembro de 1978. Queria, através do jornal, agradecer a todos os amigos que colaboraram: a começar pela Comissão Organizadora, liderada pelo Dr. Albino Ramalho, e a todos os que participaram de uma forma ou de outra na festa, com gestos, lembranças e donativos. Saúdo a presença de autoridades religiosas, civis e militares, bem como as mensagens enviadas por correio, e-mail, telemóvel, telefonemas ou telegramas, assim como os órgãos de imprensa que ecoaram esta efeméride. Sinto-me satisfeito e reconhecido, embora tudo o que foi feito tenha ido para além daquilo que eu merecia. Nunca estive só. A paróquia, no fim de contas, é que está de parabéns, porque tem feito o que pode na formação integral para a vida, na celebração da mesma e na partilha de bens, através da caridade e da solidariedade cristã e humana. Por outro lado, sinto um certo vazio! A minha vida talvez não tenha sido o verdadeiro e autêntico testemunho de sacerdote, porque, sendo esta paróquia uma comunidade a mim confiada que até possui um seminário no seu território, não compreendo como não tem havido vocações para o sacerdócio. Nestes 25 anos, lembro-me apenas de duas vocações — uma no Seminário Diocesano e outra no Seminário Carmelitano — que não vingaram. Recordo que esta comunidade, antes de o ser, deu um sacerdote, já falecido e que todos conhecemos muito bem, o Padre Manuel Miranda. Que esta festa tenha sido expressão de alegria para todos, mas não podemos deixar de reflectir neste pormenor, porque isso me dói. Neste momento, já era tempo de sentir que alguém, muito próximo de mim, seguiria os meus passos... Sou padre há mais de 31 anos. Não me sinto tão humilde que aceite com facilidade que os frutos da semente lançada possam vir a ser colhidos muito mais tarde. Deus me perdoe! Tantas vezes peço às pessoas para darem testemunho da sua vocação nas missas das crianças e vejo os pais tão distantes de ajudar a encaminhar para o trabalho de uma seara tão grande, que é a do Reino de Deus. 2003

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A origem da maioria das nossas paróquias

A origem da maioria das nossas paróquias A origem da maioria das nossas paróquias não é conhecida com exactidão, mas sabemos que muitas nasceram dos castros existentes. Houve castros que deram origem a várias igrejas rurais e privadas que, até ao século VII, nem funcionavam como paróquias, pois era necessário ir à igreja presidida pelo Bispo ou àquela que já possuía pia baptismal. Portanto, algumas não tinham culto com carácter paroquial. No início, estas paróquias também não estavam definidas por limites territoriais como hoje; isso surgiu mais tarde. Canonicamente, cada paróquia tinha a sua própria organização e cada comunidade criava a instituição à sua maneira. Com a fundação de Portugal, a diocese de Tui, por exemplo, perdeu as paróquias situadas entre o rio Minho e o rio Lima. Nessa altura, a divisão territorial de paróquias e dioceses não foi pacífica, exigindo a intervenção dos bispos e do Papa — por vezes sem resultados tão claros quanto o desejado, como aconteceu em Viana, do lado norte. A invasão árabe, ao encurralar os cristãos nas Astúrias, também deixou marcas profundas, sobretudo na reconquista, alterando as formas de vivência eclesial, fosse em igrejas particulares ou paroquiais. (Quanto à definição de paróquia, hoje, está a ter outra quanto aos seus limites e centrar-se mais na ideia de comunidade.) É desse período que data a valorização do padroeiro ou fundador, surgindo invocações como a Senhora da Vinha (na Areosa), a Senhora das Areias (em Darque) ou São Simão da Junqueira (em Mazarefes). As igrejas particulares foram-se convertendo em públicas e os bispos começaram a impedir a construção de templos sem verdadeiro fundamento pastoral. A distância, o aglomerado populacional e os rendimentos para a manutenção do templo eram condições fundamentais. Quando a dotação não chegava, recorria-se aos ex-votos, geridos por vezes como propriedade familiar de geração em geração. Estes abusos na administração de bens espirituais acabaram por ser corrigidos. Na Idade Média, a hierarquia determinou que os bens da Igreja deixassem de ser administrados exclusivamente por leigos ou mordomos. O direito de patronato substituiu a propriedade privada e, já no século XI, muitas igrejas rurais foram oferecidas pelos seus possuidores aos cabidos das catedrais e aos mosteiros. Os templos passaram a ser considerados propriedade da Igreja: o Bispo nomeava o clérigo e o patrono conservava o direito honorífico de apresentação, mantendo a obrigação de defender os seus bens. Até ao século XIV, os visitadores recolhiam rendas que, por vezes, faziam falta ao sustento do presbítero ou à manutenção do templo. Esta fiscalização do Bispo perpetuou-se no tempo: tal como acontecia no século XIX, ainda hoje, antes da visita pastoral do Bispo a uma paróquia, o arcipreste realiza uma visita canónica para preparar um relatório. Na Alta Idade Média, havia também nobres que fundavam capelas privadas para cumprir o preceito dominical da família e dos criados, num modelo ligeiramente à margem do espírito paroquial, mas comunitário. A nossa paróquia nasceu formalmente de um decreto de D. Francisco, Arcebispo de Braga, em 1967, uma vez que o território ainda pertencia a essa arquidiocese; a sua história como comunidade paroquial é, por isso, recente. «A paróquia é uma determinada comunidade de fiéis constituídas estavelmente na Igreja Particular, cujo cuidado pastoral é confiado ao Pároco, como seu pastor próprio, sob a autoridade do Bispo diocesano.» — Código de Direito Canónico (Cân. 515, § 1) Hoje, a paróquia mantém a sua administração através do Conselho Económico Paroquial (CEP) ou Fábrica