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terça-feira, 20 de julho de 2010

CATEQUESE VIVA E ORIGINAL-O Papa e a Música


CATEQUESE VIVA E ORIGINAL


Audiência Geral na Aula Paulo VI sobre Romano o Melodista

21 de Maio de 2008

Romano, o Melodista, nascido por volta de 490 em Emesa (hoje,

Homs), na Síria. Teólogo, poeta e compositor, pertence à grande

plêiade de teólogos que transformaram a teologia em poesia.

Pensemos no seu compatriota, Santo Efrém da Síria, que viveu

duzentos anos antes dele. Mas pensemos também em teólogos do

Ocidente, como Santo Ambrósio, cujos hinos ainda hoje fazem parte

da nossa liturgia e sensibilizam também o coração; ou num teólogo,

num pensador de grande vigor como S. Tomás, que nos transmitiu os

hinos da festa do Corpus Christi de amanhã; pensemos em São João

da Cruz e em muitos outros. A fé é amor, e por isso cria poesia e

música. A fé é alegria, e por isso cria beleza.

Assim Romano, o Melodista, é um deles, um poeta e compositor

teólogo. Tendo aprendido os primeiros rudimentos de cultura grega e

síria na sua cidade natal, ele transferiu-se para Berito (Beirute),

aperfeiçoando aí a educação clássica e os conhecimentos rectóricos.

Tendo sido ordenado diácono permanente (515 ca.), ali foi pregador

durante três anos. Em seguida, transferiu-se para Constantinopla por

volta do final do reino de Anastácio I (518 ca.) e ali estabeleceu-se

no mosteiro, junto da igreja da Theotókos, a Mãe de Deus. Aí teve

lugar o episódio-chave da sua vida: o Sinaxário informa-nos sobre a

aparição em sonho da Mãe de Deus e sobre o dom do carisma

poético. Com efeito, Maria obrigou-o a engolir uma folha enrolada.

Quando acordou na manhã do dia seguinte era a festa da Natividade

do Senhor Romano começou a declamar do ambão: "Hoje, a Virgem

dá à luz o Transcendente" (Hino "Sobre a Natividade" I. Proémio).

Assim, tornou-se homilista-cantor até à sua morte (depois de 555).

Romano permanece na história como um dos mais representativos

autores de hinos litúrgicos. Nessa época, para os fiéis a homilia era

praticamente a única ocasião de educação catequética. Assim,

Romano apresenta-se como testemunha eminente do sentimento

religioso da sua época, mas também de um modo vivaz e original de

catequese. Através das suas composições, podemos dar-nos conta da

criatividade do pensamento teológico, da estética e da hinografia

sagrada daquela época. O lugar em que Romano pregava era um

santuário da periferia de Constantinopla: ele subia ao ambão, posto

no centro da igreja, e falava à comunidade recorrendo a uma

encenação bastante dispendiosa: utilizava representações murais ou

ícones dispostos sobre o ambão e recorria também ao diálogo. As

suas homilias eram métricas cantadas, chamadas "kontáki"

(kontákia). Parece que o termo kontákion, "pequena vara", se refere

à pequena haste ao redor da qual se envolvia o rolo de um

manuscrito litúrgico ou de outro tipo. Os kontákia que chegaram até

nós sob o nome de Romano são oitenta e nove, mas a tradição

atribui-lhe mil.

Em Romano, cada kontákion é composto de estrofes, sobretudo de

dezoito a vinte e quatro, com igual número de sílabas, estruturadas

segundo o modelo da primeira estrofe (irmo); os acentos rítmicos dos

versos de todas as estrofes modelam-se segundo os acentos do irmo.

Cada estrofe termina com um estribilho (efimnio), de resto idêntico

para criar a unidade poética. Além disso, as iniciais de cada uma das

estrofes indicam o nome do autor (acróstico), muitas vezes precedido

do adjectivo "humilde". Uma prece em relação aos gestos celebrados

ou evocados conclui o hino. Quando terminava a leitura bíblica,

Romano cantava o Proémio, sobretudo em forma de oração ou de

súplica. Assim, anunciava o tema da homilia e explicava o estribilho a

repetir em coro no final de cada uma das estrofes, por ele declamada

com cadência em voz alta.

Um exemplo significativo é-nos oferecido pelo kontákion para a

Sexta-Feira da Paixão: é um diálogo dramático entre Maria e o Filho,

que se desenvolve no caminho da cruz. Maria diz: "Aonde vais, Filho?

Por que percorres tão rapidamente o percurso da tua vida? / Jamais

teria acreditado, ó Filho, que te veria nesta condição, / e nunca teria

imaginado que a tal ponto de furor chegariam os ímpios / de lançar

as mãos sobre ti, contra toda a injustiça". Jesus responde: "Por que

choras, minha Mãe? [...] Não deveria eu padecer? Não deveria

morrer? / Então, como poderia salvar Adão?". O Filho de Maria

consola a Mãe, mas exorta-a ao seu papel na história da salvação:

"Depõe portanto, Mãe, depõe a tua dor: / não te corresponde o

gemer, porque foste chamada "cheia de graça"" (Maria aos pés da

cruz, 1-2; 4-5). Depois, no hino sobre o sacrifício de Abraão, Sara

reserva a si a decisão sobre a vida de Isaac. Abraão diz: "Quando

Sara ouvir, meu Senhor, todas as tuas palavras, / conhecendo esta

tua vontade, ela dir-me-á: / Se aquele que no-lo concedeu volta a

tomá-lo, por que no-lo deu? / [...] Tu, ó sentinela, deixa-me o meu

filho, / e quando aquele que te chamou o quiser, terá que dizê-lo a

mim" (O sacrifício de Abraão, 7).

