AVISO

Meus caros Leitores,

Devido ao meu Blog ter atingido a capacidade máxima de imagens, fui obrigado a criar um novo Blog.

A partir de agora poderão encontrar-me em:

http://www.arocoutinhoviana.blogspot.com

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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Luneta -

Ajuda da Luneta


Na janela um namorado

Pode-se usar de luneta,

Conversa como bem-amado

Em linguagem bem discretas



Se a ajeitar pelo cordão,

Como circular movimento,

Quer dizer: ao coração

Tu me dás contentamento.



Limpar-lhe os vidros é: penso

Que o teu amor será puro;

Fechá-la diz: gozo imenso,

Abri-la traduz-se: juro.



Olhar para o céu de luneta

Significa desconfiança,

Que me faz andar pateta

Em contínua contradança.



Suspendê-la diz: desejo

Dizer-te à noite um segredo,

Levá-la à boca: um beijo,

Pô-la no peito é mais cedo.



Muitas vezes repetidas

Pô-la e tirá-la é tormento,

Passo horas esquecidas

Contigo no pensamento.



Oscilante suspentida

Pelo cordão é: suspeita,

A tremer é triste: vida,

Se teu amor me rejeita.

domingo, 20 de novembro de 2011

A SOMBRINHA

Ajuda da Sombrinha


Fechar a sombrinha é: jura

De amor que o peito encerrou

Abri-la traduz: ventura

Que a nossa ideia sonhou.



Posta ao ombro em movimento

Como giro dos moinhos,

Diz: pensar em casamento

Venturoso entre passarinhos.



Suspendida pelo meio

E roçando-a no vestido,

Quer dizer: amo-te e creio

Que serás o meu marido.



Com a ponteira da sombrinha

Sobre o chão letras formar

Significa; uma cartinha

Que se tem para se entregar.



Pelo castão da ponteira

A sombrinha segurando,

Diz: armaste uma ratoeira

E em casa não estás pensando



Mostrando dificuldades

No abrir da sombrinha, então

Quer dizer: há falsidades

Na tua declaração.



Enfim, se a sombrinha é posta

Debaixo do braço dela,

É sinal que deles gostas,

Gosta tanto que se pela.

O Charuto

Ajuda do Charuto


Acender o namorado

Um charuto olhando a bela

É dizer; fico abrasado

Em te vendo há janela.



Três fumaças de charuto,

A seguir são três beijinhos

Que o galã mais fino e astuto

Da na boca aos amorzinhos.



As fumaças, para o ar

Significa: não suspeites,

Que tenções de te enganar

Posso eu ter, não me rejeites.



Se o charuto se apagar

E logo ele não acenda,

Quer dizer: hei-de amar-te

Toda a vida, minha prenda.



Assopra uma fumaça

Para a cinza do charuto,

Quer dizer: se por desgraça

Te perder, morro de- luto.



Odeitar a cinza fora

Do charuto significa:

Se algum homem te namora,

Não me enganes, minha rica.



Atirar para longe a ponta

Do charuto que se apaga

É dizer: não sejas tonta,

Porque o meu amor te afaga.

A BENGALA

Ajuda da Bengala


E falhadora a bengala

E o namorado catita

A sua deusa falha,

Se a tem quieta ou se a agita.



Bater com ela no chão

E desespero, é ciúme,

É sentir o coração

A queimar-se em vivo lume.



Posta ao ombro é: sentinela

A dizer-lhe que anda a espreita,

Porque desconfia que ela

A corte de outro aceita.



Colocá-la horizontal

Nas duas mãos é; promessa

De um lacinho conjugal

Ambos terem bem depressa.



Como pêndula agitada

Em ligeira oscilação

Significa: o minha amada,

Bate assim meu coração.

As LUVAS

Ajuda das Luvas


Descalçar da mão direita

A luva, quer significar;

Minha mão, amor, aceita,

porque eu sempre te hei-de amar.



Com a luva descalçada

Bater na mão que a outra tem

Significa: estou zangada,

Capaz de morder a alguém.



Voltar as luvas de avesso

E guardá-las na algibeira,

Quer dizer; bem te conheço

E não caio na ratoeira.



