AVISO

Meus caros Leitores,

Devido ao meu Blog ter atingido a capacidade máxima de imagens, fui obrigado a criar um novo Blog.

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segunda-feira, 7 de junho de 2010

O ano sacerdotal e as realidades da vida de um sacerdote diocesano

Critérios para um renovado ministério dos padres








Durante um ano - desde 19 de Junho de 2009 até 11 de Ju¬nho de 2010 - a Igreja cató¬lica tentou reflectir sobre a vocação, o ministério e a compreensão sócio/ /eclesial do ser padre... hoje.






Houve muitas iniciativas, aIgumas delas saídas do âmbito eclesiástico, com um certo sabor a auto-promoção, outras com teor de defesa e outras ainda com intenções saudosistas de um certo modelo de padre.- com a colaboração de alguns clérigos e de uns tantos leigos.

Agora que está prestes a terminar o 'ano sacerdotal' como que nos surgem várias inquietações, tento sobre o futuro - sobretudo na temática que há-de dinamizar a Igreja universal - como sobre as consequências que nos fica¬ram deste ano mais ou menos intenso da Igreja católica.

Sobre o primeiro aspecto - o do futuro - ousamos sugerir que o Papa pos¬sa lançar um 'ano de São João', pois, à semelhança de São Paulo, aquele eminente apóstolo e evangelista anda um pouco desconhecido da teologia, da reflexão e da espiritualidade dos nossos cristãos e mesmo dos responsáveis da Igreja. Seria muito útil e necessário dedicarmos um ano a estudar São João, tanto na versão do evangelho como na dimensão do apocalipse e cartas.

Relativamente àquilo que nos fica do 'ano sacerdotal'- para além de alguns lugares comuns, que pouco mais serviram do que para acirrar um certo clericalismo de acção e de intenção - fomos sentindo que falta inte¬resse em abordar, de verdade, aspectos que atingem os actuais padres e aqueles que se sentem chamados ao serviço de Deus, na Igreja, pelo ministério sacerdotal.

Eis breves perguntas, que, posterior¬mente, tentaremos responder

* Como é cuidado o acompanhamento humano, psicológico e espiritual dos padres no exercício das suas funções, sobretudo, paroquiais?

•Teremos comunidades cristãs onde o padre se sinta homem de Deus mais do que gestor de coisas humanas (talvez mais mundanas) que podiam ser exercidas por não clérigos?

*Temos sabido fazer surgir condições mínimas nas paróquias ou nos outros sectores da vida pastoral para que os padres se sintam estimados mais do que tolerados pela necessidade sacramentalista de carte social?

* Mesmo na dimensão económica, com especificidade evangélica, teremos encontrado desafios de partilha ou ter-nos-emos acomodado a sistemas de pagamento de serviços mais ou menos concordantes com a compreensão de cada lugar ou tempo?

Passaremos, agora, a esmiuçar cada um destes itens.

Acompanhamento dos padres em funções paroquiais

De facto, um padre, sobretudo, em funções paroquiais é um celibatário solitário. Já lá vai o tempo, como dizia Camilo Castelo Branco, em que uma irmã se casava com o celibato do irmão padre. Hoje é, normal, vermos um padre sozinho que cuida desde a alimentação (comprar, cozinhar e comer... a sós) até às mais elementares regras da gestão de uma casa, como se fosse um 'dono de casa'. Ora, digo por mim, o Seminário não deu noções de gestão doméstica. Temos de aprender ou, então, andamos a reboque de que quem seja mais ou menos generoso e nos faça algo de boa vontade ou a baixo preço.

O pior é a solidão com que tantas vezes nos temos de confrontar dentro das paredes de uma casa paroquial. Tristemente o dizemos: muitos e muitas dos que nos rodeiam não são gente de grande confiança, tanto ao nível humano (a cultura e a instrução deixa um pouco a desejar), como na dimensão espiritual (muitos e muitas abeiram-se do padre com múltiplas intenções... sobretudo para se promoverem diante dos outros paroquianos) e, por vezes, se nos damos com alguém, outros e outras ficam na retranca, na maledicência e, desgraçadamente, na coscuvilhice...

Sugerimos, por isso, que seja incentivado, desde a educação dos padres e, posteriormente, na vida pastoral, a que possa haver, ao menos, um casal -sensato, equilibrado, de boa formação humana, intelectual e espiritual - que possa enquadrar a vida do padre, dentro ou fora do espaço paroquial, mas com quem ele possa desabafar - há coisas que nos ocupam interiormente porque não temos com quem as partilhar! - e até vivenciar uma simples refeição, onde o comer não é razão mas oportunidade de sentir-se aconchega¬do e acompanhado.

Basta de heróis secos e de solteiros rezingões. Basta de padres tristes e amargurados. Basta de padres anódinos de afectos e em busca de compensações afectivo/emocionais. Basta de tanto desinteresse, pois se os padres não forem felizes (por dentro) não ajudarão os outros (por fora) a viverem na fidelidade a Deus... na Igreja.

Gestão de coisas mundanas ou força espiritual?

No actual contexto de gestão paroquial - onde o ónus do trabalho e da responsabilidade cai, essencialmente, sobre o pároco (seja qual for a capacidade de desenvolvimento dos projectos) duma forma exigente e moralmente atroz - torna-se fundamental que sejam avaliadas as possibilidades de centrar o padre na sua função de mestre (pai ou irmão) espiritual, libertando-o das tarefas administrativas e organizando os serviços com pessoas capazes dentro da qualidade humana, técnica e, sobretudo, espiritual/cristã.

Sabemos que estes desideratos não são fáceis nem, muitas vezes, exequíveis a curto e a médio prazo. Mas te¬mos de investir na promoção de pes¬soas adultas na idade e na fé, pois com certos aduladores/as não sairemos da gestão de conveniências mais ou me-nos controladas! Torna-se, por isso, urgente que saibamos gerar, mais do que gerir, novos cristãos convertidos à Pessoa de Jesus», continuamente.