da Igreja Paroquial. Na administração paroquial, destaca-se em primeiro lugar o património: a igreja, as capelas, o recheio artístico, as alfaias litúrgicas e o mobiliário. O CEP é também responsável pelo arquivo (orientações pastorais, registos de reuniões, correspondência e os assentos de baptismo, casamento e óbito, actualmente informatizados). Compete-lhe ainda gerir a contabilidade mensal (donativos, ofertórios, esmolas), guardar com segurança os valores em espécie e solicitar licença expressa do Bispo para alienar ou adquirir bens imóveis. Cabe-lhe zelar pela conservação dos edifícios e manter actualizado o ficheiro de paroquianos. A mobilidade atual torna isto difícil: há pessoas que só se inscrevem quando precisam de documentos para sacramentos, dificultando ao pároco atestar idoneidade sem conhecer as famílias. A administração estende-se a toda a vida da comunidade, tornando-se mais complexa perante uma actividade intensa na Catequese, na Liturgia e na Ação Social. Muitas iniciativas sociais gerem autónomas, mas integradas na comunidade de fé e apoiadas por acordos com o Estado. A Comissão Fabriqueira deve prestar contas anualmente aos paroquianos e ao Bispo, e também ao Estado, quando aplicável. Gerir os bens da Igreja exige rigor canónico e responsabilidade partilhada. O padre não pode fazer tudo; os leigos devem assumir o seu lugar com responsabilidade, concretizando a co-responsabilidade pretendida pelo Concílio Vaticano II -¬- «Os pastores sabem perfeitamente quão grandes são os contributos dos leigos para o bem de toda a Igreja. [...] Os leigos devem, pois, reconhecer a sua própria identidade e esforçar-se por actuar com sentido de responsabilidade na vida da Igreja.» Artur Coutinho 2023

Pastoral das Periferias

Pastoral das Periferias Sou padre. Parece que já é demais falar de mim, mas gostaria apenas de partilhar uma breve reflexão pessoal com todos os amigos e leitores deste jornal. Peço-vos desculpa, mas aqui fica este testemunho de alguém que talvez não conheçam profundamente. Reflicto sobre o coração sacerdotal e a nova evangelização na Europa e no mundo, inseridos no meio do materialismo e do consumismo em que vivemos. Para mim, isso nunca foi um obstáculo, pois ter muitas coisas nunca foi o meu objectivo. O que possuo é apenas património de família. Sempre fui pároco e professor… não tenho nada de meu! Estudei, trabalhei e abdiquei de paixões antigas que muito me prendiam. A primeira delas foi a pintura, a óleo e a aguarela. Esta arte levou-me a frequentar as aulas do Mestre Luís Campos, em Braga, e fez-me voar até Barcelona para participar em exposições com apenas 18 anos. Contudo, entendi que era melhor trocar as telas pelo trabalho pastoral que estava a desenvolver. Foi à sombra da Virgem Nossa Senhora das Graças que comecei a trabalhar com a comunidade cigana da Ponte (zona perto da capela de S. João e do Estádio 28 de Maio, em Braga). Após algum tempo a dinamizar a catequese para crianças e jovens ciganos na Capela de S. João da Ponte, consegui reunir esta comunidade com as do Picoto, de Famalicão e da Póvoa de Varzim para, juntos, irmos em Peregrinação ao Sameiro. Foi uma grande conquista, presidida pelo Cónego Quintas Neves, então responsável diocesano da Pastoral dos Ciganos. Ao mesmo tempo, trabalhava com os doentes do Hospital de S. Marcos e com o grupo da Legião de Maria desse mesmo hospital, muitas vezes em prejuízo das minhas próprias horas de estudo em Teologia. Num verão, cheguei a expandir o movimento da Legião de Maria até Abrantes e a várias aldeias de Portalegre e Castelo Branco. Os reclusos da cadeia de Braga eram os meus predilectos. Não resistia a visitá-los e a pô-los a trabalhar. Dessa iniciativa nasceu um jornalista que viria a ser director de um jornal regional e colaborador em muitos outros — creio que ainda continua no activo, pois li recentemente um artigo com a sua assinatura. Bem-haja! Para os reclusos, organizei festas aos domingos à tarde e bailes, tendo inclusive levado, numa ocasião, as alunas do Colégio do Sagrado Coração de Maria para conviverem. Vivi anos felizes no seminário. Aprendi muito, tanto na teoria como na prática. Já nessa altura me dedicava à oração e ao trabalho, aceitando com paciência as críticas ou "catanadas" dos colegas e superiores. No 4.º ano de Humanidades (actual 8.º ano), organizei uma camioneta para que os seminaristas de Viana do Castelo regressassem todos juntos para férias; ao toque da sineta, a porta abria-se e todos saíam, uns mais depressa, outros mais devagar. Também realizava passeios de bicicleta e encenava pequenas peças em Mazarefes, às vezes contra a vontade do Cónego Luciano dos Santos, reitor de Santiago. Foi em Santiago que assumi o compromisso de Legionário de Maria, passando a Vicentino na Teologia e a Caminheiro no Escutismo. Trago em mim os genes dos meus pais, pessoas trabalhadoras. Desde a escola primária que não tive a vida que uma criança normal tem hoje. Trabalhava no campo, muitas vezes por iniciativa própria, e gostava de apresentar o trabalho feito. A oração sempre me acompanhou, desde a infância até aos dias de hoje. No meu caminho, fiz de tudo um pouco: trabalho doméstico, trolha, pintor, carpinteiro e decorador, além da jardinagem no quintal de casa. Mas deixei tudo. Abandonei a pintura e entreguei-me sem reservas à pastoral dos doentes, dos ciganos e dos presos. Estagiei em Balazar e na Casa dos Rapazes e vivi seis anos na Serra d’Arga, servindo quatro freguesias. Dali, vim parar à Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, nomeado por obediência pelo Senhor D. Júlio Tavares Rebimbas. A paróquia foi-me entregue em 2 de Setembro de 1978, pelo Padre José Pedreira, hoje nosso Bispo.