No jardim estando sentada

E deixar cair a luva:

Pensas em falar na escada,

Mas tira o cavalo da chuva.



Morder na luva é: desejo

Muito ansioso de casar,

Ajeitá-la diz: motejo,

Não te posso acreditar.



A mão esquerda calçada

Com a luva, e a outra não

Traduz-se: vivo enganada,

De casares não tens tenção.



Prender a luva no seio

Entre os botões do corpete

Significa; não creio,

És um grande velhaquete.

O Livro

Ajuda do Livro


Há num livro a tradução

Dos desejos da mulher,

Abri-lo é dizer: paixão,

Sinto em meu peito nascer.



O folheá-lo significa:

Tenho dúvida e receio

De que tenha outros à bica

O galã que não é feio.



Posto debaixo do braço.

Do lado esquerdo é: pergunta;

Tem tenção de dar o laço

Que de duas almas "ajunta".



Lendo muito atentamente

A mulher o seu livro,

Quer dizer: não consente

Que para lá vão de carrinho.



Quem ao livro dobre folhas

Bem traduz a quem a olhar;

Para pecados não me escolha,

Que eu só penso em me casar.



Se cobrir com o livro o rosto,

A sorrir, a mulher diz:

O senhor é do meu gosto,

Quando o vejo, sou feliz.



Livro aberto contra o peito

É olhar de contemplação,

Significa; tenho eleito

Para lhe dar meu coração.

A Roupa

Ajuda na Roupa




Pôr uma toalha à janela

Que se fecha sem demora,

Quer dizer; toma cautela

Que o pai está cá, vai-te embora.



Vir à varanda escovar

Um vestido de passeio

Indica; vivo a penar,

No teu amor eu não creio.



No pescoço um cabeção

Por à janela traduz:

Já te dei meu coração,

O teu olhar me seduz.



Por um binóculo olhas

Duas vezes, três ou quatro,

Traduz-se: podes esperar-me,

À noite, vamos ao teatro.



Vir num xaile agasalhada

À varanda, quer dizer:

Quem me dera a hora chegada

De eu ser tua até morrer.



Na janela pôr a gaiola

É falar ao passarinho,

É dizer: só me consola

O pensar no teu carinho.

O RELÓGIO

Ajuda no Relógio


Um janota namorado

Que Tem relógio e corrente,

Fala ao seu anjo adorado

Cá de longe belamente.



Por o relógio no ouvido,

Como para ver se parou,

Quer dizer - tenho sabido

Que alguém de amor de falou.



Limpar-lhe o vidro com o lenço

Deve ter por tradução:

Consagrei-te amor imenso,

Vivo morto de paixão.



Na corrente, por pôr os dedos

Ou os berloques ajeitar

Quer dizer - tenho segredos,

Meu amor, para te contar.



Dar corda ao relógio explica

Desejos de casamento,

Porque o amor nos mortifica

Sem o vaivém é tormento.

Ver muitas vezes as horas

É sinal que quer dizer :

Sei, meu bem, que tu namoras

Quem a mim me faz sofrer.

Santa Iria

Santa Ira




Estando eu à janela

A coser numa almofada,

Minha agulha de oiro,

Meu dedal de prata.



Passa um cavalheiro,

Me pediu pousada,

Meu pai lha negou,

Quanto me pesava.



Roguei e pedi,

Mas ele não cessava,

Mas eu tanto fiz,

Que por fim deixava.



Fui-lhe abrir a porta,

Muito contente entrava,

Ao lar o levei»

Logo se sentava.



Nas mãos lhe dei água,

Nela se lavava,

A toalha lhe pus,

Nela se limpava.



Pus-lhe a ceia,

Muito bem ceava;

A cama lhe fiz,

Nela se deitava.



Lá pela meia-noite

Me eu sufocava.

Senti que me levavam

Com a boca tapada.



Levam-me: a cavalo,

Levam-me abraçada,

Correndo, correndo,

Sempre à desfilada.



Sem abrir os olhos,

Vi quem me roubava;

Calei-me e chorei,

Mas ele não falava.



Dali por muito longe

Ele me perguntava,

Lá na minha terra,

Como me chamava.



Chamavam-me Ira»

Ira afidalgada»

Agora por aqui,

Ira cansada.



Horas esquecidas.

Comigo lutava,

Sem forças nem rogas,

Tudo lhe mancava.



Virou um alforge,

Ali me matou»

Abriu uma cova,

Onde me enterrou.



Dali por sete anos,

Passa o cavalheiro,

Uma linda ermida

Viu naquele outeiro.



A Urtiga e o Pieiro



A Urtiga e o Pieiro

Que sua fala elegeu,

De tantas gemadas tomadas

Por fim enfraqueceu,



Os dentes da nossa urtiga

O ferreiro os limou,

De tanto papel cortar

Até se assim se ????Msou.



A boca da nossa urtiga

Tem uns dentes muito afiados,

Som beleza e formosura

Assim foram encantados.



As orelhinhas compridas

Seu rabinho auxiliava

E de várias olhadelas

Até de alegria saltava.



0 feno da nossa aldeia

Na beirinha do centeio

E lá o foram buscar

Para depois fazer paleio.



No alto daquela serra

Está ervinha a brilhar,

De tão nuas que andavam

Até lá a foram buscar.



Do pinheiro da saldanha

Fizeram a sua roca,

De vários fios torcidos

Chegaram à massaroca.



A urtiga e o pieiro

Foram aclamados p'ra rei,

Para tanto não saltarem

Até os tiçar lhe piei.



As cerejas da nossa aldeia

Estão agora a encarnar,

Aqui está a nossa urtiga

Quando nos quer arranhar.



As pedras fazem penedos,

Dos penedos fazem rochas,

De tantas coisas que tens

Aqui algumas me mostras.



As batatas da nossa aldeia

Estão agora a florir,

Assim é o meu pieiro

Quando mostra os dentes para rir.



0 tojeiro e a carmeisa

Estão agora a florir,

Nos imos não pressas,

Não nos dá vontade de rir.



No fundo daquele poço

Vê-se a minha fotografia,

A flor anda perra,

Não anda com alegria.

Ó urtiga, aonde estas?

Se cantasses, é que era!

A flor te ia buscar,

Que há tantos dias te espera



Ó Sobreiro do meu quintal»,

Para que: secaste: tão cedo?

Foi se calha o pieiro

Que te pôs um grande medo.



Ó minha fontinha verde,

Não dê água nem com agres;

Não venhas para a minha beira.

Porque fazes mil milagres.



A ideia não me vence

A escrever tudo que eu quero;

Estou à espera da urtiga,

Que há tanto tempo espero.

A Água

A Água




Ó rio das águas, chore

Que vai correndo pró mar;

Os tormentos que eu padeço,

Ai, mãe, os vais declarar.



Não declara, que não pode

P não tem que declarar,

Pois, quem como tu é bela,

Não deve ter que penar.



0 que eu peno ninguém sabe,

Ninguém pode saber,

Porque eu peno e não me queixo,

Em segredo sei sofrer.



Pois o sofrer em silêncio

É um dobrado sofrer,

Melhor é contarmos tudo

A quem nos possa entender.



A quem nos possa entender

Tudo eu queria contar,

Mas os amigos são raros,

Não sei onde os encontrar.



Encontra-os a cada canto

Quem os queira encontrar,

É um dos mais verdadeiros

Aqui te está a escutar.



Vem livrar-me com teu olhar

Quem eu por eles me perdi;

Dá-me a vida com teus beijos,

Já que por beijos morri.



Meia-noite, tudo dorme,

Só eu não posso dormir,

Que me não deixa este amor,

Que me fizeste sentir,



Este amor que é a minha vida,

Vida do meu coração,

Atrás do qual meu suspira

E meus pensamentos vão.



De joelhos fui ao mar,

De joelhos fui ao fundo,

Mais vale acabar no mar

Que andar nas bocas do mundo.



Apartai-o, apartai-o,

O vinho tinto do branco,

A mim também me apartaram

De quem eu gostava tanto.



Apartai-o, apartai-o,

O cravo da Alexandria,

A mim também me apartaram

De quem eu tanto queria.