Dinâmica de evangelização pelo compromisso com os valores do Evangelho

Muitos dos actos do padre são mais questões de carácter social do que situações de vivenda em favor dos outros, pelos outros e para os outros. Muitos/ /as daqueles/as que se aproximam da igreja - paroquial ou menos formal -vêm em busca da solução de problemas imediatos, mais do que em razão de quererem crescer na caminhada da fé. Raramente quem procura o padre é para aprofundar - activamente ou pondo-se ao serviço dos outros - as razões da sua fé. Enquanto estivermos (como que) reduzidos a sermos uma espécie de estação de conveniência pouco ou nada faremos pela evangelização séria e consistente.

Urge que tenhamos bons cristãos para termos melhores padres Urge que saibamos promover a família com dignidade para poderem surgir padres bem alicerçados no Evangelho.

O caminho tem de ser feito connosco e para aqueles a quem Deus nos enviar.
                                        De A. Sílvio Couto, sobre o ano sacerdotal- in Diário do Minho de 07/06/2010

A transcrição deste texto vale para mim os muitos e variados tipos de reflexão que deviam ser explorados e escutar o Espírito Santo. Há realidades apontadas que não estou de acordo totalmente.

O Papa eo Médio Oriente

Papa lança em Chipre desafios ao Médio Oriente


__Chipre está numa das rotas usadas por peregrinos judeus e cristãos de e para Jerusalém, sendo também um ponto de passagem entre Este e Oeste e entre Ásia e Europa É aí que hoje o Papa Bento XVI preside a uma missa durante a qual apresentará o instrumento de trabalho da Assembleia Especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos, que decorrerá em Roma, em Outubro próxima A viagem do Papa começou an-teontem e terrnina hoje. O país tem apenas 25 mil católicos, pouco mais de 3% da população, estimada em 800 mil habitantes. O território acolhe uma diocese e 13 pa-róquias, que têm ao seu serviço dois bispos, 12 padres diocesanos e 18 pertencentes a congregações, 12 religiosos e 42 religiosas. A Igreja Católica é responsável por 18 es-colas primárias e pré-primárias, e quatro do ensino secundário, frequentadas por cerca de 6300 estudantes, além 12 unidades de saúde. A Igreja Católica tem ali uma expressão menor, mas é um ponto estratégico para o Médio Oriente que vai merecer análise no Sínodo dos Bispos. È uma região em que cristãos, judeus e muçulmanos, se vivessem em paz, colaborariam para um efectivo desenvolvimento solidário.

Do ponto de vista do diálogo ecuménico, a viagem de Bento XVI foi marcada pela visita à sede arquidiocesana ortodoxa de Nicósia, onde o Papa almoçou com o arcebispo Crisóstomo II. A Igreja Ortodoxa Cipriota assinala que a visita de Bento XVI é um "sinal de amor e fraternidade" e uma oportunidade para apresentar a sua "longa experiência de multiculturalismo, mostrando como católicos, ortodoxos e muçulmanos podem viver juntos apesar das diferenças religiosas". ruiosorio@tugamail.pt- in JN de 06/06/2010

sábado, 5 de junho de 2010

Uma Pastoral diferente



Para tudo, é preciso escutar a voz do Espírito. Sem que cada um de nós se alimente com a força da oração e da escuta da palavra e do Espírito, não pode imprimir vida nova e bela à nossa própria vida e muito menos seremos testemunhos autênticos de um Cristo vivo. Não seremos nada dinâmicos, nem criativos, vivendo ao ritmo da rotina, do relógio, do calendário a passar tempo!...







Uma Pastoral diferente




Quem muito fala, muito erra, diz o povo. O mesmo se pode dizer que quem muito escreve muito erra. Erra porque sem querer pode falsear ou tornar a verdade pouco clara até pela má colocação de uma vírgula, ou ainda escrever com erros ortográficos.

Esta é só mais uma reflexão há muito interpelada por mim. Enquanto não for feito um estudo sociólogo-pastoral sobre a pastoral da diocese, será complicado definir zonas de pastoral, divisão de arciprestados, união de paróquias ou de Comunidades.

Estou há 32 anos na Paróquia e nunca foi possível até hoje criar-se na cidade uma pastoral global, nem os párocos da cidade se reunem mês a mês, e não são muitos, mas só quando há vontade...

As iniciativas tomadas por nós têm sido mais ou menos goradas. A “formação Cristã de Adultos” a decorrer em Carreço e no Socorro este previsto fazer-se na cidade, seguindo o mesmo método, mas...cala...meche com algumas transformações nos leigos e nos padres...

Quantas paróquias da diocese têm Conselho Paroquial de Pastoral, de onde devia sair um Conselho Pastoral Diocesano?...

Criar e nomear grupos coordenadores ou globalizadores é fácil. Os fiéis leigos estão preparados para isso?

Alguns até estão sempre prontos a protagonizar...mas com um fundamentalismo intragável nesta civilização; quando a nossa missão é serviço.

Há, em primeiro lugar necessidade de estudo sociológico-pastoral em toda a diocese que tem a ver com a cultura de cada zona, de cada região e de cada Paróquia, caso contrário, é como chegar ao Brasil e acabar com as comunidades de base, onde nasceram. É por isso que alguns dizem não fazer falta padres, mas o que eu creio é que faltam Sacerdotes, como falta corresponsabilidade eclesial entre leigos e padres e padres e leigos.

O mundo é grande e nós queremo-nos limitar ao nosso cantinho... “A Messe é cada vez maior e os operários são cada vez menos!...

Todos somos baptizados em Cristo, imergidos em Cristo e os sacerdotes vêm das interpelações de Deus aos baptizados para se entregarem a uma doação maior, presidido às comunidades de fiéis, sejam presbíteros ou diáconos.

O Papa interpelou à reflexão da globalização pastoral, se assim posso afirmar, mas não mandou apressar as coisas, passando por cima de todos e de um modo particular com a área mais frágil que é aqueles que se sentem simples fiéis que não são ouvidos, nem achados, nem nunca o foram, mesmo depois do Vaticano II, a não ser para dar esmolas.