A Caridade ´versus Filantropia

A Caridade cristã não é simples filantropia, "porque o cristão é sacerdote, profeta e rei. Como tal, ele vê os outros com os próprios olhos de Jesus". Por outro lado, procura ver o próprio Jesus no rosto dos pobres e dos sofredores. "Filantropia" é uma palavra composta de origem grega que significa "amigo do homem" ou "da humanidade". Já a Caridade diz respeito ao Amor — não a um amor qualquer, mas ao Amor que vem de Deus, porque Ele é o próprio Amor. Tudo o que é feito de bem ao próximo é motivado pela fé num Ser transcendente e Absoluto, ao qual aderimos pessoalmente. Por isso, os não crentes chamam à caridade filantropia; porém, a caridade permanece e a filantropia passa. Vemos isso em tantas obras que nasceram ao longo dos séculos por motivos puramente filantrópicos e que hoje já não existem. A Caridade jamais se deterá; é um caminho que se vai fazendo. Como reza o ditado, "a caridade começa em casa". Se no lar não existir um amor oblativo, muito menos existirá fora dela. Jesus pediu que nos amássemos uns aos outros como Ele nos amou. É este o mandato divino que não se pode esgotar na mera filantropia. A entrega de Jesus foi um acto de Amor puro. O exemplo de Cristo não foi um gesto filantrópico comum; foi muito mais longe. Até dar a vida pelo outro para o libertar eficazmente. Há quem faça muito bem aos outros sem ser crente. Isso é louvável, mas trata-se apenas de um acto humanitário. Nós, como cristãos, temos de deixar a nossa marca própria. Quem faz o bem hoje e sempre, sem se cansar, caminhando em direcção ao Bem e seguindo uma Luz — uma Estrela que ilumina —, realiza tudo em nome de Deus Pai. Isso brota de um coração cheio de misericórdia e de bondade, que ama a todos depois de amar a Deus sobre todas as coisas. A Caridade é uma virtude teologal, e Jesus Cristo fez dela o vínculo e o fundamento daqueles que amam a Deus. São Paulo afirmou que a maior de todas as virtudes é o Amor (a Caridade). E o Papa Francisco recorda: "A caridade é sempre a via mestra do caminho da fé, da perfeição da fé. No entanto, é necessário que as obras de solidariedade que realizamos não nos distraiam do contacto com o Senhor", na oração pessoal e comunitária. Um Amor assim, só um crente o pode verdadeiramente compreender… (…) Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirou duas moedas, deu-as ao estalajadeiro e disse: ‘Trata bem dele; e o que gastares a mais eu to pagarei quando voltar’. (Lucas, 10)

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

RETALHOS DA VIDA DE UM PADRE

Prefácio Retalhos da vida de um Padre O autor não segue o novo acordo otográfico Desde que tenho Memória O meu nome é Artur, em homenagem ao nome do meu padrinho de Baptismo, tio por afinidade, pois era marido da irmã de minha mãe. Nasci em Mazarefes, concelho de Viana do Castelo, no dia 7 de Janeiro de 1947, uma terça-feira, pelas 17,30H, em dia de S. Raimundo de Penhafort, cujo corpo se encontra sepultado na Catedral de Barcelona. Sempre fui uma criança muito hiperactiva, segundo reza a história da família. Lembra-me de algumas birras passadas sobretudo com a Dolores ou com a Maria que eram as criadas da casa do meu avô. A Maria já lá estava quando eu nasci. Em 1994 fez cinquenta anos de casa, pelo que a família lhe promoveu uma festa para a qual ela convidou quem quis. Era para nós uma pessoa de família. Faleceu na minha casa, em Viana, em Maio de 1996. Poucos meses depois, em Outubro, faleceu também o meu pai. A Dolores, depois de dezoito anos em casa de meu avô, foi para a casa da minha tia Maria de Jesus, em Barroselas, única irmã de meu pai. Algumas dessas birras estavam relacionadas com a “Peregrinação a Santa Luzia”, com a passagem pela casa do tenente Teixeira, onde a minha avó passava geralmente um mês, em Agosto, para frequentar os banhos quentes da Praia Norte.Antes do baptizado da minha irmã disse que queria ser padre para a baptizar e no baptizado da minha irmã já não queria porque já havia um padre - o Padre José Ribeiro, o abade de Mazarefes, coisas da infância.Gostava muito da minha tia e madrinha, a tia Maria, esposa do Artur Matos. Também do meu tio Abel, marido da tia Maria, irmã única de meu pai, e padrinho do meu irmão. Gostava muito da minha tia Conceição, esposa do tio José, irmão da minha mãe, residentes em Vila Fria. Eram pais de 5 filhos, únicos primos, todos rapazes. De resto não havia mais família. Com os primos pouco convivia porque viviam em Vila Fria. O tio José ficou viúvo. Casou novamente e teve duas filhas, a Sandra que baptizei, como diácono, e a Renata. Com estas duas primas, os relacionamentos são ocasionais dadas as diferenças de idades entre nós. Como hiperactivo, recordo que quando eu era pequeno, já na escola, punha tudo em alvoroço. Sempre fui um líder de um “Bando” de rapazes e algumas raparigas da escola e fazia os projectos de descobertas, entrando