AVISO
Meus caros Leitores,
Devido ao meu Blog ter atingido a capacidade máxima de imagens, fui obrigado a criar um novo Blog.
A partir de agora poderão encontrar-me em:
http://www.arocoutinhoviana.blogspot.com
Obrigado
Devido ao meu Blog ter atingido a capacidade máxima de imagens, fui obrigado a criar um novo Blog.
A partir de agora poderão encontrar-me em:
http://www.arocoutinhoviana.blogspot.com
Obrigado
sábado, 3 de outubro de 2026
A Cidade do Coração…
A Cidade do Coração…
Vinha a Viana de charrete, mas foi algo que, entre 1950 e em 1954, acabou. Depois, comecei a vir a pé. Com apenas seis anos, subia a montanha de Santa Luzia pela Cruzada, em peregrinação ao Sagrado Coração de Jesus. Custava-me mais descer do que escalar. Recordo-me — já não sei em que ano foi — de vir descalço com a Maria e as colegas da feira para não pagar dois escudos e cinquenta centavos. Isto devia-se à postura municipal da época, que proibia a entrada na cidade a quem estivesse descalço. No entanto, a meta era tão desejada que representava o sinal da chegada pretendida, após mais de seis quilómetros calcorreados.
O caminho fazia-se pela estrada da “Mata de Mazarefes” (que ligava Darque a Ponte de Lima) até Darque. Continuava por Darque até ao “Caminho da Areia”, para encurtar a distância, saindo junto à Seca do Bacalhau. Depois, apanhávamos as carreiras do Cura, com os seus bancos de madeira.
Em 1958, saí sozinho de casa sem dizer nada à “criada”, a Esperança, que tomava conta de mim, dos meus irmãos e da minha avó materna, que era viúva e sofria de demência senil. Tomei essa iniciativa porque o resto da família tinha ido a Viana visitar o meu pai, que fora operado no dia anterior. Sabia que ele estava no Pavilhão Cirúrgico — que até se avistava da nossa eira —, no quarto número quatro, segundo ouvia a família comentar. Entrei pela lateral do caminho de ferro, passei mesmo por baixo da ponte, pelo lugar do C.F., e cheguei à passagem de Santo António. Ali parei e bebi água no fontenário. Fui subindo a calçada de Valverde e as escadas, atravessando a estrada de Santa Luzia. Lá chegado, entrei no dito pavilhão e abri a porta do quarto, onde já se encontrava muita família em redor do meu pai. Surpreendi-os a todos, que queriam saber como ali tinha conseguido chegar sozinho. Tive a sorte de regressar de comboio, confortado por ver o meu pai vivo, embora debilitado no período pós-operatório.
Deixei a minha terra em 1959. Tinha passado a infância a conciliar a minha hiperatividade com momentos de contemplação da cidade de Viana, a partir da casa dos meus pais. Já sentia saudades dos momentos que nela passava; naquela altura, contemplá-la dali era fácil, mas hoje tornou-se impossível a partir do mesmo local.
Nos dois primeiros anos no Seminário, as saudades da família eram muitas, mas também tinha saudades da minha terra, dos jovens da minha idade, de toda a gente da minha freguesia, das gentes e de muitas famílias que conhecia desde tenra idade, bem como da minha capital de distrito e da sua paisagem. Guardava tudo no coração, cheio de vontade de voltar nas férias. Talvez por isso tenha tomado a iniciativa — e naquela altura não era fácil para um rapaz — de alugar uma camioneta para trazer os vianenses mais depressa para casa. Ao sinal de saída para férias, todos corriam com as suas malas para ocupar um lugar no referido autocarro da Empresa Magalhães, mesmo à porta do Seminário. Faziam-no sob o olhar de soslaio e severo dos superiores e perante algumas palavras de desdém dos colegas de outras regiões. Pelo caminho, fazíamos uma grande festa, própria da nossa idade, movidos por uma vontade forte e contagiosa de chegar a Viana o mais depressa possível, pois era a terra do nosso coração.