Há urgência que cresçam o número de paróquias com os Conselhos Pastorais activos e tempo para experimentar ou amadurecer. Essas terão um estatuto próprio e o Conselho Pastoral Diocesano será mais eficaz nas tomadas de decisões mais corresponsáveis, caso contrário, é afastar ou levar a todos que ainda têm um pé na Igreja que se ponham de fora a ver a marcha a passar.

Ao mesmo tempo para uma mudança mais rápida de mentalidades é preciso que o clero seja também rejuvenescido,pois mais facilmente tentará avivar a juventude e com esta chegar-se mais facilmente àquilo que é desejável.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A Felicidade faz-se de coisas simples "Gosto dos dias compridos" "Gosto de coisas simples"

Gosto dos dias compridos. Da luz do Sol que se pro¬longa até à noite. Do tempo que parece eterno. Do olhar que parece infinito.


Gosto de me deitar no chão da sala e ver da janela descerrada as cores que se misturam no céu azul de um fim de tarde quentinho. De sentir o aroma que anuncia o Verão.

Gosto de contemplar o meu filho a dormir. Gosto de o ver a acordar para a vida. Gosto de lhe mostrar o mundo pela minha mão quando caminhamos lado a lado. E eLe mostrar-me que o mundo é, afinal, muito maior do que aquilo que eu sei e conheço.

Passa um avião e ele grita de alegria como se tivesse visto uma coisa muito importante. E fica tão feliz só por o ver voar. Um dia hei-de dizer-lhe que a minha paisagem dilecta é ver um avião a descolar, um comboio a partir, um carro a ser conduzido e uns pés a ca¬minharem pela vida. Ir mais longe. Desbravar. Olhar. Tocar. Sentir. Numa palavra, viver.

Gosto de subir a uma colina só para ver o rio e levar para dentro de mim o desassossego da suave ondulação - interpela os sentidos. Gosto de subir caminhos de terra batida só para me sentar num barroco - descansa o olhar. Gosto de observar e absorver tudo o que contemplo como se estivesse diante de um quadro de Monet - um dos meus pintores favoritos. Gosto de abrir os olhos e saber que tudo o que vejo não cabe dentro de mim. Transcende-me. Vou para outro lugar procurar novos caminhos. Abro um livro e com uma lapiseira sublinho pensamentos, pa-lavras, actos e emoções que ficam comigo. Pouso o livro. Olho para o fio do horizonte e sinto-me bem. Volto a caminhar.

Gosto de regressar a casa e sentir que o mais importante da minha vida está ali concentrado naqueles metros quadrados. Gosto de afectos. Daqueles que me enchem de certezas e indicam que tudo o que faço tem um sentido.

Gosto de receber os que me fazem sentir feliz por estar na presença deles - este é um dos meus principais critérios quando escolho as pessoas que quero ter ao meu lado.

Gosto de falar e de fazer silêncio. E quando todos vão embontter a certeza que não estou nem fico sozinha. Há uns anos entrevistei o psicólogo Eduardo Sá a propósito da solidão e ele dizia que «a solidão é a ausência de pessoas dentro de nós». Quando todos partem é como se visse o tal avião a descolar car-regado de sonhos e expectativas • que se levam na bagagem. Onde eu também vou. Viajo com eles e eles viajam comigo.

Gosto de sentir que a felicidade está dentro de nós. Que não é preciso percorrer quilómetros nem milhas para correr atrás dela. Ela está mesmo aqui. Tão perto. É feita de coisas simples que não se vendem em nenhum canto do mundo - mas encontram-se algures no nosso mundo. ■ Sílvia Júlio, in Família Cristã, de Junho de 2010

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Ano Sacerdotal a chegar ao fim







PAPA BENTO XVI


AUDIÊNCIA GERAL

Praça de São Pedro, Quarta-feira,

14 de Abril de 2010

5 de Maio de 2010

26 de Maio de 2010



AS TRÊS FUNÇÕES DO SACERDOTE



(TRIA MUNERA)

I - Munus docendi

Neste período pascal, que nos guia ao Pentecostes e nos prepara também para as celebrações de encerramento do Ano sacerdotal, que terão lugar nos dias 9, 10 e 11 de Junho próximo, apraz-me dedicar ainda algumas reflexões ao tema do Ministério ordenado, detendo-me sobre a realidade fecunda da configuração do sacerdote com Cristo Cabeça, no exercício dos tria munera que recebe, isto é, dos três ofícios de ensinar, santificar e governar.

Para entender o que significa agir in persona Christi Capitis – na pessoa de Cristo Cabeça – por parte do sacerdote, e para compreender inclusive quais consequências derivam da tarefa de representar o Senhor, especialmente no exercício destes três ofícios, antes de tudo é preciso esclarecer o que se entende por "representação". O sacerdote representa Cristo. O que quer dizer, o que significa "representar" alguém? Na linguagem comum, quer dizer – geralmente – receber uma delegação de uma pessoa para estar presente no seu lugar, falar e agir no seu lugar, porque quem é representado está ausente da acção concreta. Perguntamo-nos: o sacerdote representa o Senhor do mesmo modo? A resposta é não, porque na Igreja Cristo nunca está ausente, a Igreja é o seu corpo vivo e a Cabeça da Igreja é Ele, presente e em acção nela. Cristo nunca está ausente, aliás está presente de um modo totalmente livre dos limites de espaço e tempo, graças ao evento da Ressurreição, que contemplamos de maneira especial neste período de Páscoa.

Portanto, o sacerdote que age in persona Christi Capitis e em representação do Senhor, nunca age em nome de um ausente, mas na própria Pessoa de Cristo Ressuscitado, que se torna presente com a sua acção realmente eficaz. Age de facto e realiza o que o sacerdote não poderia fazer: a consagração do vinho e do pão para que sejam realmente presença do Senhor, a absolvição dos pecados. O Senhor torna presente a sua própria acção na pessoa que realiza tais gestos. Estas três tarefas do sacerdote – que a Tradição identificou nas diversas palavras de missão do Senhor: ensinar, santificar e governar – na sua distinção e profunda unidade são uma especificação desta representação eficaz. São na verdade as três acções do Cristo Ressuscitado, o mesmo que hoje na Igreja e no mundo ensina e assim cria fé, reúne o seu povo, cria presença da verdade e constrói realmente a comunhão da Igreja universal; e santifica e guia.