à frente nas minas de água, sem medo da moura ou de algum bicho. Em Santo Amaro, onde os de Sabariz tinham medo de entrar, à procura da sala das feiticeiras, numa mina coberta de mato, com pinhas a arder nas pontas duns paus, como se fossem uns archotes. Entramos não havia nada a não ser uma sala com uma espécie de banco à volta podendo sentar-se. Acontece que uma das coisas a que me habituei mal desde criança, foi a comer muito depressa, menos as batatas porque não gostava delas e, por isso, até alguma porrada apanhei. Os colegas falam da minha capacidade de iniciativa e de solidariedade já no tempo da escola. Era muito criativo. Defendia-me. Não podia ver ninguém com fome, segundo me lembram de vez enquanto alguns amigos. Aos colegas mais pobres levava-os para casa e dava-lhes do que havia na ocasião, sobretudo do forno da broa. Alguns até gostavam de pão milho molhado em azeite. Do toucinho ao presunto da adega, da fruta em madureiro quer fosse das árvores do quintal ou dos campos dos vizinhos, conforme as necessidades, tudo era material para consumir e distribuir no recreio da Escola ou no fim das aulas. Também era amigo de festas e metia toda a rapaziada ao barulho ao ponto de um dia a GNR andar à minha procura, tendo os meus pais respondido...por mim, embora eu estivesse em casa. Os meus pais saíam para o trabalho com os jornaleiros e eu ficava em casa e cozinhava por minha iniciativa... e cozinhava bem!... Lavava a louça, esfregava o soalho todos os sábados para ter a casa limpa, tirando trabalho à minha mãe ou à criada que trabalhavam os campos, sobretudo em vésperas de festas. Caiava, limpava os vidros das janelas, passava a ferro, jardinava, ia com “as criadas” cortar erva, pendão ou o milho, apanhava feijão desde as 4 horas da manhã até as 10, quando começava o calor a apertar, ajudava a cavar os “cabedulhos”, etc...Cuidava dos meus irmãos e gostava de mostrar trabalho realizado aos meus pais. Pela manhã, de madrugada, já eles tinham saído para o campo, eu, com o carro das vacas, e com o meu irmão íamos carregar um carro de mato que tinha sido cortado no dia anterior. Era uma alegria às 8 horas da manhã, antes da escola, estar a chegar com um carro bem feito, para pegar na sacola e ir para a escola que ficava a cem metros da minha casa. Recordo que na noite de uma serenata quando o Américo Tomás veio inaugurar o Navio Funchal e o Palácio da Justiça, salvo erro em 1958. Os meus pais foram para a festa. Havia uma serenata. Entretanto, em casa desenhei e pintei a lápis de cor em papel grande de embrulho, talvez 100mm x 80mm, um par de dançarinos regionais que levei para a Escola para mostrar à professora e à rapaziada. Era pequenino e, enquanto dormia ou chorava, a família reunida rezava. Era o terço, como habitualmente, dirigido pelo avô materno ou pelo avô paterno, dependia da casa onde estivesse. Quando o avô não podia, era o pai, a mãe ou uma das empregadas, as “criadas de servir”, que tomavam a chefia de dirigir o terço pelas almas do purgatório e “pelas alminhas desta casa que Deus lá tem”. As três ave-marias finais eram dedicadas a S. Sebastião, para que acabasse com a guerra, a fome e a praga da peste. Assim fui crescendo, até rezar com entusiasmo junto do avós ou dos pais. Como se não bastasse, ouvia contar aos vizinhos, às vizinhas e às crianças da minha idade coisas da noite, desagradáveis para uma criança. Era o medo da noite que me levava à cama com: “Com Deus me deito, com Deus me levanto, com a graça de Deus e o Espírito Santo”. Cobrindo a cabeça, continuavam as ave-marias para que a noite fosse boa e não aparecessem ladrões, nem incêndios que nos levassem a casa e a vida. Quando atingi os oito ou nove anos, comecei a descobrir, por mim, que o medo deixou de ser medo. Só existe medo na cabeça das pessoas. À exceção da fé, a gente pode ter medo de um malfeitor que nos possa fazer mal… Mas é sempre um problema de vivos e não de mortos, nem de lobisomens, nem de almas penadas ou de procissões de defuntos. Não é da noite, também pode ser de dia. A minha oração continuava sempre para além do terço, na cama. Não sei se rezava muito ou pouco, sei que acordava de manhã e continuava: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, guarda, governa e ilumina. Amém". Sempre me perseguia uma vontade de saltar fora da cama e estar sempre distraído com os trabalhos da escola, com atividades de desenho, pintura e outras coisas da lavoura. Era filho de pais agricultores, com muito trabalho, criadas e jornaleiros. Um dia, já tinha 10 anos, resolvi preparar o "arroz de padre-nossos" e o caldo para a mãe. Queria que, quando ela chegasse a casa, ficasse contente por ter o almoço feito para toda a gente que vinha do campo. O arroz de padre-nossos era um arroz solto com pedaços de carne por causa dos trabalhadores. A avó materna já não estava em condições de cozinhar, devido à idade e à demência. Assim, cozinhei muitas vezes nas férias. O caldo que preparei para esse primeiro almoço foi ao jeito do que a minha avó fazia há alguns anos e a minha mãe repetia… Um segredo desse caldo era cozer um pedacito de toucinho e, antes de acabar, retirá-lo para, numa tigela, o amassar com o exterior da concha da colher. O ouro era comido e o resto era lançado no caldo para mais umas fervuras… a casa. As jornaleiras diziam mesmo que só pelo caldo já valia a pena trabalhar para a casa da tia “Antónia Catrina”, assim era conhecida a minha avó materna, cujo nome de batismo era Antónia Rodrigues Araújo, irmã de Manuel Araújo, do Cruzeiro, e de José Araújo, da Regadia. Deste modo, fui sempre um aficionado pelos sabores da cozinha, e não foi por acaso que, nos acampamentos no pinhal do Moledo, fui o cozinheiro. Um dia, em Moledo, aconteceu que deixei esturrar a comida, isto é, deixei entrar o “bispo”, como se dizia, no tacho. O que irão dizer os colegas quando chegarem da praia? Isto tem de desaparecer, há que acabar com o esturro, não quero ficar mal. Ora essa!... Tal coisa nunca aconteceu. Fui deitando uma colher de margarina, seguida de muitas outras, até chegar a um paladar agradável. Ia melhorando com a colher, mexendo por cima, em lume brando. Nada de chegar ao fundo. Os colegas chegaram. Comeram, gostaram e verificaram que tinha outro paladar. Só no fim, quando os encarregados de lavarem os tachos pegaram neles, é que descobriram que o arroz estava esturrado. Gostava de fazer e descobrir novos sabores. Por isso utilizei o alecrim, a salsa, a hortelã, as urtigas, o unto, o toucinho, a chouriça ou o chouriço, a carne, os ossos de porco ou de vaca, as folhas de loureiro, a salsa, a hortelã, o pau tenro de figueira, o limão ou um pau de chocolate e outras coisa que já nem lembro, faziam a diferença. Sempre de tudo um pouco, menos ou mais conforme a quantidade, faz a diferença. Pelo menos é desenjoativo e não se come sempre o mesmo, com o mesmo paladar. Tudo isto, e mais que se esquece, porque tinha vontade de fazer felizes os que me acompanhavam, na família ou fora dela. Ficava feliz quando os outros ficavam contentes. Por isso me habituei a estar bem com quem está bem e a estar mal com quem está mal. O “rezar” ficou para trás? Não, simplesmente passou a ser ignorado no que escrevia sobre a minha atividade na cozinha. Rezava todos os dias, várias vezes. Gostava de ir à missa, ainda em latim, e de ser activo também nestas questões de prática e de festas religiosas. Ajudava à missa: “Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc, et in hora mortis nostrae. Amen”. tempo em que vivia a esperança de ir para o Seminário, pois queria ser padre, ainda que tenha referido os cozinhados já no tempo da teologia, que viriam após cerca de 10 anos. 1988. Aqui reportei-me ao tempo em que vivia a esperança de ir para o Seminário, pois queria ser padre, ainda que tenha referido os cozinhados já no tempo da teologia, que viriam após cerca de 10 anos. 1988. Com a Virgem Maria faço Caminho… Nutro ainda o sentimento de procurar o oratório da casa de meus pais para rezar e acender lamparinas, como se estivesse numa igreja e visse ali um sacrário doméstico. À noite, no fim da ceia, havia a oração do terço, ora orientado pelo avô materno, José, ou pelo meu pai e, quando estava com os avós paternos, pelo avô António. No entanto, todos os domingos, quando ia à missa em latim, ficava à beira do meu pai e junto do altar de Nossa Senhora de Fátima, ladeada pelo Beato Nuno de Santa Maria e por Santo António. Não sei se pela proximidade, mas olhava para Nossa Senhora de Fátima como Mãe de Deus; ela dizia-me muito de mãos erguidas, e assim me ensinaram a rezar também. O oratório da minha casa e, na igreja, a imagem de Nossa Senhora de Fátima — que é a mesma Senhora. do Carmo, ou do Carmelo, cuja festa celebramos aqui na Igreja do Carmo, na paróquia — eram os dois lugares mais sagrados para mim. Conforme fui crescendo e ao fazer a Primeira Comunhão, é que senti o valor do altar e do sacrário. Era Jesus Sacramentado que descia ao meu coração e me tornava mais perto de Deus. Sempre fui assim e continuei no seminário, com a fé a desenvolver-se e a interiorizar o mistério de Deus, mas Maria, Mãe de Jesus, continuava a ser uma referência muito grande na minha vida. Depois de Cristo, era ela quem ocupava um lugar privilegiado no meu coração. Não me seduzem devoções passageiras; mas a Palavra de Deus, a Eucaristia, o terço e as orações da Igreja faziam uma oração em tudo. A alma duma mãe que se entrega — «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lucas1, 38) — começou a entranhar na minha vida uma relação, mais ou menos implícita e explícita, por amor. Quando tinha 6 anos, estive sentado na cama da Alexandrina e recordo-me das palavras com que se dirigiu à minha mãe. Mandou-nos rezar e disse que ela ia