Nas férias, tentava restabelecer-me, procurando encontrar os amigos e amigas da terra que me viu nascer. Organizava passeios até ao rio Lima, a nossa praia. Por exemplo, com um pacote de bolachas, convidava os jovens de Mazarefes a jogar contra os de Darque numa veiga junto à Pontelha, um local hoje bastante transformado em relação àquela época. Era ali que muitos aprendiam a nadar. Na praia fluvial de S. Simão passavam-se as mais diversas peripécias. Juntamente com os meus amigos mais próximos, fazia descobertas desde o rio Lima até Sabariz, passando pelo “Barco do Porto” e pelo “Cais Velho”. Eram o Mário da Meira, o José Maria Cunha, o José Augusto Barbosa, o seu irmão Manuel e todos aqueles e aquelas que a nós se juntassem; recordo também o José Amado Santos Lima e o Armando Lima, entre muitos outros. O Armando Lima chegou a construir um barco para andar no rio. Organizei encontros de férias em magustos, no mês de dezembro, com seminaristas de Viana e, num determinado ano, almoçámos todos na Casa do Povo, no verão. Fizemos passeios de bicicleta e muitas outras atividades que, de momento, a memória já não me alcança.
À medida que os anos iam passando, adaptei-me melhor ao Seminário. Contudo, na hora de partir para Braga, precisava de respirar fundo, porque Viana continuava a ser o meu grande sonho. Alimentei a chama da Colónia Vianense, que existia desde 1940 a favor da criação da Diocese. Isso quase me custou caro: como já era diácono e tinha terminado a Teologia, o Arcebispo de Braga ameaçou-me que não me ordenaria se eu levasse por diante o programa da celebração dos quarenta anos da Colónia de Viana. A festa acabou por se realizar em 1971, o ano em que concluí o curso, contou com a participação de sacerdotes — dos mais novos aos mais velhos —, antigos ex-seminaristas e seminaristas da época. Nesse dia, enviámos um telegrama ao Papa Paulo VI com uma saudação de todos, afirmando que estávamos ao seu lado. Quem me valeu foi o Monsenhor Daniel Machado, Vigário Episcopal do Arcebispo em Viana, que assumiu toda a responsabilidade.
O que mais me agradou em Braga, durante os estudos de Filosofia e Teologia, foi o trabalho que desenvolvi com os reclusos, os doentes e os ciganos; foram eles que terminaram de incendiar a minha vocação ao sacerdócio. Assim, fui ordenado um ano depois, a 9 de Julho e, a 2 de Outubro de 1972, assumi as paróquias de quatro freguesias: Dem e as três Argas. O meu coração, afinal, estava em Viana, mesmo sem ter sido colocado na cidade — algo que nunca quis e nunca acei¬tei de bom grado. Fui convencido pelo Padre Pedreira a dizer "sim" a D. Júlio, após seis anos de uma experiência única no meio de gente mais simples e mais generosa. Pensei que vinha para ficar cerca de cinco anos, mas ainda hoje aqui estou, na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, feliz, embora doente.
A minha inteligência limitada
A minha inteligência não é capaz de atingir aquilo a que gostaria de chegar, mas como ninguém me pode prender o pensamento ou tirar-me a liberdade de escrever o que penso, vou fazê-lo com a certeza de que vou “errar”, pois não sou formado em línguas, embora tenha estudado sete, entre elas o latim, o grego e o hebraico. Mas prefiro dizer “tá-tá” como uma criança a rugir como um primata.
Quando, em Coimbra, fiz um exame de linguística portuguesa, tirei uma nota exemplar, mas creio que foi mais pela informação que forneci à Professora sobre a evolução do galaico-português e dos paralelismos existentes actualmente na Serra d’Arga. É por isso que não posso deixar de escrever porque, se errar, alguém me deve corrigir — e é saudável aprender até morrer.
