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quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Pastoral das Periferias
Pastoral das Periferias
Sou padre. Parece que já é demais falar de mim, mas gostaria apenas de partilhar uma breve reflexão pessoal com todos os amigos e leitores deste jornal. Peço-vos desculpa, mas aqui fica este testemunho de alguém que talvez não conheçam profundamente.
Reflicto sobre o coração sacerdotal e a nova evangelização na Europa e no mundo, inseridos no meio do materialismo e do consumismo em que vivemos. Para mim, isso nunca foi um obstáculo, pois ter muitas coisas nunca foi o meu objectivo. O que possuo é apenas património de família. Sempre fui pároco e professor… não tenho nada de meu!
Estudei, trabalhei e abdiquei de paixões antigas que muito me prendiam. A primeira delas foi a pintura, a óleo e a aguarela. Esta arte levou-me a frequentar as aulas do Mestre Luís Campos, em Braga, e fez-me voar até Barcelona para participar em exposições com apenas 18 anos. Contudo, entendi que era melhor trocar as telas pelo trabalho pastoral que estava a desenvolver. Foi à sombra da Virgem Nossa Senhora das Graças que comecei a trabalhar com a comunidade cigana da Ponte (zona perto da capela de S. João e do Estádio 28 de Maio, em Braga).
Após algum tempo a dinamizar a catequese para crianças e jovens ciganos na Capela de S. João da Ponte, consegui reunir esta comunidade com as do Picoto, de Famalicão e da Póvoa de Varzim para, juntos, irmos em Peregrinação ao Sameiro. Foi uma grande conquista, presidida pelo Cónego Quintas Neves, então responsável diocesano da Pastoral dos Ciganos.
Ao mesmo tempo, trabalhava com os doentes do Hospital de S. Marcos e com o grupo da Legião de Maria desse mesmo hospital, muitas vezes em prejuízo das minhas próprias horas de estudo em Teologia. Num verão, cheguei a expandir o movimento da Legião de Maria até Abrantes e a várias aldeias de Portalegre e Castelo Branco.
Os reclusos da cadeia de Braga eram os meus predilectos. Não resistia a visitá-los e a pô-los a trabalhar. Dessa iniciativa nasceu um jornalista que viria a ser director de um jornal regional e colaborador em muitos outros — creio que ainda continua no activo, pois li recentemente um artigo com a sua assinatura. Bem-haja! Para os reclusos, organizei festas aos domingos à tarde e bailes, tendo inclusive levado, numa ocasião, as alunas do Colégio do Sagrado Coração de Maria para conviverem.
Vivi anos felizes no seminário. Aprendi muito, tanto na teoria como na prática. Já nessa altura me dedicava à oração e ao trabalho, aceitando com paciência as críticas ou "catanadas" dos colegas e superiores. No 4.º ano de Humanidades (actual 8.º ano), organizei uma camioneta para que os seminaristas de Viana do Castelo regressassem todos juntos para férias; ao toque da sineta, a porta abria-se e todos saíam, uns mais depressa, outros mais devagar. Também realizava passeios de bicicleta e encenava pequenas peças em Mazarefes, às vezes contra a vontade do Cónego Luciano dos Santos, reitor de Santiago. Foi em Santiago que assumi o compromisso de Legionário de Maria, passando a Vicentino na Teologia e a Caminheiro no Escutismo.
Trago em mim os genes dos meus pais, pessoas trabalhadoras. Desde a escola primária que não tive a vida que uma criança normal tem hoje. Trabalhava no campo, muitas vezes por iniciativa própria, e gostava de apresentar o trabalho feito. A oração sempre me acompanhou, desde a infância até aos dias de hoje. No meu caminho, fiz de tudo um pouco: trabalho doméstico, trolha, pintor, carpinteiro e decorador, além da jardinagem no quintal de casa.
Mas deixei tudo. Abandonei a pintura e entreguei-me sem reservas à pastoral dos doentes, dos ciganos e dos presos. Estagiei em Balazar e na Casa dos Rapazes e vivi seis anos na Serra d’Arga, servindo quatro freguesias. Dali, vim parar à Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, nomeado por obediência pelo Senhor D. Júlio Tavares Rebimbas. A paróquia foi-me entregue em 2 de Setembro de 1978, pelo Padre José Pedreira, hoje nosso Bispo.
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