rezar também. Naquela noite, também eu rezei, para além do terço, muitas Avé-marias na cama até adormecer, porque a minha irmã não estava bem; no dia seguinte, a minha irmã estava boa. Foi uma alegria contagiante na família e vizinhança. Assim fui andando até entrar no seminário. Em Filosofia colegas convidaram-me para fazer parte da Legião de Maria. É um movimento mariano da Senhora Medianeira de todas as Graças, fundado em Dublin, a 7 de setembro de 1921, por Frank Duff. Aí senti um chamamento especial pela Mãe, procurei que ela fizesse parte do meu caminhar e senti-me ser como Maria: estar ao serviço dos outros. Então, fora do tempo de aulas, "fugia" do Seminário para ir para os acampamentos dos ciganos, onde vim a fundar uma catequese na Capela de S. João da Ponte, em Braga. Ia também para o Hospital de S. Marcos acompanhar doentes e confortá-los, e para a Cadeia visitar os presos. Estava com eles nas celas, procurando sempre promover e exaltar quem estava humilhado. A minha vida de estudo no Seminário fazia-se de noite, "escondido" no meu quarto, sob um raio de luz sobre os livros do candeeiro da secretária. Suponho que os presos nunca tiveram tantas festas na cadeia e bailes como no meu tempo, nem os ciganos tiveram até hoje, que eu saiba, outra peregrinação ao Sameiro, juntando os três acampamentos de Braga (Picoto, S. João e outro mais para poente cujo nome não me recordo, mas parece-me que ficava na ribeira do Este, abaixo do Instituto Monsenhor Airosa), tendo ainda eles desafiados a comparecerem os de Famalicão e os da Póvoa. Foi um dia excecional, em que tive de procurar transporte público da Câmara para os levar até à Falperra, porque ir de S. João da Ponte, a pé, até ao Sameiro era muito... Tudo isto me arrancou um "Sim" ao sacerdócio e já lá vão mais de 52 anos que Maria me conforta. Cada família com os seus farnéis e eu com eles a comer do que levavam para, no fim, mesmo em recinto considerado sagrado ao ar livre. Recinto vigiado pela GNR, viraram a dançar. Quando a autoridade apareceu, fui eu que disse: «Deixem dançar, são ciganos. Vieram em peregrinação. É uma festa para eles». Nesta altura, continuaram a dançar e até andaram comigo no ar. Estou a falar um pouco de mim, mas também de Maria, a Mãe de Jesus, que na Palavra fala de si mesma, mas sempre com referência ao Filho e a Deus: «Fazei tudo o que Ele vos disser» (João, 2, 5). Jesus também respondeu: «Aqueles que fazem a Vontade de Meu Pai, esses são meu pai, minha mãe, minhas irmãs e meus irmãos!» (Mateus, 12, 50). Per Mariam ad Iesum (Por Maria a Jesus) era o lema de D. Francisco Maria da Silva, arcebispo de Braga a quem devo a minha ordenação sacerdotal a 9 de julho, após um ano de estágio em Balazar, na terra da Alexandrina, e na Casa dos Rapazes, em Viana. Com Maria na minha vida, quero continuar a caminhar, enquanto puder, com Ela para chegar a bom porto. Ano 1978 Como foi parar ao Seminário? O meu pai queria que eu fosse estudar. Eu queria ser padre, mas para acautelar, o meu pai quis que eu fizesse exame na Escola Frei Bartolomeu dos Mártires, (Escola Técnica) no Jardim D. Fernando, hoje, sede do IPVC, não fosse eu reprovar no Seminário!... Ora o exame de admissão, aqui em Viana, foi um êxito. Faltava ir fazer exame de admissão ao Seminário e aconteceu deste modo. Eu fui num domingo ou segunda-feira para o Seminário de Nossa Senhora da Conceição, em Braga, e só na sexta-feira ou sábado regressei a casa. Isto foi muito grave para mim. Embora eu vencesse, custou-me “os olhos da cara” porque tantos dias sem ver os pais, os avós, os irmãos, os colegas e os amigos! Parecia que não era daqui deste mundo e que me faltava a terra que os meus nos tempos livres ia chorar e, por vergonha, refugiava-me numa casa de banho. Queria a família, queria os meus trabalhos e as minhas brincadeiras do costume, como criança. Aconteceu que, quando regressei do exame, disse aos meus pais, para para mim era ponto assente, “Seminário, nunca mais. Já chegou!...” Um dia recebi uma carta entregue pelo carteiro. Com curiosidade abri-a e não a passei aos meus pais… Era uma carta do Seminário de Nª. Sra. da Conceição, de Braga. A carta dizia que tinha sido aprovado e que tinha de dar entrada em 2 de Outubro de 1959 e que era preciso preparar um enxoval todo numerado com nº 92: tantos lençóis, tantos travesseiros, tantas camisolas, etc. etc. Já não pensava ir para lá. Por isso, guardei a carta. O que disse, estava dito. Esperei que os pais tivessem levado a sério. Faltavam cerca de oito dias. Era um domingo. Como era costume ao Domingo, fui ajudar na reza do terço pelas 15h na Igreja de S. Nicolau de Mazarefes. No fim, o Abade, o Pe. José de Jesus Soares Ribeiro, perguntou-me se o enxoval já estava preparado. Eu disse que não e que não ia para Braga. De imediato, com uma voz determinada e forte como ralhete de quem mandava: - Para o Seminário vais