Há oito milhões de anos, os primatas não falavam; apenas usavam a linguagem gestual e produziam ruídos, barulhos trabalhados, usando o esófago e a garganta até chegarem aos sons guturais (ummm, gutural nasal…). Aí começaram e evoluíram, passando aos palatais, aos dentais e aos labiais. A evolução foi lenta e só o Homo Sapiens conseguiu ir mais longe… Quase todas as línguas têm uma tonalidade diferente, segundo as influências dos colonos. Os indígenas tinham a sua própria linguagem e a adaptação aos colonos foi uma evolução muito lenta, com mais ou menos rapidez, com mais ou menos boa vontade, com mais ou menos resistência…
Se os primatas, a pouco e pouco, foram descobrindo o “x”, o “h” e o “a” (vogal), a primeira letra que o homem pronuncia com sofrimento (com dor) é o “a”, e com alegria e liberdade quando se sente “fora da cuba”. Depois de chegar às palatais com o “g”, “q” e “y” (semivogal), descobre o uso da língua para pronunciar “j”, “t”, “d”, “g” e “l”, até chegar às dentais sibilantes “c”, “t”, “v”, “s” e “z”, e às labiais como o “p”, “b” e “m”. Mas as guturais, com esta mistura toda — usando os dentes, os lábios, a garganta, o palato e não esquecendo a língua —, descobriram algumas intermédias: dental-labial, dental-palatal ou a posição de ambas ou mais... Há uma letra palatal-lingual que é o “r”, existente no alfabeto latino e grego, mas poucos o usam como o português, sobretudo o “r” dobrado (“rr”) ou no princípio das palavras. Há alfabetos que nem sequer o conhecem, mas o hebraico tinha o resh (ר), assim como o grego tinha o rhó (ρ).
Hoje em dia, quem tenha sofrido a extracção de alguns elementos da garganta consegue falar de boca fechada através da traqueia, dizendo algo que se faz entender. É uma questão de afinação, ressonância, controlo, volume, treino e exercício… Falam com regularidade, guturalmente. De qualquer modo, a primeira linguagem de relacionamento entre os humanos deve ter sido a gestual, até chegar à exofágico-gutural e, finalmente, à labial.
A primeira necessidade de fonia terá sido o “sim” e o “não”. Daí veio a divisão da luz e da escuridão, do dia e da noite, da terra e da água, dos rios e dos mares, das plantas e das não plantas, do animal e do Homem, do homem e da mulher. Uma coisa é, outra não é. Uma é sim, outra é não. Lá está o sim e o não: o que é água não é terra, o que é terra não é água; o que é animal com instinto não é animal inteligente; o que é homem não é mulher, mas ambos são imagem e semelhança de Deus, iguais em direitos e dignidade, a última criação com capacidade para gerir este jardim maravilhoso que é o mundo — com o planeta Terra e o que não é terra, com o sol e com a lua (que não é sol), o trabalho que não é descanso. O autor bíblico lá teve a sua inspiração para falar da criação e da linguagem.
Esta luta constante evolutiva chegou a um impasse... Quando os homens quiseram chegar ao céu construindo a Torre de Babel. Como não conseguiram, todos fugiram, formando os clãs e as tribos, e cada um começou a falar a sua língua e a construir, egoisticamente, o seu projecto. Agora andamos atrás das origens de uma língua comum e dizemos: nós fomos límicos, iberos, celtiberos, lusitanos... e antes? Fomos colonizados e invadidos tantas vezes, mas ganhámos força, garra e coragem. Chegou também a altura de os portugueses irem à descoberta do mundo para levar a fé, a cultura e a nossa língua, uma das mais faladas no mundo. Parece-me que é a terceira, mas até quando? Vem a influência inglesa, outra colonização linguística, e, por fim, há de vir a chinesa. Por isso, parece valer pouco pensarmos em querer descobrir mais, porque nada temos para dar e temos tudo a receber.