Romano não adopta o solene grego bizantino da corte, mas um grego

simples, próximo à linguagem do povo. Aqui, gostaria de citar um

exemplo do seu modo vivaz e muito pessoal de falar do Senhor

Jesus: chama-lhe "fonte que não arde e luz contra as trevas", e diz:

"Ouso ter-te na mão como uma lâmpada; / com efeito, quem leva

uma candeia no meio dos homens é iluminado sem arder. / Iluminame,

pois, Tu que és a Lâmpada inextinguível" (A Apresentação, ou

Festa do Encontro, 8). A força de convicção das suas pregações

fundava-se na grande coerência entre as suas palavras e a sua vida.

Numa oração, ele diz: "Torna clara a minha língua, meu Salvador,

abre a minha boca / e, depois de a ter enchido, trespassa o meu

coração, para que o meu gesto / seja coerente com as minhas

palavras" (Missão dos Apóstolos, 2).

Agora, analisemos alguns dos seus temas principais. Um tema

fundamental da sua pregação é a unidade da acção de Deus na

história, a unidade entre criação e história da salvação, a unidade

entre o Antigo e o Novo Testamento. Outro tema importante é a

pneumatologia, ou seja, a doutrina sobre o Espírito Santo. Na Festa

do Pentecostes, ele ressalta a continuidade que existe entre Cristo

que subiu ao céu e os Apóstolos, ou seja, a Igreja, enquanto exalta a

sua acção missionária no mundo: "[...] com virtude divina

conquistaram todos os homens; / tomaram a cruz de Cristo como

uma caneta, / utilizaram as palavras como redes e, com elas,

pescaram o mundo, / tiveram o Verbo como anzol afiado, / como isca

tornou-se para eles / a carne do Soberano do universo" (O

Pentecostes, 2; 18).

Outro tema central é, naturalmente, a cristologia. Ele não entra no

problema dos conceitos difíceis da teologia, tão debatidos naquela

época, e que também muito dilaceraram a unidade não só entre os

teólogos, mas também entre os cristãos na Igreja. Ele prega uma

cristologia simples mas fundamental, a cristologia dos grandes

Concílios. Mas sobretudo, está próximo da piedade popular de resto,

os conceitos dos Concílios nasceram da piedade popular e do

conhecimento do coração cristão e assim Romano sublinha o facto de

que Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, e sendo

verdadeiro Homem-Deus, é uma só pessoa, a síntese entre a criação

e o Criador: nas suas palavras humanas, ouvimos falar o próprio

Verbo de Deus. "Era homem diz Cristo, mas também era Deus, /

porém não dividido em dois: é Um só, Filho de um Pai que é Um só"

(A Paixão, 19). Quanto à mariologia, grato à Virgem pelo dom do

carisma poético, Romano recorda-a no final de quase todos os hinos

e dedica-lhe os seus kontáki mais lindos: Natividade, Anunciação,

Maternidade divina e Nova Eva.

Enfim, os ensinamentos morais referem-se ao juízo final (As dez

virgens, [II]). Ele conduz-nos para este momento da verdade da

nossa vida, do confronto com o Juiz justo, e por isso exorta à

conversão na penitência e no jejum. De modo positivo, o cristão deve

praticar a caridade, a esmola. Ele acentua o primado da caridade

sobre a continência em dois hinos, as Bodas de Caná e as Dez

virgens. A caridade é a maior das virtudes: "[...] dez virgens

possuíam a virtude da virgindade intacta, /mas para cinco delas o

árduo exercício não deu fruto. / As outras brilharam pelas lâmpadas

do amor pela humanidade, / e foi por isso que o esposo as convidou"

(As dez virgens, 1).

Humanidade palpitante, ardor de fé e profunda humildade permeiam

os cantos de Romano, o Melodista. Este grande poeta e compositor

recorda-nos todo o tesouro da cultura cristã, nascida da fé, nascida

do coração que se encontrou com Cristo, com o Filho de Deus. Deste

contacto do coração com a Verdade que é Amor nasce a cultura,

nasceu toda a grande cultura cristã. E se a fé permanecer viva,

também esta herança cultural não morrerá, mas permanecerá viva e

presente. Os ícones falam também hoje ao coração dos fiéis, não são

realidades do passado. As catedrais não são monumentos medievais,

mas casas de vida, onde nos sentimos "em casa": encontramo-nos

com Deus e encontramo-nos uns com os outros. Nem sequer a

grande música o gregoriano, ou Bach, ou Mozart é algo do passado,

mas vive da vitalidade da liturgia e da nossa fé. Se a fé for viva, a

cultura cristã não se tornará algo do "passado", mas permanecerá

viva e presente. E se a fé for viva, também hoje poderemos

responder ao imperativo que se reitera sempre de novo nos Salmos:

"Cantai ao Senhor um cântico novo". Criatividade, invocação, canto

novo, cultura nova e presença de toda a herança cultural na

vitalidade da fé não se excluem, mas são uma única realidade; são

presença da beleza de Deus e da alegria de ser seus filhos.

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