Viana já foi Viana,

Agora é Vianinha,

Já foi Viana do rei,

Agora é da rainha.



Eu bem sei que sabes,

Eu bem sei que sabes bem,

Bem sei que sabes dar

O valor a quem o tem.

Os SINOS

Os Sinos


O sino toca à Sardinha,

Hora da reza e saudade

E chora a gente velhinha,

Lembrando-lhe a mocidade.



Repica o sino vibrante

Em festas de romaria,

Assim se vão espalhando

Certas canções de alegria.

Moinhos

Moinhos


Moinho que estás cansando,

A tua delha cantando,

Contente porque vais dando

Farinha para o nosso pão,

Gira o rodízio sem descansar

Em volta,

Espuma salta

Sempre a correr

A mó de pedra

Sempre a moer.

O REI GRILO

Rei Grilo




Estando o Rei Grilo cantando

Nos campos da Matraqueira,

Rei Leão lhe pôs um pé,

Sem saber o que fazia.

Rei Grilo se escandalizou,

Desta maneira dizia:

- Ouve lá, ó meu amigo,

Tu vê bem com quem te metes,

Que eu, além de ser pequeno,

Tenho o diabo "a sete".

Disse o Rei Leão:

- Cala-te lá, bicho pequeno,

Que estás debaixo do chão;

Tu não sabes quem eu sou,

Sou o Rei coroado Leão.

Rei Grilo:

Pois se és o Rei Coroado Leão,

Dá-te por crucificado,

Que havemos de ter uma batalha

Nos campos da "Serra Brava",

A vinte e quatro de Maio.

Chegado o dia 24 de Maio, o Rei Grilo soltou as suas gentes: moscas, mosquitos, abelhas, vespas, etc… 0 Rei Leão soltou; cavalos, lobos, cães, elefantes, zebras, tigres, etc. Então, travou-se a batalha que foi ganha pelo Rei Grilo, pois a sua gente começou a picar na do Rei Leão e esta teve de fugir.

A raposa disse que, se não fosse um rio chamado o rio Sertão, levava-a o diabo naquela ocasião.

à Lareira

À Lareira


A cena passa-se à lareira.

A avó, o avô e os dois netos conversam.

Neto: Ó avô. Como é que se vestiam os homens no seu tempo? É como agora?

Avô: - Oh, não! Muito diferente!

Neto: - Então como era?

Avô - Usavam cabeleiras postiças, grandes bigodes e pêra a chegar ao peito.

Neto - E você também usava?

Avô - Está claro que sim, pois eu vivia naquele tempo.

Neto: - E andavam nus?

Avô: - Não. Usavam calças apertadas, camisas de linho com punhos de renda, coletes e calçavam umas sandálias de couro.

Neto: - E na cabeça?

Avô - Quem queria, punha um chapéu.

Neto: - E as mulheres?

Avô: - Não sei» A avó que vos diga, pois ela está a chegar, que eu vou-me deitar.

Logo que o avô foi para a cama, entrou a avó.

Neto: - Avó, como é que se vestiam as mulheres no seu tempo?

Avó: - Usavam saias e aventais muito compridos, meias de lá de ovelha, coletes curtos a ver-se a cinta, etc…

Neto: - Então você não era da pré-história?

Avó: - Está claro que não. Tu és um peco.

Neto: - Então agora conte-nos uma história.

Avó: - Até te conto vinte ou trinta, se as tiver.

Neto- Quero que conte contos, mas não de dinheiro.

Avó: - Então vou contar-vos um;

Eram dois homens que iam para uma festa e um era muito peco e o outro foi alargando o seu passo. 0 peco, ia pecando atrás e perdeu-se no caminho, não soube o caminho para a festa. E vós também sois uns pecos e há-de acontecer-vos o mesmo.

Neto.: - Conte outro, avó»



Avó? - Não conto mais nada, vou-me embora»

A azeitona e a cereja

A Azeitonas e a Cereja


Diz a cereja:

- Azeitona, como amiga,

0 teu ser muito pesa;

Já vejo que pouco brilhas,

És feia de natureza.



Aqui está como eu brilho,

Vermelha e redondinha,}

Quanto deras, azeitona,

A tua cor ser a minha?



Sem o tempero do sal,

Nem o meu Deus te deseja!

Não preciso eu de tempero,

Quanto mais vale a cereja?



Tu, além da triste cor,

Não inculques no feitio;

No sabor és amargosa,

já não tens de que ter brio.



Que eu, logo ao romper da aurora,

Longe me vem arraiar,

Que me vem dar os bons-dias

Aos saltinhos, a cantar.



Sou a alegria das aves,

E dos jovens o encanto,

Até os mais inocentes

Comigo gastam seu tanto!



A toda a hora do dia

Me festejam passarinhos,

Cantando com alegria,

Socorrendo nos raminhos.



Azeitona:

- A tua mãe, ó cereja,

Só dura na Primavera;

Depois é um colete seco,

Toda a folha vai a terra.



E tu mesmo crias bichos,

Pois I a tua formosura;

Não duras mais de três dias,

Depois de que estas madura.



A minha mãe oliveira

Dura sempre florida;

Dura de Verão e de Inverno,

Até que no fim da vida.



Em meios civilizados

Tenho grande estimação;

Nunca perco o meu valor,

Quer de Inverno, quer de Verão.



Eu dou a luz ao moribundo

E estou pronta a servir,

Quando a alma, do corpo

Se aproximar a sair.



Cereja:

- Eu não estou, acredita,

Nem o posso entender,

Além de seres tão feia,

Tanto valor possas ter.



Azeitona;

- Tu verás no "framenino",

Damas feias e formosas,

Que muitas vezes as feias

Tem acções mais generosas.



Cereja;

- Desculpa, minha amiguinha,

Que eu já vejo que pequei,

Que por minha inocência

Foi que eu sem razão falei



Azeitona:

- Também tu, minha louquinha

Vieste de alta "vieira"

Falar sem considerar

É cair em grande asneira.



Cereja:

- Cá entre nos há remédios,

Escusamos de botica;

Tu és a mesma que eras

E eu a mesma que fica.



Azeitona;

- Cá entre nós há remédios.

E também muita virtude,

Amiguinhas como dantes,

Só te desejo saúde.

Um Pintainho

Um Pintainho


Era uma vez um ovo pequenino e branco que tinha dentro um pintainho. Esse pintainho queria sair para fora, pois não queria estar naquela escuridão. Com a cabeça, deu um empurrão na casca e esta quebrou um pedaço.

Nesse instante, o pintainho deitou a cabeça de fora e disse:

- Até que chegou o dia em que eu me vi livre de estar neste esconderijo.

Com muito esforço, sai cá para fora.

Esteve cinco minutos e, ao fim, perguntava a si mesmo;

- Eu não tenho salvação. Estou cheio de frio. Vou ver se sou capaz de me por de pé.

Experimentou e sempre se pôs de pé.

Nesse momento, cheio de alegria, disse;

- Já sou gente. Já posso ir dar passeios para muito longe, porque senão a minha dona, qualquer dia, mata-me. Para escapar, vou fazer descobertas por terras de França. Mas o pior de tudo é que se for muito frio e começar a chover... então é que morro. Eu, para já, ainda sou bebé, não posso apanhar frio nem chuva. Mas eu sei que tenho de morrer, tanto faz morrer aqui como em terras de França. Mas, o melhor de todo isto ainda é morrer aqui que não vou apanhar tempestades.

Vicente Marujo

Vicente Marujo


Era uma vez um homem chamado Vicente Marujo, que andava a passear, quando, de repente, encontrou o padre.

0 padre disse-lhe;

- Ó Vicente, quero-te confessar.

0 Vicente disse que sim.

0 padre mandou-o ir para a igreja, pois que ele já lá ia ter.

Bem o Vicente esperou, esperou e o padre não aparecia, até que, por fim, lá chegou.

Então o padre disse-lhe se ele sabia a doutrina e o Vicente respondeu-lhe;

- Olhe, padre, eu sabia, mas, enquanto aqui estive à espera, formou-se-me toda em pulhas.