e vais mesmo. Vou falar com os teus pais. Este meio de proceder lembra passagens bíblicas onde o chamamento é frequentemente desconcertante para o ser humano. Ao chegar a casa entreguei a carta à minha mãe e, com ela, estava a minha madrinha e o meu tio José, irmãos da minha mãe em visita à avó, como habitual todos os domingos. O Abade veio falar e, naquela semana, quase pararam os trabalhos da lavoura. A mãe, a madrinha, as criadas e as vizinhas ajudaram, depois dos meus pais comprarem o que fazia falta. Faziam serão a bordar o número “92” em todas as peças de roupa… Entretanto arrumavam as peças passadas a ferro num grande baú (mala do enxoval como se mudasse de freguesia). Afinal sempre vou!... Tanto me custou que nos dois primeiros anos a vida não foi fácil. Decreto do Concílio Vaticano II (Optatam Totius): sobre a formação sacerdotal estabelece que “a seleção e o discernimento devem ser rigorosos, mas aponta que a vocação é um desígnio onde os diretores espirituais e párocos têm o papel de orientar e confirmar o chamado de Deus”. Fisicamente, estava lá, mas a minha mente e o meu coração estavam na minha terra, na família e na minha cidade que era Viana. Passei dois anos de saudade e a viver da saudade… Braga não me dizia nada. Distraíam-me, no entanto, os passeios das quintas-feiras e dos domingos de tarde. À quinta-feira não havia aulas. Estudava-se, rezava-se, passeávamos sempre juntos e com os padres “prefeitos” a acompanhar para ver se não perdiam alguma “ovelha”. Assim era semana após semana e vir a casa, ainda que fosse para visitar algum familiar ou vir num falecimento, isso era proibitivo. A minha bisavó faleceu. Era a mãe da minha avó paterna, mas não pude sair do Seminário. As saudades eram tantas. Tudo lembrava. Assim os estudos não podiam render. Isto até ao 3º ano, hoje 7º ano. Nesse ano, no Seminário era ano de exame. Dois anos passados, lá me fui habituando a escrever uns postais, umas cartas para toda a família, iam-me fazendo secar as lágrimas. Foi, portanto, no terceiro ano que comecei a concentrar-me mais e a agarrar o estudo para depois, no exame, arrancar uma média, das 10 ou 12 disciplinas, arrancar 13 valores… Tinha chegado uma vida nova e a encarar, com outro entusiasmo, a minha vida no Seminário. Vieram as férias grandes e, nelas, como o costume, em todas as férias de Natal e Páscoa, era um tempo de voar com os meus trabalhos, com meus amigos, visitar os amigos e continuar a organizar festas com os outros. Um jovem desse tempo disse-me um dia “ó Artur, tu com um pacote de bolachas fazias uma festa e reunias à tua volta muitos jovens na Veiga de S. Simão, onde íamos fazer praia ou jogar à bola. Lembras-te?” Ano 2001 No 7º ano tudo mudou O meu coração apertadinho dos primeiros anos já se tinha ido!... Estudava bem e tirava notas razoáveis, embora o meu coração estivesse em Viana. Por esse motivo, em dezembro, para prevenir a chegada das férias de natal contactei a Empresa Magalhães para arranjar uma camioneta para que, no dia da saída para férias, os de Viana pudessem, ao toque da campainha e à abertura das portas do Seminário, entrarem nela e, mais depressa, chegarem a casa. Não considerei isso acto heróico, mas alguns assim entenderam. Tinha-me parecido que sair de mala de viagem à procura de transporte de camioneta ou de comboio, o mais prático era ter à porta a camioneta e seguir viagem para Viana. Foi, por isso, que contratei o autocarro que à hora prevista estava à nossa espera. Todos, numa enchemos a camioneta. E, Viana, era o nosso destino. Pelo caminho foi uma festa. Ao passar nas terras, alguns iam ficando e, em Viana, os outros colegas que as famílias de Perre e de freguesias vizinhas esperavam. Este evento fez que os vianenses de filosofia e teologia, os da Colónia de Viana, apreciassem porque até ali ninguém se tinha lembrado de uma coisa destas. Alguns vianenses recordam esta iniciativa com admiração! O 4º ano, hoje o 8º ano, foi feito com facilidade. Pensava-se nas férias. Projectavam-se actividades para realizar nelas, e na “Colónia Vianense” (“associação” formada pelos estudantes de Viana, no Seminário). Eu próprio com os seminaristas da minha terra o José Maria Cunha, o José Augusto Barbosa e o Mário Gonçalves organizamos para os vianenses algumas festas em Mazarefes. O senhor Padre Vilar, hoje, pároco da Meadela, chegou a ir ajudar assar as castanhas, em Mazarefes, para os seminaristas de Viana.. Era uma alegria!... Depois das férias do Verão e da praia que fazíamos no Rio Lima, dos jogos e concursos que realizávamos em S. Simão, voltávamos ao Seminário. No 5º ano assim foi... Batina, cabeção e a murça…E os sapatos de fivela. Foi cedo de mais, mas não fez mal nenhum. Aí deixamos de dormir em camaratas e cada um tinha o seu quarto. A melhor nota que tive foi a Inglês e também no 5º ano foi o ano em que melhor nota obtive em música desde o 1º ano. O Pe. Manuel Faria, sem desprimor para seus antecessores professores de música, foi aquele que, agarrado a um piano, me fez entender e a distinguir o tempo e os meios tempos das notas, os sustenidos e os bemóis, aí comecei a cantar todas as escalas em tom menor ou maior. Mais um ano bem passado e bem aproveitado. Cada vez me sentia mais eu e lá fui parar ao Curso de Filosofia. Entrei na actividade extracurricular que foi a aula de pintura a aguarela, ou a óleo, com o Mestre Luís Campos e em 1967 expus os meus primeiros quadros, de que ainda conservo três ou quatro, no Edifício do Turismo de Braga. Entrei, noutra actividade extracurricular, na Legião de Maria que abracei toda a vida até ao fim da Teologia. Foi neste movimento que experimentei o trabalho com os presos, com os ciganos e os doentes do Hospital de S. Marcos, e que mais me determinou na caminhada para padre. Fui escuteiro, mas só fui caminheiro. Organizei várias actividades como uma catequese para os ciganos, na Capela de S. João da Ponte, junto ao rio Este. Um Domingo, de tarde com as alunas do Colégio do Sagrado Coração de Maria, organizei um baile na cadeia. Foi a primeira e a única vez, porque o director da Cadeia com argumentação que facilmente compreendi, era proibitivo... Na cadeia passava muito tempo. Um dos presos escrevia umas coisas e arranjou uma máquina de escrever. Pedi-lhe para me mostrar escritos dele e depois levava-os para publicar no jornal Diário do Minho e assim, quando saiu da cadeia se fez jornalista e foi director de um jornal regional. O curso de Teologia não foi difícil, mas eu é que, entretido com os ciganos, com os quais, às vezes, comia nas suas tendas porque achava que era a melhor maneira de lhes mostrar que não desprezava a sua cultura, com os doentes no Hospital ou na Cadeia... só estudava à noite e o que ia para além das 22h., a hora de descanso e de fechar as luzes do quarto. Tapava o candeeiro com a murça e dirigia a luz para os livros. Cada dia e noite estudava as aulas anteriores, para no dia seguinte não fazer má figura e para se saber, claro. Uma vez o Dr. José Areeiro, professor de História de Arte, convidou-me a dar uma aula sobre arte rupestre. Aceitei o desafio. Suponho, não me lembra, mas fui o único a desempenhar esse papel, de tal modo que sempre fomos amigos. Todos os anos foram em Teologia bem aproveitados, só não gostava muito de Dogmática e reprovei a esta disciplina no último ano. Tive de repetir o exame no fim das férias de Verão e acabei com êxito. Fui ordenado diácono e participei num curso Dominique (espécie de Curso de cristandade) a convite de um enfermeiro de Abrantes que conheci, quando nas férias grandes de 1970, participei na expansão da Legião de Maria em freguesias de Abrantes, Portalegre e Castelo Branco, com o meu colega João Alves Lima e um estudante de engenharia de Carcavelos, de que não recordo o nome. Ano 1998 Uma vida Nova Era o dia 9 de Julho de 1972. A família e alguns amigos estavam à espera e o pároco de Mazarefes, o Pe. Sebastião Ferreira, tinha com a freguesia já preparada uma surpresa para a minha chegada. Depois da ordenação, na igreja paroquial da Apúlia, pela manhã e com regresso previsto para as 5 ou 6 horas da tarde. Assim foi!... A juntar à alegria da minha ordenação sacerdotal pelo Arcebispo Primaz, D. Francisco Maria da Silva, que, um ano antes, me tinha ameaçado que mesmo sendo diácono, não me ordenaria sacerdote por causa da minha iniciativa da celebração dos 40 anos da “Colónia Vianense”, fundada em 1931 pelos seminaristas de Viana, em Braga. A minha "ordenação sacerdotal" reflete o sacramento que confere o ministério apostólico, instituído por Jesus para apascentar o povo de Deus. Este sacramento é conferido pelo Bispo, que tem a plenitude da ordem. Depois, de um almoço na zona da Póvoa, parece-me que à escolha do meu tio Abel Sá Portela, viemos para Mazarefes. No “Armazém do Sal “tive de abandonar o meu carro e ir para o carro da Dra. Maria Nadir Santos Lima que me conduziu em direção à Capela da Senhora das Boas Novas. O Pe. Sebastião e, todos os que nos quiseram receber com as crianças da catequese, em festa, tendo a catequizanda Belém Liquido entregue um ramo de flores. Lá fui, novamente para a Casa dos Rapazes onde estive até à minha nomeação como Pároco de Dem, Arga de S. João, Arga de Baixo e Arga de Cima. Em 1 de Outubro de 1972 dei lá entrada, depois da Missa Nova que foi celebrada em 13 de Agosto, no Adro da Capela de Nª Senhora das Boas Novas com a presença de mais de um milhar de pessoas: conterrâneos, colegas de escola, colegas seminaristas, sacerdotes, entidades religiosas, militares e civis, o coral da Meadela que foi o que animou a missa, jovens de Balazar e da Zona de Famalicão, Póvoa e Barcelos, que, de camioneta e, no fim da missa, regressaram, ou foram passear. À mesa éramos mais de 340 pessoas, se a memória não me falha, ma