A primeira tarefa sobre a qual gostaria de falar hoje é o munus docendi, isto é, ensinar. Hoje, em plena emergência educativa, o munus docendi da Igreja, exercido concretamente através do ministério de cada sacerdote, resulta particularmente importante. Vivemos numa grande confusão acerca das escolhas fundamentais da nossa vida e das interrogações sobre o que é o mundo, de onde vimos, para onde vamos, o que devemos fazer para fazer o bem, como devemos viver, quais são os valores realmente pertinentes. Em relação a tudo isto existem muitas filosofias contrastantes, que nascem e desaparecem, criando confusão sobre as decisões fundamentais, como viver, porque já não sabemos, comummente, do que e para que somos feitos e para onde vamos. Nesta situação realiza-se a palavra do Senhor, que teve compaixão da multidão porque eram como ovelhas sem pastor (cf. Mc 6, 34). O Senhor tinha feito esta constatação quando viu os milhares de pessoas que o seguiam no deserto porque, na diversidade das correntes daquele tempo, já não sabiam qual fosse o verdadeiro sentido da Escritura, o que dizia Deus. O Senhor, movido pela compaixão, interpretou a palavra de Deus, ele mesmo é a palavra de Deus, e assim deu uma orientação. Esta é a função in persona Christi do sacerdote: tornar presente, na confusão e na desorientação dos nossos tempos, a luz da palavra de Deus, a luz que é o próprio Cristo neste nosso mundo. Por conseguinte, o sacerdote não ensina as próprias ideias, uma filosofia que ele mesmo inventou, encontrou ou que gosta; o sacerdote não fala de si mesmo, não fala por si mesmo, talvez para criar admiradores ou um partido próprio; não diz coisas próprias, invenções suas mas, na confusão de todas as filosofias, o sacerdote ensina em nome de Cristo presente, propõe a verdade que é o próprio Cristo, a sua palavra, o seu modo de viver e de ir em frente. Para o sacerdote vale o que Cristo disse sobre si mesmo: "A minha doutrina não é minha" (Jo 7, 16); isto é, Cristo não se propõe a si mesmo, mas, como Filho, é a voz, a palavra do Pai. Também o sacerdote deve sempre dizer e agir assim: "a minha doutrina não é minha, não difundo as minhas ideias ou o que me agrada, mas são boca e coração de Cristo e torno presente esta única e comum doutrina, que criou a Igreja universal e que cria vida eterna".

Este facto, que o sacerdote não inventa, não cria e não proclama ideias próprias porque a doutrina que anuncia não é sua, mas de Cristo, por outro lado, não significa que ele seja neutro, quase como um porta-voz que lê um texto do qual, talvez, nem se apropria. Também neste caso, vale o modelo de Cristo, que disse: Eu não sou para mim e não vivo para mim, mas venho do Pai e vivo para o Pai. Portanto, nesta identificação profunda, a doutrina de Cristo é a do Pai e Ele mesmo é um só com o Pai. O sacerdote que anuncia a palavra de Cristo, a fé da Igreja e não as próprias ideias, deve dizer também: Eu não vivo por mim e para mim, mas vivo com Cristo e para Cristo e portanto tudo aquilo que Cristo nos disse torna-se a minha palavra não obstante não seja minha. A vida do sacerdote deve identificar-se com Cristo e, deste modo, a palavra não própria torna-se, contudo, uma palavra profundamente pessoal. Santo Agostinho, sobre este tema, falando acerca dos sacerdotes, disse: "E nós o que somos? Ministros (de Cristo), seus servidores; porque o que distribuímos a vós não é nosso, mas tiramo-lo da sua despensa. E inclusive nós vivemos dela, porque somos servos como vós" (Discurso 229/e, 4).

O ensinamento que o sacerdote é chamado a oferecer, as verdades da fé, devem ser interiorizadas e vividas num intenso caminho espiritual pessoal, de forma que realmente o sacerdote entre numa profunda, interior comunhão com o próprio Cristo. O sacerdote crê, acolhe e procura viver, antes de tudo como próprio, quanto o Senhor ensinou e a Igreja transmitiu, naquele percurso de identificação com o próprio ministério do qual São João Maria Vianney é testemunha exemplar (cf. Carta para a proclamação do Ano sacerdotal). "Unidos na mesma caridade – afirma ainda Santo Agostinho – todos somos auditores daquele que é para nós no céu o único Mestre" (Enarr. in Ps. 131, 1, 7).

Por conseguinte, com frequência a voz do sacerdote poderia parecer "a de um que grita no deserto" (Mc 1, 3), mas exactamente nisto consiste a sua força profética: em nunca ser homologado, nem homologável, a alguma cultura ou mentalidade dominante, mas em mostrar a única novidade capaz de produzir uma autêntica e profunda renovação do homem, ou seja, que Cristo é o Vivente, é o Deus próximo, o Deus que age na vida e para a vida do mundo e nos doa a verdade, o modo de viver.

Na preparação atenta da pregação festiva, sem excluir a dos dias úteis, no esforço de formação catequética, nas escolas, nas instituições académicas e, de modo especial, através daquele livro não escrito que é a própria vida, o sacerdote é sempre "professor", ensina. Mas não com a presunção de quem impõe as próprias verdades, mas com a humilde e jubilosa certeza de quem encontrou a Verdade, foi capturado e transformado por ela, e por conseguinte não pode deixar de a anunciar. Com efeito, ninguém pode escolher o sacerdócio por si mesmo, não é um modo para alcançar a segurança na vida, para conquistar uma posição social: ninguém pode obtê-lo nem procurá-lo sozinho. O sacerdócio é resposta ao chamamento do Senhor, à sua vontade, para se tornar anunciadores não de uma verdade pessoal, mas da sua verdade.

Queridos irmãos sacerdotes, o Povo cristão pede para escutar dos nossos mestres a genuína doutrina eclesial, através da qual se possa renovar o encontro com Cristo que doa a alegria, a paz e a salvação. A Sagrada Escritura, os escritos dos Padres e dos Doutores da Igreja e o Catecismo da Igreja Católica constituem, a este propósito, pontos de referência imprescindíveis no exercício do munus docendi, tão essencial para a conversão, o caminho de fé e a salvação dos homens. "Ordenação sacerdotal significa: estar imersos (...) na Verdade" (Homilia da Missa Crisma, 9 de Abril de 2009), aquela Verdade que não é simplesmente um conceito ou um conjunto de ideias a transmitir e assimilar, mas que é a Pessoa de Cristo, com a qual, pela qual e na qual viver e assim, necessariamente, nasce também a actualidade e a compreensão do anúncio. Só esta consciência de uma Verdade feita Pessoa na Encarnação do Filho justifica o mandato missionário: "Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a humanidade" (Mc 15, 16). Só se se trata da Verdade ela está destinada a toda a humanidade, não é uma imposição de algo, mas a abertura do coração àquilo pelo qual se foi criado.

Queridos irmãos e irmãs, o Senhor confiou aos Sacerdotes uma grande tarefa: ser anunciadores da Sua Palavra, da Verdade que salva; ser a sua voz no mundo para levar aquilo que beneficia o bem verdadeiro das almas e o autêntico caminho de fé (cf. 1 Cor 6, 12). São João Maria Vianney seja exemplo para todos os Sacerdotes. Ele era homem de grande sabedoria e heróica força ao resistir às pressões culturais e sociais do seu tempo para poder guiar as almas para Deus: simplicidade, fidelidade e proximidade eram as características essenciais da sua pregação, transparência da sua fé e da sua santidade. O Povo cristão era edificado e, como acontece para os autênticos mestres de todos os tempos, reconhecia nele a luz da Verdade. Em definitiva, reconhecia nele o que se deveria reconhecer sempre num sacerdote: a voz do Bom Pastor.

II - Munus sanctificandi

Na minha Visita Pastoral a Turim, tive a alegria de me deter em oração diante do Santo Sudário, unindo-me aos mais de dois milhões de peregrinos que, durante a solene Ostensão destes dias, puderam contemplá-lo. Aquele santo Pano pode nutrir e alimentar a fé e revigorar a piedade cristã, porque encoraja a orientar-se para o Rosto de Cristo, para o Corpo de Cristo crucificado e ressuscitado, a fim de contemplar o Mistério pascal, centro da Mensagem cristã. Do Corpo de Cristo ressuscitado, vivo e activo na história (cf. Rm 12, 5) nós, queridos irmãos e irmãs, somos membros vivos, cada qual segundo a própria função, ou seja, com a tarefa que o Senhor quis confiar-nos. Hoje, nesta catequese, gostaria de reflectir de novo sobre as tarefas específicas dos sacerdotes que, segundo a tradição, são essencialmente três: ensinar, santificar e governar. Numa das catequeses precedentes falei sobre a primeira destas três missões: o ensino, o anúncio da verdade, o anúncio do Deus revelado em Cristo, ou – com outras palavras – a tarefa profética de pôr o homem em contacto com a verdade, de ajudá-lo a conhecer o essencial da sua vida, da própria realidade.

Hoje, gostaria de reflectir brevemente convosco sobre a segunda tarefa que o sacerdote tem, a de santificar os homens, sobretudo mediante os Sacramentos e o culto da Igreja. Aqui devemos perguntar-nos antes de tudo: o que quer dizer a palavra "Santo"? A resposta é: "Santo" é a qualidade específica do ser de Deus, ou seja, absoluta verdade, bondade, amor e beleza – luz pura. Portanto, santificar uma pessoa significa colocá-la em contacto com Deus, com este seu ser luz, verdade, amor puro. É óbvio que este contacto transforma a pessoa. Na antiguidade havia esta firme convicção: ninguém pode ver Deus sem morrer imediatamente. A força da verdade e da luz é demasiado grande! Se o homem toca esta corrente absoluta, não sobrevive. Por outro lado, havia também esta convicção: sem um contacto mínimo com Deus, o homem não pode viver. Verdade, bondade e amor são condições fundamentais do seu ser. A questão é: como pode o homem encontrar aquele contacto com Deus, que é fundamental, sem morrer esmagado pela grandeza do ser divino? A fé da Igreja diz-nos que o próprio Deus cria este contacto, que nos transforma gradualmente em verdadeiras imagens de Deus.

Assim, chegamos de novo à tarefa do sacerdote de "santificar". Nenhum homem por si mesmo, a partir da sua própria força, pode pôr o outro em contacto com Deus. Uma parte essencial da graça do sacerdote é o dom, a tarefa de criar este contacto. Isto realiza-se no anúncio da palavra de Deus, na qual a sua luz vem ao nosso encontro. Realiza-se de um modo particularmente denso nos Sacramentos. A imersão no Mistério pascal de morte e ressurreição de Cristo verifica-se no Baptismo, é revigorada na Confirmação e na Reconciliação, é alimentada pela Eucaristia, Sacramento que edifica a Igreja como Povo de Deus, Corpo de Cristo, Templo do Espírito Santo (cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Pastores gregis, 32). Portanto, é o próprio Cristo que santifica, ou seja, que nos atrai para a esfera de Deus. Mas como acto da sua misericórdia infinita chama alguns a "permanecer" com Ele (crf. Mc 3, 14) e a tornar-se, mediante o Sacramento da Ordem, não obstante a pobreza humana, participantes do seu próprio Sacerdócio, ministros desta santificação, dispensadores dos seus mistérios, "pontes" do encontro com Ele, da sua mediação entre Deus e os homens, e entre os homens e Deus (cf. Presbyterorum ordinis, 5).

Nas últimas décadas, houve tendências orientadas para fazer prevalecer, na identidade e na missão do sacerdote, a dimensão do anúncio, desligando-a da dimensão da santificação; afirmou-se muitas vezes que seria necessário superar uma pastoral meramente sacramental. Mas é possível exercer de forma autêntica o Ministério sacerdotal, "superando" a pastoral sacramental? O que significa propriamente para os sacerdotes evangelizar, em que consiste a chamada primazia do anúncio? Como narram os Evangelhos, Jesus afirma que o anúncio do Reino de Deus é a finalidade da sua missão; porém, este anúncio não é apenas um "discurso" mas inclui, ao mesmo tempo, o seu próprio agir; os sinais, os milagres que Jesus realiza, indicam que o Reino vem como realidade presente e que no final coincide com a sua própria pessoa, com o dom de si. E o mesmo é válido para o ministro ordenado: ele, o sacerdote, representa Cristo, o Enviado do Pai e continua a sua missão, mediante a "palavra" e o "sacramento". Santo Agostinho, numa carta enviada ao Bispo Honorato de Tiabes, referindo-se aos sacerdotes, afirma: "Portanto, os servos de Cristo, os ministros da palavra e do Seu sacramento façam aquilo que Ele ordenou ou permitiu" (Epist. 228, 2). É necessário reflectir se, em certos casos, o facto de ter subestimado o exercício fiel do munus sanctificandi, não representou talvez uma debilitação da própria fé na eficácia salvífica dos Sacramentos e, de modo definitivo, na obra actual de Cristo e do seu Espírito, através da Igreja, no mundo.

Portanto, quem salva o mundo e o homem? A única resposta que podemos dar é: Jesus de Nazaré, Senhor e Cristo, crucificado e ressuscitado. E onde se actualiza o Mistério da morte e ressurreição de Cristo, que traz a salvação? Na acção de Cristo, mediante a Igreja, de modo particular no Sacramento da Eucaristia, que torna presente a oferenda sacrificial redentora do Filho de Deus, no Sacramento da Reconciliação, em que da morte do pecado se volta à vida nova, e em todos os outros actos sacramentais de santificação (cf. Presbyterorum ordinis, 5). Portanto, é importante promover uma catequese adequada para ajudar os fiéis a compreender o valor dos Sacramentos, mas é igualmente necessário, a exemplo do Santo Cura d'Ars, estarmos disponíveis, sermos generoso e atentos a transmitir aos irmãos os tesouros de graça que Deus depositou nas nossas mãos, e dos quais não somos os "senhores", mas guardiães e administradores. Sobretudo neste nosso tempo em que, por um lado, parece que a fé se vai debilitando e, por outro, sobressaem uma profunda necessidade e uma difundida busca de espiritualidade, é necessário que cada sacerdote se recorde que na sua missão o anúncio missionário, o culto e os sacramentos nunca estão separados, e promova uma pastoral sacramental sadia, para formar o Povo de Deus e para o ajudar a viver plenamente a Liturgia, o culto da Igreja e os Sacramentos como dons gratuitos de Deus, gestos livres e eficazes da sua acção de salvação.

Como eu recordava na Santa Missa Crismal deste ano: "O centro do culto da Igreja é o Sacramento. Sacramento significa que, em primeiro lugar, não somos nós homens que realizamos algo, mas é Deus que vem antes ao nosso encontro com o seu agir, que nos olha e nos conduz para junto de Si (...) Deus toca-nos por meio de realidades materiais (...) que Ele assume ao seu serviço, transformando-as em instrumentos do encontro entre nós e Ele mesmo" (Homilia na Santa Missa Crismal, 1 de Abril de 2010). A verdade segundo a qual no Sacramento "não somos nós homens que realizamos algo" refere-se, e deve referir-se, também à consciência sacerdotal: cada presbítero sabe bem que é um instrumento necessário para o agir salvífico de Deus, contudo é sempre instrumento. Tal consciência deve tornar-nos humildes e generosos na administração dos Sacramentos, no respeito pelas normas canónicas, mas também na profunda convicção de que a própria missão é fazer com que todos os homens, unidos a Cristo, possam oferecer-se a Deus como hóstia viva e santa do seu agrado (cf. Rm 12, 1). Acerca do primado do munus sanctificandi e da justa interpretação da pastoral sacramental, é novamente exemplar São João Maria Vianney que um dia, a um homem que dizia que não tinha fé e desejava discutir com ele, o pároco retorquiu: "Oh, meu amigo, orientas-te muito mal, eu não sei raciocinar... mas se tiveres necessidade de alguma consolação, põe-te acolá... (o seu dedo indicava o inexorável banco [do confessionário] e, acredita-me, muitos outros se puseram ali antes de ti, e não se arrependeram" (cf. Monnin A., Il curato d'Ars. Vita di Gian-Battista-Maria Vianney, vol. i, Turim 1870, págs. 163-164).

Estimados sacerdotes, vivei com alegria e com amor a Liturgia e o culto: é um gesto que o Ressuscitado cumpre no poder do Espírito Santo em nós, connosco e por nós. Gostaria de renovar o convite feito recentemente a "voltar ao confessionário, como lugar onde celebrar o Sacramento da Reconciliação, mas também como lugar onde "habitar" com mais frequência, para que o fiel possa encontrar misericórdia, sentir-se amado e compreendido por Deus e experimentar a presença da Misericórdia Divina ao lado da Presença real na Eucaristia" (Discurso à Penitenciaria Apostólica, 11 de Março de 2010). E quereria convidar também cada sacerdote a celebrar e viver com intensidade a Eucaristia, que está no coração da tarefa de santificar; é Jesus que quer estar connosco, viver em nós, doar-se-nos, mostrar-nos a misericórdia e a ternura infinitas de Deus; é o único Sacrifício de amor de Cristo que se torna presente, se realiza entre nós e chega até ao trono da Graça, à presença de Deus, abrange a humanidade e nos une a Ele (cf. Discurso ao clero de Roma, 18 de Fevereiro de 2010). E o sacerdote está chamado a ser ministro deste grande Mistério, no Sacramento e na vida. Se "a grande tradição eclesial justamente desligou a eficácia sacramental da situação existencial concreta de cada sacerdote, e assim as legítimas expectativas dos fiéis são adequadamente salvaguardadas", isto em nada diminui "a necessária, aliás indispensável, tensão para a perfeição moral, que deve habitar em cada coração autenticamente sacerdotal": há também um exemplo de fé e de testemunho de santidade, que o Povo de Deus justamente espera dos seus Pastores (cf. Bento XVI, Discurso à Plenária da Congregação para o Clero, 16 de Março de 2009). E é na celebração dos Santos Mistérios que o presbítero encontra a raiz da sua santificação (cf. Presbyterorum ordinis, 12-13).

Caros amigos, sede conscientes do grande dom que os sacerdotes são para a Igreja e para o mundo; através do seu ministério, o Senhor continua a salvar os homens, a tornar-se presente, a santificar. Sabei dar graças a Deus, e sobretudo estai próximos dos vossos sacerdotes com a oração e o apoio, de maneira especial nas dificuldades, a fim de que haja cada vez mais Pastores segundo o Coração de Deus.


III - Munus regendi

O Ano sacerdotal está para terminar; por isso comecei nas últimas catequeses a falar sobre as tarefas essenciais do sacerdote, ou seja: ensinar, santificar e governar. Hoje vou falar sobre a missão do sacerdote de governar, de guiar, com a autoridade de Cristo, não com a própria, a porção do Povo que Deus lhe confiou.

Como compreender na cultura contemporânea tal dimensão, que implica o conceito de autoridade e tem origem no próprio mandato do Senhor de apascentar o rebanho? O que é realmente, para nós cristãos, a autoridade? As experiências culturais, políticas e históricas do passado recente, sobretudo as ditaduras na Europa do Leste e do Oeste no século XX, tornaram o homem contemporâneo suspeitoso em relação a este conceito. Uma suspeita que, com frequência, se traduz em defender como necessário o abandono de qualquer autoridade, que não provenha exclusivamente dos homens, lhes seja submetida e por eles controlada. Mas precisamente o olhar sobre os regimes que, no século passado, semearam terror e morte, recorda com vigor que a autoridade, em qualquer âmbito, quando é exercida sem uma referência ao Transcendente, se prescindir da Autoridade suprema, que é Deus, acaba inevitavelmente por se voltar contra o homem. É importante então reconhecer que a autoridade humana nunca é um fim, mas sempre e só um meio e que, necessariamente e em cada época, o fim é sempre a pessoa, criada por Deus com a própria intangível dignidade e chamada a realizar-se com o próprio Criador, no caminho terreno da existência e na vida eterna; é uma autoridade exercida na responsabilidade diante de Deus, do Criador. Uma autoridade tão intensa, que tenha como única finalidade servir o verdadeiro bem das pessoas e ser transparência do único Bem Supremo que é Deus, não só é alheia aos homens, mas, ao contrário, é uma preciosa ajuda no caminho para a plena realização em Cristo, rumo à salvação.

A Igreja está chamada e compromete-se a exercer este tipo de autoridade que é serviço, e exerce-a não em seu nome, mas no de Jesus Cristo, que do Pai recebeu todo o poder no Céu e na terra (cf. Mt 28, 18). De facto, através dos Pastores da Igreja Cristo apascenta a sua grei: é Ele quem a guia, protege e corrige, porque a ama profundamente. Mas o Senhor Jesus, Pastor supremo das nossas almas, quis que o Colégio Apostólico, hoje os Bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, e os sacerdotes, seus mais preciosos colaboradores, participassem nesta sua missão de se ocupar do Povo de Deus, de ser educadores na fé, orientando, animando e apoiando a comunidade cristã ou, como diz o Concílio, cuidassem "para que cada fiel seja levado, no Espírito Santo, a cultivar a própria vocação segundo o Evangelho, a uma caridade sincera e activa e à liberdade com que Cristo nos libertou" (Presbyterorum ordinis, 6). Portanto, cada Pastor é o meio através do qual o próprio Cristo ama os homens: é mediante o nosso ministério – queridos sacerdotes – é através de nós que o Senhor alcança as almas, as instrui, guarda e guia. Santo Agostinho, no seu Comentário ao Evangelho de São João, diz: "Seja portanto empenho de amor apascentar o rebanho do Senhor" (123, 5); esta é a norma suprema dos ministros de Deus, um amor incondicionado, como o do Bom Pastor, cheio de alegria, aberto a todos, atento ao próximo e solícito em relação aos distantes (cf. S. Agostinho, Discurso 340, 1; Discurso 46, 15), delicado para com os mais débeis, os pequeninos, os simples, os pecadores, para manifestar a misericórdia infinita de Deus com as palavras alentadoras da esperança (cf. Id., Carta 95, 1).

Se esta tarefa pastoral se funda no Sacramento, contudo a sua eficácia não é independente da existência pessoal do presbítero. Para ser Pastor segundo o coração de Deus (cf. Jr 3, 15) é preciso uma radicação profunda na amizade viva com Cristo, não só da inteligência, mas também da liberdade e da vontade, uma consciência clara da identidade recebida na Ordenação sacerdotal, uma disponibilidade incondicionada a conduzir o rebanho confiado aonde o Senhor quer e não na direcção que, aparentemente, parece mais conveniente ou mais fácil. Antes de tudo, isto exige a contínua e progressiva disponibilidade para deixar que o próprio Cristo governe a existência sacerdotal dos presbíteros. De facto, ninguém é realmente capaz de apascentar a grei de Cristo, se não viver uma obediência profunda e real a Cristo e à Igreja, e a própria docilidade do Povo aos seus sacerdotes depende da docilidade dos presbíteros a Cristo; por isso, na base do ministério pastoral está sempre o encontro pessoal e constante com o Senhor, o conhecimento profundo d'Ele, o conformar a própria vontade com a vontade de Cristo.

Nos últimos decénios, utilizou-se muitas vezes o adjectivo "pastoral" quase em oposição ao conceito de "hierárquico", assim como, na mesma contraposição, foi interpretada também a ideia de "comunhão". Talvez seja este o ponto sobre o qual pode ser útil uma breve observação sobre a palavra "hierarquia", que é a designação tradicional da estrutura de autoridade sacramental na Igreja, ordenada segundo os três níveis do Sacramento da Ordem: episcopado, presbiterado, diaconado. Prevalece na opinião pública, para esta realidade "hierárquica", os elementos de subordinação e jurídico; por isso, para muitos, a ideia de hierarquia parece estar em contraste com a flexibilidade e com a vitalidade do sentido pastoral e também ser contrária à humildade do Evangelho. Mas este é um sentido da hierarquia compreendido mal, historicamente também causado por abusos de autoridade e por carreirismo, que são precisamente abusos e não derivam do ser próprio da realidade "hierárquica". A opinião comum é que "hierarquia" é sempre algo relacionado com o domínio e assim não correspondente ao verdadeiro sentido da Igreja, da unidade no amor de Cristo. Mas, como eu disse, esta é uma interpretação errada, que tem origem em abusos da história, mas não corresponde ao verdadeiro significado daquilo que é a hierarquia. Comecemos com a palavra. Geralmente, diz-se que o significado da palavra hierarquia seria "domínio sagrado", mas o verdadeiro significado não é este, é "origem sagrada", ou seja: esta autoridade não provém do próprio homem, mas tem origem no sagrado, no Sacramento; submete portanto a pessoa à vocação, ao mistério de Cristo; faz do indivíduo um servo de Cristo e só como servo de Cristo ele pode governar, guiar para Cristo e com Cristo. Por isso quem entra na Ordem sagrada do Sacramento, a "hierarquia", não é um autocrata, mas entra num vínculo novo de obediência a Cristo: está ligado a Ele em comunhão com os outros membros da Ordem sagrada, do Sacerdócio. E também o Papa ponto de referência de todos os outros Pastores e da comunhão da Igreja não pode fazer o que quiser; ao contrário, o Papa é guardião da obediência a Cristo, à sua palavra resumida na "regula fidei", no Credo da Igreja, e deve preceder na obediência a Cristo e à sua Igreja. Hierarquia implica por conseguinte um tríplice vínculo: antes de tudo com Cristo e com a ordem dada pelo Senhor à sua Igreja; depois o vínculo com os outros Pastores na única comunhão da Igreja; e, por fim, o vínculo com os fiéis confiados a cada um, na ordem da Igreja.

Compreende-se portanto que comunhão e hierarquia não são contrárias uma à outra, mas condicionam-se. São juntas uma só coisa (comunhão hierárquica). Portanto, o Pastor é tal precisamente guiando e guardando a grei, e por vezes impedindo que ela se disperse. Fora de uma visão clara e explicitamente sobrenatural, não é compreensível a tarefa de governar, própria dos sacerdotes. Ela, ao contrário, apoiada pelo verdadeiro amor à salvação de cada fiel, é particularmente preciosa e necessária também no nosso tempo. Se a finalidade é levar o anúncio de Cristo e guiar os homens ao encontro salvífico com Ele para que tenham vida, a tarefa de guiar configura-se como um serviço vivido numa doação total para a edificação do rebanho na verdade e na santidade, muitas vezes indo contra-corrente e recordando que quem é o maior deve fazer-se como o mais pequeno, e quem governa, como aquele que serve (cf. Lumen gentium, 27).

De onde pode tirar hoje um sacerdote a força para a prática do próprio ministério, em plena fidelidade a Cristo e à Igreja, com uma dedicação total à grei? A resposta é uma só: em Cristo Senhor. O modo de governar de Jesus não é o do domínio, mas é o serviço humilde e amoroso do Lava-pés, e a realeza de Cristo sobre o universo não é um triunfo terreno, mas encontra o seu ápice no madeiro da Cruz, que se torna juízo para o mundo e ponto de referência para a prática da autoridade, que seja verdadeira expressão da caridade pastoral. Os santos, e entre eles São João Maria Vianney, exerceram com amor e dedicação a tarefa de cuidar da porção do Povo de Deus que lhes foi confiada, mostrando também que eram homens fortes e determinados, com o único objectivo de promover o verdadeiro bem das almas, capazes de pagar em primeira pessoa, até ao martírio, para permanecer fiéis à verdade e à justiça do Evangelho.

Queridos sacerdotes, "apascentai o rebanho que Deus vos confiou, velando por ele, não constrangidos, mas de boa vontade [...], como modelos do vosso rebanho" (1 Ped 5, 2). Portanto, não tenhais medo de guiar para Cristo cada um dos irmãos que Ele vos confiou, na certeza de que cada palavra e atitude, se vierem da obediência à vontade de Deus, darão fruto; sabei viver apreciando as qualidades e reconhecendo os limites da cultura na qual estamos inseridos, com a firme certeza de que o anúncio do Evangelho é o maior serviço que se pode prestar ao homem. De facto, não há bem maior, nesta vida terrena, do que conduzir os homens para Deus, despertar a fé, elevar o homem da inércia e do desespero, dar a esperança que Deus está próximo e guia a história pessoal e do mundo: é este, em suma, o sentido profundo e último da tarefa de governar que o Senhor nos confiou. Trata-se de formar Cristo nos crentes, através daquele processo de santificação que é conversão dos critérios, da escala de valores, de atitudes, para deixar que Cristo viva em cada fiel. São Paulo resume assim a sua acção pastoral: "Filhinhos meus, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós" (Gal 4, 19).




Fonte: Jorge Alves Barbosa
Aproxima-se do fim o Ano Scerdotal.


Em jeito de conclusão, Bento XVI dedicou três das últimas Alocuções nas Audiências Gerais de Quarta feira às três funções sacerdotais: anunciar, santificar e governar.

Penso que passaram um pouco despercebidas e representam, a meu ver, algo do que de mais importante se disse sobre o Sacerdócio neste ano. Particularmente pertinente a abordagem de algumas questões como a da santificação dos fiéis e a da hierarquia.




Porque gostei muito do que li e poderá ser proveitoso a mais alguém, até porque isto foi dirigido a leigos, aqui mando tudo junto num único documento.

Vale a pena ler.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Chamados a construirmos beleza

Chorar a rir, é caminho difícil, mas é para avançar em frente, segundo Bento XVI