Diz-lhe o padre:

- Então, diz lá uma, Vicente:

- Ferro-te o dedo no cu sem unha.

Padre:

- Ó homem, essa foi boa.

Vicente:

- Cago-te e mejo na boca.

Padre:

- Basta!

Vicente:

- No cu te ferro uma pasta.

Padre:

- Bonda!

Vicente:

- No cu te ferro uma tomba.

Padre:

- Abre-te, terra, leva-me este pecador.

Vicente:

- Levitai-vos, carvalhos, parti-me este confessor.

ferrar - pregar, espetar

pulhas - asneiras

tomba - espécie de remendo

A Beata

A Beata


Era uma vez uma beata, muito beata, que ia todos os dias à igreja. Um dia, quando vinha da igreja, ainda muito cedo, encontrou dois homens que lhe perguntaram de onde vinha. Ela disse-lhes que vinha da igreja, de fazer a sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

Então, um dos homens disse que também gostava de fazer essa devoção, mas que, sozinho, não queria ir à igreja e que não sabia a hora a que a beata ia. Ela disse-lhe que o melhor era ele passar pela casa dela antes, para depois irem juntos.

Assim ficou combinado.

Mas o homem, com medo de chegar tarde, mal dormiu e ainda era de noite e já ele estava a bater à porta da beata. Ela abriu- lhe a porta e disse-lhe que ainda era muito cedo. Mas mandou-o entrar, e disse-lhe que, se se quisesse deitar, podia fazê-lo num banco que ela ali tinha.

0 homem assim fez.

Passados uns minutos, ela (que estava na cama) perguntou-lhe se estava bem.

0 homem respondeu-lhe que sim, só que a cama era muito estreita.

Depois, ela disse-lhe para se deitar em cima de uma caixa. Dali a bocado, ela voltou a perguntar-lhe se estava melhor.

Ele respondeu que sim, só que a cama era um pouco dura.

Mandou-o deitar aos pés da cama dela. Passado um bocado, voltou a perguntar-lhe se estava bem.

Ele respondeu-lhe

- Ai, estou, estou, minha senhora, só que a cama tem o travesseiro um bocado baixo.

Então, ela disse-lhe.

- Olha, deita-te aqui para cima.

E lá ficaram os dois na cama, sem nunca mais se lembrarem de ir à igreja.

Ovelhinha Russa

Ovelhinha Russa




Certo dia, estava uma ovelha já muito velhinha a comer num prado muito verde, quando, de repente, lhe apareceu o lobo que se preparou logo para a comer.

Então, ela disse-lhe;

- Olha, não me comas, porque eu sou muito velhinha, só tenho ossos e podes estragar os teus dentes, mas fica descansado que eu digo-te de uns carneiros muito gordos. Olha, vai atrás daquele alto que lá estão muitos carneiros gordos e esses, podes comê-los todos.

Então, o lobo, todo feliz da vida, começa a correr até ao cimo do alto. A ovelha, logo que viu que o lobo já não a podia ver, deitou a correr directamente para a corte. Mal chegou, berrou (baliu) e o dono foi logo abrir a porta.

Então, o lobo, depois de ter procurado os carneiros gordos por todo o lado e não os ter encontrado, voltou para baixo e, ao chegar à porta da ovelha, disse;

- Desde que eu sou velho e cão, nunca tantos passos dei eu, não.

E, então, a ovelha respondeu-lhe:

- Desde que eu sou velhinha e russa, nunca tanto dei à "gussa".

A minha galinha pinta

A minha Galinha Pinta


A minha galinha pinta

Põe-me três ovos por dia;

Se me pusesse: quatro.

Mais dinheiro me rendia.

já me davam pelo bico

As rendas de um arcebispo;

Já me davam pela crista

A casa da Boavista;

Já me davam pelo pescoço

Um cavalo com um moço;

Já me davam pelas asas

Morada e meia de casas;

Já me davam pelo rabo

A fita de um cruzado;

Já me davam pelas unhas

Cento e meio de agulhas;

Já me davam pela moela

Um cão e uma cadela.

Uma galinha que tanto rende

Deve-se meter num convento,

Onde as freiras passeiam

SÓ para fora e só para dentro.