A articulação dos fonemas, da fala, foi, antes de tudo, uma expressão de sons musicais. Para isso, humanos e não humanos, não precisamos de ir às “cantigas de amigo”; podemos ainda observar, em algumas romarias ou festas, os cantares populares, as cantigas ao desafio, etc., no meio dos humanos, porque os outros animais o fazem por instinto e não evoluíram como nós fomos capazes. Os animais de grande porte, normalmente, usam sons guturais (por exemplo, o mugir da vaca) e quase a totalidade dos mamíferos usa sons guturais nasalizados (nasais), assim como a maioria dos pássaros emite sons sibilantes, como o melro; mas uns e outros são como os homens. O homem foi mais longe pela sua inteligência e até levamos os animais a entender instintivamente muita da nossa linguagem para podermos ser senhores, donos e ordenadores da obra da criação de Deus, que nunca devia ser para destruir, mas sim para construir. Deus criou a natureza e toda ela era boa, mas, às vezes, o ser humano — a quem Deus deu inteligência para continuar a obra da criação — parece querer destruir, mesmo quando reproduz electronicamente o cantar dos grilos, uma vez que estes estão a desaparecer devido aos “venenos” lançados nas terras.
Aqueles que, devido a um AVC, ficam sem voz, dizem sempre algo, ainda que seja de boca fechada: o “nh” (ñ) gutural prolongado, alongado, tanto para dizer sim como para dizer não. Depende da ocasião e do gesto que o acompanha com a cabeça ou com a mão, por exemplo... Há pessoas que conseguem recuperar formas e sílabas, e chegam a pronunciar palavras... a falar normalmente. Outra experiência é notar os bebés a falar para si mesmos sem que ninguém os entenda: as primeiras letras, as primeiras sílabas, as primeiras palavras e as dificuldades em pronunciar o “r”, tanto no princípio das palavras como no meio, quando dobrado, em que se tem de pronunciar levantando o corpo ou a base da língua, enrolando-a ou fazendo um som retroflexo com a ponta da língua (“rr”) no palato. Não acontece tanto no “r” final.
Tantos lutam pela pureza da língua. Como acontece no Vale do Lima com o Dr. José Luís Branco em “A bem da língua portuguesa”; mas dá a impressão de que é melhor esquecer e deixar andar, porque estamos no tempo de andar com o boné na mão, estendido à caridade... Voltados para os estrangeirismos, porque não parece ser do interesse político defender a pureza da língua. Afinal, os senhores doutores já não estudaram latim nem grego e, para esses, vale tudo... Não existe uma Academia Nacional de Língua Normativa para defender a pureza da linguagem e evitar a invasão da língua inglesa, ou de outras, dizia-me um amigo meu.
Um dia, conversando com outro amigo, estávamos de acordo que viemos de um tronco comum. A rama e as folhas é que se dividiram e, na linguagem, andamos à procura do tronco, por aqui e por acolá. Descobrimos pontos de encontro que nos deixam “pasmados” ou, melhor diria, certos de uma harmonia preexistente muito mais rica. Acreditamos numa civilização superior em que o homem já tenha feito a terra.
A Bíblia, ao falar da criação do mundo por um autor inspirado, escreveu-a ao seu jeito, conforme entendia que Deus tinha criado as coisas. O autor tinha uma ideia muito reduzida do mundo, tão curta como o horizonte entre duas montanhas, as colunas do céu. A linguagem surgiu da necessidade de relações e da evolução dos sons musicais: do ribombar do trovão, dos sons guturais, do toque do tambor, da urgência de expressar emoções, sentimentos, sensibilidades, afectos, etc... Enquanto foi evoluindo até ao assobio ou às letras sibilantes (dentais, palatais e labiais). Quando alguém geme (o “ñ”/“nh” alongado), é uma linguagem sempre igual para quem já não fala, usada para mostrar que sofre, que tem dor ou para dizer “sim” ou “não”, acompanhada de um gesto, perante qualquer coisa. 2003
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário